Desvio admiravelmente sombrio e desconfortável para a DC Studios, que acerta em cheio no terror com “Clayface”, mas perde força na segunda metade, resultando num filme ousado, embora irregular
São poucos os filmes que se atreveram a juntar super-heróis e terror.
Wes Craven arriscou com Swamp Thing. Sam Raimi seguiu-lhe o exemplo com Darkman. E David Yarovesky tentou também esta fusão com Brightburn, a releitura em registo de terror, de 2019, de Superman, produzida por ninguém menos do que James Gunn, o atual co-diretor executivo da DC Studios.
Para o terceiro filme do primeiro capítulo do seu DC Universe, intitulado “Chapter One: Gods And Monsters”, Gunn e o co-responsável Peter Safran apostam na parte “monstros”. Escolhem um vilão de Batman menos conhecido e orquestram um desvio admiravelmente sombrio, com um orçamento mais contido (40 milhões de dólares), para o estúdio, depois das aventuras mais bombásticas e familiares de Superman e Supergirl.
Clayface tem como protagonista o relativamente desconhecido ator galês Tom Rhys Harries, no papel de Matt Hagen, um ator de rosto perfeito cuja carreira está em plena ascensão. De origens muito humildes até às nomeações para prémios, o galã de traços vincados e olhos azuis parece ter o mundo a seus pés.
Uma noite, celebra o momento ao envolver-se com uma jovem que conhece na pista de dança. O problema é que ela é namorada de um mafioso de Gotham City, Markos Szabo (David Dencik), conhecido pela facilidade com que puxa da faca, que se vinga abrindo a cara de Matt à navalha. Várias vezes.
A boca talhada, os ossos das faces rasgados e o nariz destruído significam que o seu aspeto deixou de estar pronto para a câmara. Desesperado por recuperar a vida de ídolo romântico e as perspetivas de carreira, o ator desfigurado recorre à Dra. Caitlyn Corr (a sempre notável Naomi Ackie), uma cientista na linha da frente da nanotecnologia que o injeta com um soro experimental de células estaminais. Impulsionada por inteligência artificial, a mistura não autorizada consegue regenerar tecido humano morto, e Matt implora a Caitlyn para ser a primeira cobaia humana.
Os resultados iniciais parecem promissores, até que efeitos secundários inesperados e de derreter a cara começam a manifestar-se. Matt entra então numa espiral violenta, alimentada pelo desejo de vingança, que o leva a injetar-se com todas as nanocélulas da médica…
Clayface funciona como uma história de origem sombria e surpreendentemente sangrenta, uma aventura refrescantemente autónoma que abraça o body horror sem reservas. Há o ataque inicial à faca, com a câmara a não desviar o olhar de todo o cortar e descascar; muita brutalidade visceral ligada a cirurgias reconstrutivas; e uma cena de casa de banho num avião, de encolher no assento, em que Matt tenta manter os olhos a colarem-se abertos recorrendo a uma tesoura de unhas.
Não é para estômagos sensíveis, mas, por mais impressionante que seja o gore, onde Clayface perde claramente fôlego é num argumento, ironicamente, bastante superficial, que não acompanha o esplêndido uso de efeitos práticos e próteses. O filme emperra no desenvolvimento das personagens e falha em explorar de forma convincente o potencial temático da narrativa ou a promessa contida nas várias transformações de Matt. Do rosto marcado à capacidade incipiente de alterar a cara para se assemelhar a outras pessoas, havia muito por explorar aqui sobre a superficialidade dos padrões de beleza e a natureza oca de Hollywood. E, quando o protagonista consegue transmitir tanto o lado perturbador como o peso devastador das suas transformações, ficamos com a sensação de que se podia ter ido mais longe na dimensão psicológica e metafórica inerente ao trajeto de um herói trágico que se deixa destruir por uma falha fatal.
Ninguém esperava um estudo de personagem exaustivo, mas alguma reflexão mais consistente sobre a perda de identidade teria sido merecida.
Em vez disso, o realizador James Watkins (Eden Lake, Speak No Evil) contenta-se com uma segunda metade mais genérica e previsível, que convida a imaginar o que poderia ter sido… É que o projeto foi inicialmente apresentado a Gunn e Safran por Mike Flanagan (Midnight Mass, The Haunting of Hill House, Carrie). Por conflitos de agenda, Flanagan nunca chegou a realizar Clayface e o seu argumento foi amplamente reescrito por Hossein Amini (Drive, Snow White and the Huntsman). Nos momentos mais arrastados do filme (diálogos desajeitados, um passado mal cosido sobre as origens humildes de Matt, um romance enfiado à força entre Matt e Caitlyn), fica a ideia de que, com Flanagan ao leme, Clayface poderia ter sido uma obra mais coesa.
É uma pena, porque os toques à la Brian Yuzna e as referências tanto a The Fly como a Eyes Without A Face eram muito promissores, e Harries mostra ter estofo de ator principal para segurar um filme. No entanto, tal como Milly Alcock em Supergirl, o esforço não é recompensado por nada de verdadeiramente novo ou radical.
Há mérito na DC Studios por arriscar e entregar algo mais cru e sangrento do que qualquer outra proposta de grande estúdio recente. É certamente diferente e significativamente, aliás amplamente, superior a anteriores filmes de vilões como Morbius, Madame Web ou Kraven The Hunter. Mas, por mais gráfico e desconfortável que seja Clayface, a história e as personagens precisavam de se entranhar um pouco mais para se tornarem verdadeiramente inesquecíveis.
Clayface já está em exibição nas salas de cinema.