A herdeira citou Paul Valéry pela voz de uma personagem de um filme do Estúdio Ghibli, “O vento ergue-se, é preciso tentar viver!”, para encerrar um discurso muito político, centrado no combate à desafeição contemporânea, tema recorrente entre os galardoados.
“And they saw nothing / No future at all / Yet I was free”. “Não viram nada, nenhum futuro, mas eu era livre”.
Num exercício da poesia falada revolucionária com que iniciou o seu percurso artístico, a poeta e cantora Patti Smith captou o espírito dos discursos da quadragésima sexta edição dos Prémios Princesa das Astúrias ao interpretar ‘Wing’. Na canção, em que surge a Espanha que a distinguiu esta sexta-feira no Teatro Campoamor, em Oviedo, ironiza-se sobre a percepção errada de que os seres humanos podem sobreviver uns sem os outros e reafirma-se a liberdade individual.
Não foi a única galardoada (embora tenha sido a mais aplaudida pelo público, um carinho sentido estes dias nas ruas de Oviedo) a sublinhar a importância da colectividade, a par da defesa da personalidade própria, num segundo quarto de século incerto em que a humanidade está a entrar.
A presidente da Fundação Princesa das Astúrias optou por abrir a cerimónia de entrega de prémios citando Meryl Streep, uma das galardoadas mais lembradas dos últimos anos pelo entusiasmo com que se viu rodeada de gaiteiros asturianos: a cerimónia afirma-se como “o eco das vozes de muitos dos nossos heróis do século XX e deste nosso jovem século”.
Christina Koch conseguiu desmontar alguns estereótipos sobre os engenheiros, com um discurso bem estruturado e pensado para ligar de imediato com a sala (“A primeira vez que estive em Espanha, chorei abertamente em plena rua”). A escolha da astronauta como galardoada com o Prémio da Concórdia apelou a que se procurasse a concórdia numa “espécie capaz de se unir”, ligada pela “procura de afecto”.
Crescido num lar de um fervoroso partidário do ‘Brexit’, o britânico Timothy Garton Ash arrancou um dos poucos aplausos espontâneos da sala ao sublinhar a Grã-Bretanha – não uma, mas duas vezes – como parte indivisível do Velho Continente.
Não foi o único gesto político deste europeísta convicto: numa defesa decidida das liberdades conquistadas através da academia, do jornalismo ou do direito, Garton Ash mencionou explicitamente o Tribunal Penal Internacional, alvo de ataques sem reservas pela Administração Trump e cujos juízes foram sancionados pelos Estados Unidos.
Para que nenhum espanhol ficasse sem perceber a mudança, Leonor de Bourbon quis deixar claro o seu salto das Forças Armadas para o grau universitário em Ciência Política, com um discurso cheio de tecnicismos diplomáticos (‘realpolitik’) e referências políticas para iniciados (como a citação ao relatório Draghi, o banqueiro de referência no Bairro Europeu), na quadragésima sexta edição dos Prémios Princesa das Astúrias.
“Nenhuma IA poderá replicar a emoção que provoca a sua obra”, disse a princesa, referindo-se ao galardoado das Letras, Julian Barnes. O escritor abriu a ronda de discursos com uma referência a um dos pintores ibéricos mais universais: “Quando se olha para Velázquez, percebe-se que já está tudo dito; a maioria dos escritores e artistas teve, em algum momento da vida, percepções tão esclarecedoras como as dele”. Rosalía resumiu melhor há uns anos: “Está todo inventao”.
Felipe VI foi ainda mais explícito do que a filha sobre a IA. “Vivemos num mundo em que a Inteligência Artificial, pela eficácia e pela rapidez, às vezes nos parece mais fiável do que a humana. Os nossos premiados desfazem essa impressão: os seus feitos, vividos e trabalhados até à medula, mostram que só com esforço e perseverança pode o talento transformar o seu potencial em realidades tangíveis e duradouras”.
O Rei referiu-se também às futuras eleições legislativas espanholas. “Numa sociedade madura como a nossa, o exercício da democracia também exige tempo. Não se esgota em eleições como as que brevemente teremos, em que os cidadãos terão, uma vez mais, a altíssima responsabilidade de definir a orientação política do nosso país”.
Deixou ainda um recado à cidadania e aos seus representantes políticos. “A democracia exige um compromisso diário, cívico e exigente, um cuidado com as suas formas e instituições, para continuar a garantir a nossa convivência e iluminar essa busca do bem comum que atenda e equilibre – da melhor forma possível – os legítimos interesses de todos os cidadãos”, afirmou Felipe VI.
Na parte final da cerimónia, a herdeira optou por citar uma das frases mais emocionantes do Prémio de Comunicação e Humanidades, atribuído ao Estúdio Ghibli, representado pelo seu presidente, Kenichi Yoda. O protagonista de um dos filmes, citando Paul Valéry, proclama com entusiasmo: “O vento levanta-se, é preciso tentar viver!”. Tanto ela como os galardoados parecem concordar quanto ao espírito da época que se aproxima e ao ânimo com que a encaram.