Preços do gás triplicam em 2026 e reservas da UE caem para mínimos históricos; analistas explicam impacto nas contas de inverno e quanto tempo pode durar
Depois de 2022, Europa fez uma promessa: nunca mais deixar que o inverno dependa de um país em guerra.
Quatro anos depois, essa dependência mantém-se. Só mudou o país.
Enquanto a atenção pública se concentrou sobretudo no petróleo e no gasóleo, foi-se acumulando uma pressão potencialmente mais grave através do gás natural.
Analistas alertam agora que a Europa poderá ter de reduzir o consumo de gás para chegar ao fim de março, numa altura em que as reservas entram no inverno no nível mais baixo para esta época desde que há registos.
“A produção eólica e as temperaturas vão determinar quão apertado fica o abastecimento de gás na Europa neste inverno e até onde sobem os preços”, disse à Euronews Ana Maria Jaller‑Makarewicz, principal analista de energia para a Europa no Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA).
“A redução da procura continua a ser o principal instrumento ao alcance da Europa”, acrescentou.
Europa: até onde subiram os preços do gás
O contrato holandês TTF, referência para o preço do gás na Europa, era negociado em cerca de 28 euros por megawatt hora no início de janeiro.
Nesta segunda-feira, rondava os 96 euros, depois de tocar brevemente nos 97,64 euros, o valor mais alto desde dezembro de 2022. Representa uma subida de cerca de 234% desde o início do ano.
Os preços continuam longe do pico de agosto de 2022, acima dos 340 euros.
Mas, neste momento, preocupa menos o nível do que a tendência.
Europa: para onde foi o gás
A guerra com o Irão e o encerramento do estreito de Ormuz cortaram o acesso da Europa a um dos seus principais fornecedores: o Qatar.
O gás natural liquefeito (GNL) proveniente do Médio Oriente representou cerca de 8% das importações de GNL da UE no ano passado, segundo o centro de estudos Bruegel, sediado em Bruxelas.
Desde maio, nenhum carregamento chegou.
Esta quota pode parecer pequena. Mas, num mercado global apertado, cada carregamento em falta tem de ser substituído por outro disputado também por compradores asiáticos.
Há ainda uma segunda lacuna no horizonte. O GNL russo continuou a representar cerca de um quinto das importações de GNL da UE no segundo trimestre, de acordo com o Bruegel.
A partir de janeiro de 2027, a UE vai proibi-lo totalmente.
“No relatório, a proibição do GNL russo a partir de janeiro de 2027 é incluída no cálculo que mostra que a UE poderá ter de usar cerca de menos 7% de gás do que no último inverno”, explicou Jaller‑Makarewicz, referindo‑se ao estudo do IEEFA publicado no início deste mês.
Europa: porque preocupam os níveis de armazenamento de gás
Sem gás do Qatar, a Europa não conseguiu reconstituir as reservas este verão.
As reservas da UE estavam 74,6% cheias a 24 de outubro, segundo o Bruegel. Um ano antes, estavam em 82,9%. Em 2023, estavam praticamente completas, em 98,5%.
O IEEFA afirma que é o nível mais baixo para esta altura do ano desde o início dos registos, em 2011.
Mais do que o nível, sobressai o facto de as reservas terem deixado de crescer. Na semana até 24 de outubro, as variações diárias oscilaram em torno de zero e alguns países já começaram a utilizar os stocks de inverno antes de novembro.
As reservas da Áustria, por exemplo, desceram de 69,3% em meados de outubro para 67,2%, face a 84% há um ano.
A empresa de investigação energética Wood Mackenzie prevê agora que, no fim de março, as reservas europeias estejam apenas entre 17% e 20% cheias, alguns pontos abaixo da sua estimativa anterior.
Esta projeção parte do pressuposto de um inverno normal e de que o conflito no Médio Oriente termina este ano, permitindo ao Qatar e aos Emirados Árabes Unidos retomar a produção habitual de GNL no início de 2027, segundo Tom Marzec‑Manser, diretor para Gás e GNL na Europa da empresa.
“Se o inverno for rigoroso – o que não é o cenário de consenso por causa do El Niño –, os níveis de armazenamento podem descer ainda mais”, disse Tom Marzec‑Manser, diretor para Gás e GNL na Europa na Wood Mackenzie, à Euronews.
Os preços voltariam então a subir, acrescentou, à medida que a Europa supera a Ásia na disputa pelos carregamentos disponíveis.
Para a Europa, terminar o inverno com stocks quase vazios obrigaria a uma reposição mais intensa no verão seguinte, voltando a pressionar os preços em alta.
Europa: até quando duram os preços elevados do gás
Mesmo um fim rápido da guerra não traria um alívio imediato.
“Mesmo assumindo que o conflito termina até ao fim do ano e que os produtores do Médio Oriente começam a normalizar as operações de GNL no início do próximo ano, continuamos a considerar que só no outono de 2028 o mercado global de GNL voltará a entrar em equilíbrio”, afirmou Marzec‑Manser.
“Isto significa que os preços grossistas do gás vão permanecer elevados na Europa durante grande parte deste período”, acrescentou.
Europa: quanto pode subir a sua fatura do gás
Os futuros TTF para os meses de inverno negociam-se em cerca de 95 euros por megawatt hora, quase três vezes a média de cerca de 36 euros registada no último inverno.
Esta diferença traduz-se em cerca de seis cêntimos de euro por cada quilowatt hora de gás.
Para uma casa típica aquecida a gás, que consome cerca de 10 000 quilowatt horas entre novembro e março, isso representaria um acréscimo de cerca de 600 euros apenas na componente energética.
Com uma taxa média de IVA de 20%, o valor sobe para perto de 715 euros.
Os preços para as famílias já tinham começado a subir. O gás residencial custava em média 11,9 cêntimos de euro por quilowatt hora nas capitais da UE no início de setembro, mais 12% do que em fevereiro, segundo o Índice de Preços da Energia Doméstica (HEPI), compilado pela Energie‑Control Austria, pela MEKH e pela VaasaETT.
Quanto da subida nos mercados grossistas chega a cada família depende do país onde vive e do tipo de contrato que tem. Contratos com preço fixo, tarifas reguladas e apoios públicos podem atrasar ou atenuar o impacto.
Europa: consegue reduzir o consumo para atravessar o inverno
Parte da redução da procura poderá acontecer de forma automática, referiu Jaller‑Makarewicz, porque os preços elevados levam alguns utilizadores a consumir menos.
Para as famílias, as medidas são simples.
Baixar em um grau a temperatura dos termóstatos pode poupar até 10% na fatura de energia, segundo Jaller‑Makarewicz. Reduzir a temperatura da água quente e isolar melhor as habitações também ajuda.
Sobre se Bruxelas deve coordenar já cortes na procura, em vez de esperar por um pico de preços, a analista defende uma abordagem comum com margem de adaptação nacional.
“Bruxelas poderia fornecer um quadro para alcançar esta meta, permitindo que cada Estado‑membro implemente medidas adaptadas às especificidades do seu mercado nacional de gás.”
A resposta de longo prazo, na sua opinião, passa por continuar a reduzir a necessidade de gás na Europa.
“Cada novo projeto de energias renováveis, sistema de armazenamento em baterias e modernização das redes ajuda a diminuir a dependência da Europa face ao gás”, afirmou. A procura de gás na UE caiu 17,7% entre 2021 e 2025, o que descreveu como uma almofada crucial contra falhas de abastecimento.
Essa almofada está agora a ser posta à prova.
Depois de 2022, a Europa mudou de fornecedores. Não mudou o grau de dependência. E, neste inverno, o facto de isso se transformar ou não numa crise pode depender menos de Bruxelas do que de quão frio for janeiro e de quão forte soprar o vento.