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Deslocados ou com deportação forçada: para onde vão civis encurralados em Oleshky

Homem passa sob redes antidrone estendidas sobre uma rua junto a edifício destruído da administração regional, durante cessar-fogo em Kherson, Ucrânia, 27 de outubro de 2026
Um homem passa sob redes antidrone estendidas sobre uma rua em frente a um edifício destruído da administração regional durante uma trégua em Kherson, Ucrânia, 27 out. 2026. -  Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Sasha Vakulina
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Trégua temporária permite ajuda e saída de civis de Oleshky, sob ocupação russa, mas receios de transporte via Rússia ou Crimeia levantam dúvidas sobre chegada a zonas controladas por Kiev.

Uma evacuação humanitária planeada na cidade de Oleshky, ocupada pelas forças russas na região de Kherson, no sul da Ucrânia, está a suscitar receios de deslocações forçadas, perante informações de que civis à procura de segurança poderão ser inicialmente transportados através de território controlado pela Rússia.

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A missão humanitária, acordada com a participação da primeira‑dama dos Estados Unidos, Melania Trump, inclui uma trégua temporária, a entrega de ajuda e preparativos para evacuar civis.

Segundo relatos, os residentes que aceitarem partir poderão ser levados primeiro de autocarro para a Crimeia ocupada pela Rússia ou para território russo, antes de lhes ser permitido seguir viagem, o que aumenta os receios de deportações forçadas.

A perspetiva reacende memórias das transferências forçadas de civis ucranianos a partir de Mariupol e de outras zonas ocupadas ao longo da costa do mar de Azov em 2022.

Trégua: primeiras 30 horas sem incidentes

A trégua temporária entrou em vigor na terça‑feira e deverá manter‑se até 1 de novembro.

Na quarta‑feira, o Provedor dos Direitos Humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, afirmou que as primeiras 30 horas decorreram “sem um único incidente”, proporcionando um raro alívio para os cerca de 2 000 civis que permanecem em Oleshky, numa altura de graves carências de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais.

A trégua permitiu também a alguns ucranianos deslocados da região de Kherson visitarem, pela primeira vez em anos, as suas casas e familiares em zonas libertadas, depois de sucessivos ataques de drones russos, incluindo a perseguição deliberada de civis no que passou a ser conhecido como “safari humano”, terem tornado essas deslocações demasiado perigosas.

A Euronews contactou responsáveis ucranianos para obter mais detalhes sobre os planos de evacuação, mas estes recusaram comentar, invocando a sensibilidade da operação e a fragilidade da trégua.

Redes anti‑drone estendidas sobre uma rua durante uma trégua local ligada aos esforços para evacuar residentes de Oleshky, em Kherson, Ucrânia, terça‑feira, 27 de outubro de 2026.
Redes anti‑drone estendidas sobre uma rua durante uma trégua local ligada aos esforços para evacuar residentes de Oleshky, em Kherson, Ucrânia, terça‑feira, 27 de outubro de 2026. AP Photo

Mariupol: ecos das deportações forçadas

Em 2022, civis que fugiam de Mariupol e de outras zonas ocupadas ao longo da costa do mar de Azov foram transportados para território controlado pela Rússia, onde muitos foram submetidos a controlos de segurança obrigatórios, conhecidos como “filtragem”, envolvendo interrogatórios, revistas e recolha de dados biométricos.

A Human Rights Watch documentou casos em que os civis não tinham uma escolha real senão viajar para a Rússia ou para zonas sob ocupação russa, enquanto a Amnistia Internacional recolheu relatos de espancamentos, choques elétricos e ameaças de execução durante detenções relacionadas com o processo de filtragem. As duas organizações concluíram que as transferências forçadas levadas a cabo pela Rússia constituem crimes de guerra e podem equivaler a crimes contra a humanidade.

O precedente levanta dúvidas sobre se quem sair de Oleshky poderá escolher o destino e continuar viagem sem restrições. A passagem pela Rússia ou pela Crimeia ocupada não constitui, por si só, deportação forçada. A questão crucial é saber se as partidas são verdadeiramente voluntárias e se os civis mantêm liberdade de movimento.

Um homem e uma rapariga que saíram de um abrigo em Azovstal dirigem‑se para um autocarro escoltados por um militar do exército russo em Mariupol, Ucrânia, 6 de maio de 2022.
Um homem e uma rapariga que saíram de um abrigo em Azovstal dirigem‑se para um autocarro escoltados por um militar do exército russo em Mariupol, Ucrânia, 6 de maio de 2022. AP Photo

Moscovo: garantias alimentam novas preocupações

A Rússia rejeita a possibilidade de os residentes serem retirados à força de Oleshky, insistindo que qualquer evacuação ocorrerá apenas com o seu consentimento.

Mas a comissária russa para os Direitos Humanos, Yana Lantratova, alimentou essas preocupações ao afirmar que Oleshky é território russo e que ali só se aplica a legislação da Rússia.

A localidade continua a ser reconhecida internacionalmente como parte da Ucrânia, e as reivindicações de soberania de Moscovo não alteram o seu estatuto ao abrigo do direito internacional.

Lantratova reiterou que os residentes devem poder decidir livremente se querem partir e para onde. Indicou que a missão irá entregar alimentos, medicamentos e produtos de higiene e apoiar quem desejar sair, embora tenha afirmado que relativamente poucos habitantes querem abandonar a cidade.

Oleshky: anos de isolamento e crise humanitária

Oleshky, situada na margem oposta do rio Dnipro em relação à cidade de Kherson, controlada pela Ucrânia, está sob ocupação russa desde os primeiros dias da invasão em larga escala lançada por Moscovo em fevereiro de 2022.

Segundo o Institute for the Study of War (ISW), as autoridades de ocupação russas suspenderam o fornecimento de alimentos e outros bens essenciais no final de dezembro de 2025, sem que qualquer alimento ou medicamento tenha chegado à localidade desde maio de 2026.

Este centro de estudos sediado nos Estados Unidos indicou que Moscovo rejeitou propostas ucranianas de tréguas humanitárias locais em maio, julho e setembro, o que levou as forças ucranianas a recorrer ao envio de alimentos por drone. O instituto responsabiliza as autoridades de ocupação russas pela crise humanitária, acusando‑as de bloquearem de forma recorrente a ajuda e as rotas de evacuação.

Para os residentes que ainda permanecem em Oleshky, a incerteza continua.

O sucesso da operação dependerá não só de a trégua se manter e a ajuda chegar à localidade, mas também de quem quer partir o poder fazer livremente e alcançar o destino que escolher.

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