Trégua temporária permite ajuda e saída de civis de Oleshky, sob ocupação russa, mas receios de transporte via Rússia ou Crimeia levantam dúvidas sobre chegada a zonas controladas por Kiev.
Uma evacuação humanitária planeada na cidade de Oleshky, ocupada pelas forças russas na região de Kherson, no sul da Ucrânia, está a suscitar receios de deslocações forçadas, perante informações de que civis à procura de segurança poderão ser inicialmente transportados através de território controlado pela Rússia.
A missão humanitária, acordada com a participação da primeira‑dama dos Estados Unidos, Melania Trump, inclui uma trégua temporária, a entrega de ajuda e preparativos para evacuar civis.
Segundo relatos, os residentes que aceitarem partir poderão ser levados primeiro de autocarro para a Crimeia ocupada pela Rússia ou para território russo, antes de lhes ser permitido seguir viagem, o que aumenta os receios de deportações forçadas.
A perspetiva reacende memórias das transferências forçadas de civis ucranianos a partir de Mariupol e de outras zonas ocupadas ao longo da costa do mar de Azov em 2022.
Trégua: primeiras 30 horas sem incidentes
A trégua temporária entrou em vigor na terça‑feira e deverá manter‑se até 1 de novembro.
Na quarta‑feira, o Provedor dos Direitos Humanos da Ucrânia, Dmytro Lubinets, afirmou que as primeiras 30 horas decorreram “sem um único incidente”, proporcionando um raro alívio para os cerca de 2 000 civis que permanecem em Oleshky, numa altura de graves carências de alimentos, medicamentos e outros bens essenciais.
A trégua permitiu também a alguns ucranianos deslocados da região de Kherson visitarem, pela primeira vez em anos, as suas casas e familiares em zonas libertadas, depois de sucessivos ataques de drones russos, incluindo a perseguição deliberada de civis no que passou a ser conhecido como “safari humano”, terem tornado essas deslocações demasiado perigosas.
A Euronews contactou responsáveis ucranianos para obter mais detalhes sobre os planos de evacuação, mas estes recusaram comentar, invocando a sensibilidade da operação e a fragilidade da trégua.
Mariupol: ecos das deportações forçadas
Em 2022, civis que fugiam de Mariupol e de outras zonas ocupadas ao longo da costa do mar de Azov foram transportados para território controlado pela Rússia, onde muitos foram submetidos a controlos de segurança obrigatórios, conhecidos como “filtragem”, envolvendo interrogatórios, revistas e recolha de dados biométricos.
A Human Rights Watch documentou casos em que os civis não tinham uma escolha real senão viajar para a Rússia ou para zonas sob ocupação russa, enquanto a Amnistia Internacional recolheu relatos de espancamentos, choques elétricos e ameaças de execução durante detenções relacionadas com o processo de filtragem. As duas organizações concluíram que as transferências forçadas levadas a cabo pela Rússia constituem crimes de guerra e podem equivaler a crimes contra a humanidade.
O precedente levanta dúvidas sobre se quem sair de Oleshky poderá escolher o destino e continuar viagem sem restrições. A passagem pela Rússia ou pela Crimeia ocupada não constitui, por si só, deportação forçada. A questão crucial é saber se as partidas são verdadeiramente voluntárias e se os civis mantêm liberdade de movimento.
Moscovo: garantias alimentam novas preocupações
A Rússia rejeita a possibilidade de os residentes serem retirados à força de Oleshky, insistindo que qualquer evacuação ocorrerá apenas com o seu consentimento.
Mas a comissária russa para os Direitos Humanos, Yana Lantratova, alimentou essas preocupações ao afirmar que Oleshky é território russo e que ali só se aplica a legislação da Rússia.
A localidade continua a ser reconhecida internacionalmente como parte da Ucrânia, e as reivindicações de soberania de Moscovo não alteram o seu estatuto ao abrigo do direito internacional.
Lantratova reiterou que os residentes devem poder decidir livremente se querem partir e para onde. Indicou que a missão irá entregar alimentos, medicamentos e produtos de higiene e apoiar quem desejar sair, embora tenha afirmado que relativamente poucos habitantes querem abandonar a cidade.
Oleshky: anos de isolamento e crise humanitária
Oleshky, situada na margem oposta do rio Dnipro em relação à cidade de Kherson, controlada pela Ucrânia, está sob ocupação russa desde os primeiros dias da invasão em larga escala lançada por Moscovo em fevereiro de 2022.
Segundo o Institute for the Study of War (ISW), as autoridades de ocupação russas suspenderam o fornecimento de alimentos e outros bens essenciais no final de dezembro de 2025, sem que qualquer alimento ou medicamento tenha chegado à localidade desde maio de 2026.
Este centro de estudos sediado nos Estados Unidos indicou que Moscovo rejeitou propostas ucranianas de tréguas humanitárias locais em maio, julho e setembro, o que levou as forças ucranianas a recorrer ao envio de alimentos por drone. O instituto responsabiliza as autoridades de ocupação russas pela crise humanitária, acusando‑as de bloquearem de forma recorrente a ajuda e as rotas de evacuação.
Para os residentes que ainda permanecem em Oleshky, a incerteza continua.
O sucesso da operação dependerá não só de a trégua se manter e a ajuda chegar à localidade, mas também de quem quer partir o poder fazer livremente e alcançar o destino que escolher.