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O projeto que ajuda a combater a solidão dos idosos e a crise da habitação estudantil

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Une.Idades une idosos e jovens para resolver solidão entre os seniores e alojamento estudantil escasso
Une.Idades une idosos e jovens para resolver solidão entre os seniores e alojamento estudantil escasso -  Direitos de autor  Euronews/Bruno Figueiredo
Direitos de autor Euronews/Bruno Figueiredo
De Diana Rosa Rodrigues
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Une.Idades é o nome da associação que junta estudantes deslocados e à procura de casa a idosos que têm um quarto disponível. Mais do que uma solução prática para problemas existentes, quem participa fala em partilha e amizade, numa casa que não é só física.

Margarida Morais é uma história por si só. Aos 86 anos ainda trabalha como costureira, ofício que aprendeu com apenas dez anos. A casa onde mora, uma cave na freguesia da Ajuda, em Lisboa, foi o lar onde criou os seis filhos e, ao mesmo tempo, o seu atelier. Das suas mãos nasceram mais de mil vestidos de noiva, com os registos de uma vida inteira de trabalho a figurarem na memória desta mulher e nas paredes da casa que ainda habita, forradas de quadros e fotografias de outros tempos.

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Depois de ter adoecido, Margarida chegou mesmo a ir para um lar: "Estive lá três meses e vi com os meus olhos que aquilo ainda não era para mim", afirmou à Euronews.

"Depois de estar aqui em casa, os meus filhos continuaram a bater na tecla para eu ir para casa deles. Eu gosto muito deles, trabalhei muito para os criar, mas não quero ir para ocupá-los antes do tempo. Pode ser que um dia eu tenha que ir, mas agora ainda não", reforçou.

No passa-palavra e em conversas com amigas e clientes, chegou até Inês Schmidt, fundadora da associação Une.Idades.

O nome é autoexplicativo: o projeto pretende unir idades, promovendo relações intergeracionais e o envelhecimento ativo, procurando combater a solidão e o isolamento social dos seniores ao mesmo tempo que proporciona opções de alojamento acessível a jovens estudantes. Na prática, encontra duplas que possam funcionar entre um sénior que precisa de companhia e tem um quarto disponível e um jovem estudante que precisa de um quarto e tem companhia para oferecer.

Margarida Morais de 86 anos recebeu Liliana em sua casa
Margarida Morais de 86 anos recebeu Liliana em sua casa Euronews/Bruno Figueiredo

"Este ano, a Inês trouxe-me uma linda menina que tem muito a ver comigo. Estamos as duas radiantes, eu tenho quase a certeza que ela diz isto todos os dias", diz entre risos. Não é a primeira vez que Margarida participa no projeto. Depois da primeira experiência positiva, recebeu em casa Liliana Guerreiro, que decidiu fazer um mestrado em Lisboa.

Viver numa cidade grande não é novidade para esta jovem de 27 anos, que já passou temporariamente por outros destinos como Barcelona, Madrid ou Berlim. Ainda assim, poder estar completamente sozinha numa cidade cheia de gente, era algo que a preocupava.

"Eu sinto que aqui em Lisboa há muito individualismo, é cada um por si, e eu tinha um bocado aquele receio de chegar aqui e sentir-me muito sozinha numa cidade tão grande". A jovem vivia em Portalegre, numa casa partilhada: "nós não nos conhecíamos de lado nenhum, mas jantávamos juntas, esperávamos umas pelas outras, partilhávamos momentos de convívio", explica a jovem que receou não conseguir encontrar algo semelhante na capital portuguesa.

"Aqui é aquela coisa de ninguém conhecer quem é que vive no prédio, ninguém sabe quem é que é o vizinho do lado, e eu sinto que há muito essa questão de individualidade", reforçou a jovem.

Felicidade "de ouvir uma chave na porta"

Liliana e Margarida foram o útil e o agradável uma da outra. Para a idosa, a presença da jovem em casa oferece uma segurança que, aos 86 anos, representa uma espécie de "liberdade"

"Dá-me liberdade saber que não estou sozinha", explica Margarida. "Ela levanta-se de manhã cedo antes de eu me levantar, vai para as aulas, vem quatro e meia, cinco, seis horas. E eu felicíssima de ouvir uma chave na porta, porque não gosto de estar sozinha."

Já Liliana encontrou o quarto de que precisava mas também o sentimento de "casa" pelo qual ansiava, reconhecendo em Magarida a sua "famíla de Lisboa". "É o chegar a casa e ter companhia. É o saber que vou ter alguém com quem ir jantar. É uma presença constante".

Liliana e Margarida aproveitam as refeições em conjunto para conversar
Liliana e Margarida aproveitam as refeições em conjunto para conversar Euronews/Bruno Figueiredo

O par foi o "match" perfeito encontrado pela associação para resolver os problemas de ambas. A ligação fica para sempre, "uma amiga", tal como já tinha comprovado a experiência anterior. "Até mesmo a outra pequena que não comunicava muito, era uma rapariga muito caladinha, eu fiquei amiga dela e ela minha. Ela quando me telefona diz sempre "obrigada por tudo que fez por mim", explica Magarida que confessa, já tentou que outras pessoas avançassem para o projeto.

"Olha, eu ando a convencer três amigas, todas dão desculpas e eu digo que as desculpas não têm a razão de ser."

Habitação e solidão: uma solução para dois problemas

Inês Schmidt inspirou-se em projetos do exterior para lançar a iniciativa, que ainda não completou três anos. Neste período, foram formadas cerca de 80 duplas, num processo rigoroso e exigente que pretende dar resposta a dois problemas: a solidão e a falta de alojamento para estudantes.

"Era muito para combater esta solidão e isolamento social dos mais velhos. Ao montar o projeto também começámos a perceber que, de facto, a parte dos estudantes também era um grande problema", explica à Euronews.

O projeto propõe uma solução prática que acaba por proporcionar muito mais do que apenas um quarto e companhia, o que, por si só, já seria suficiente.

"É muito giro ver, quando se juntam os dois, o bem que podem fazer um ao outro. Muitas vezes as pessoas vão porque precisam, porque querem um alojamento mais barato, mas depois toda aquela convivência do mais novo com o mais velho, aprendem imenso. O mais velho também beneficia, de repente, de imensas ajudas, seja a nível da informática ou dos canais de televisão.

"Uma frase que ouvimos muito é a de 'adoro ouvir a chave na porta'. Esta sensação da pessoa saber que não está sozinha. Há sempre alguém que chega, não é agora, se calhar é daqui a bocado, mas vai chegar e eu não estou sozinha", reforçou Inês, indicando como tal mudança pode impactar a vida destas pessoas.

"Dá muito gosto para nós ver e o que sentimos é que as pessoas, quando estão no nosso projeto, principalmente estas pessoas mais velhas, começam a ter um estilo de vida diferente. Depois de receberem um estudante em casa, começam-se a tornar mais ativos, mais conectados, saem mais de casa, vão para programas da comunidade, aceitam desafios nossos também."

"Tem de estar disposto a dar de si ao outro"

Numa altura em que a crise da habitação se adensa e um quarto em Lisboa pode custar em média 550 euros, o projeto ganha ainda mais destaque pela sua vertente prática.

"Nós temos muitas inscrições de estudantes, sempre tivemos muito mais estudantes a inscreverem-se do que de seniores, e portanto sim, percebe-se esta dificuldade que o país encontra e que precisa de arranjar aqui mais alojamento acessível para os estudantes", indica Inês, reforçando como o projeto pode ajudar "a colmatar" o problema do lado da oferta do alojamento estudantil. "Consegue-se preços aqui muito mais acessíveis para os estudantes o que resolve este excesso que estamos aqui no valor das rendas".

A associação recebe inscrições, principalmente, através do site oficial. O processo começa com o preenchimento de um questionário e continua depois com entrevistas personalizadas. "Temos que perceber bem qual é o perfil da pessoa e depois temos que ver, tentar ajustar os perfis que sejam compatíveis", explica a responsável. "É um trabalho giro, difícil, mas dá muito gozo quando é bem conseguido e quando vemos que houve, de facto, um 'match' de qualidade."

Ainda assim, é importante ressalvar que, apesar de interessante, o conceito pode "não ser para todos."

Liliana reforça que para participar é preciso "estar disposto a dar de si ao outro"
Liliana reforça que para participar é preciso "estar disposto a dar de si ao outro" Euronews/Bruno Figueiredo

"Para toda a gente não diria. Vou ser sincera, para toda a gente acho que não diria, porque eu sinto que tem de haver parte a parte a adaptação. Tem de ser uma pessoa que se consiga adaptar", explica Liliana. " Tem de ser uma pessoa que esteja disposta também a dar de si ao outro, porque eu sinto que há muita gente que não estaria disposta a isso". A estudante indica ainda que a forma como se olha para a população sénior é determinante.

"Eu sinto que ainda há muita gente, da minha faixa etária ou até um bocadinho mais velhas, que vê esta faixa etária dos seniores como uma faixa etária mais excluída, como alguém que não tem tanto valor na sociedade. E eles estão tão enganados."

Já Margarida diz que os idosos podem precisar de ajuda, mas esta ligação é mais profunda do que isso. "Nós precisamos de uma pessoa, porque nesta idade estamos sujeitos a cair, a ficar caídos uma data de horas enquanto vizinhos vão trabalhar, faz falta" explica.

"Mas além disso, há que passar aos jovens a noção de que um dia serão velhos também."

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