Em 29 de outubro, os ministros da Energia da UE reuniram-se no Luxemburgo para enfrentar a crise dos preços da energia no inverno, provocada pelos conflitos no Médio Oriente e pela guerra na Ucrânia, que fizeram subir o preço grossista do gás para quase 100 €/MWh.
Comissário europeu da Energia Dan Jørgensen alertou que quase 50 milhões de europeus não conseguem aquecer devidamente as suas casas. Embora a UE não preveja escassez de petróleo ou gás, a principal ameaça é um choque económico que pode tornar os serviços básicos incomportáveis.
As tensões geopolíticas, incluindo a guerra da Rússia contra a Ucrânia e a instabilidade no Médio Oriente, deixaram as reservas de gás da UE em apenas 75% da capacidade, abaixo dos 83% registados no ano passado. Entre 2021 e 2023, 62% das empresas reportaram estrangulamentos operacionais devido à volatilidade dos custos da energia, enquanto 80% das empresas da UE enfrentaram constrangimentos ou reorganização nas cadeias de abastecimento.
Apesar destas pressões, a reunião terminou num impasse, sem acordo sobre a proteção dos consumidores. Os ministros dividiram-se quanto a uma proposta da Comissão Europeia para aumentar os impostos sobre o gás a fim de promover a energia verde, com 13 países, incluindo a Alemanha e a Itália, a exigirem a sua retirada para proteger os cidadãos de baixos rendimentos.
A proibição do GNL russo continua prevista para janeiro de 2027, enquanto países como a Itália avançam com tetos de preços autónomos. Numa altura de forte volatilidade dos mercados, o Conselho adiou novas medidas e procura agora um compromisso em dezembro de 2026.
Obstáculos à energia barata: Rússia e Médio Oriente
Os mercados de energia europeus estão a apertar, com os preços do gás a terem ultrapassado recentemente os 97 euros por megawatt-hora, o nível mais alto desde 2022.
A Rússia fornecia cerca de 45% das importações de gás da UE. Mas, na sequência da invasão da Ucrânia, esse valor caiu para cerca de 12% em 2025, obrigando os países europeus a comprar mais gás a fornecedores como a Noruega, os Estados Unidos e a Argélia. O fim do acordo de trânsito de gás entre a Rússia e a Ucrânia em 31 de dezembro de 2024 encerrou uma rota que transportou cerca de 15 mil milhões de metros cúbicos de gás russo em 2024.
O bloco teve de substituir grande parte do seu gás barato transportado por gasoduto da Rússia por gás natural liquefeito (GNL) mais caro, deixando os preços expostos à concorrência internacional e às tensões geopolíticas. A Europa compete também com grandes importadores asiáticos pelo aprovisionamento, o que significa que o aumento da procura e perturbações globais podem fazer subir rapidamente os preços europeus.
A guerra no Médio Oriente está a agravar a situação. O estreito de Ormuz escoa quase 20% dos fornecimentos mundiais de GNL, mas, após o início do conflito, as perturbações no transporte reduziram as exportações de grandes produtores como o Qatar e os Emiratos Árabes Unidos. Segundo a Agência Internacional de Energia, os carregamentos de GNL destes países diminuíram em cerca de 35 mil milhões de metros cúbicos entre março e junho de 2026, em comparação com o mesmo período do ano anterior.
De acordo com a Gas Infrastructure Europe, as instalações de armazenamento da UE estavam apenas cerca de 75% cheias em 26 de outubro de 2026, com diferenças significativas entre países. O armazenamento da Alemanha estava aproximadamente 62% cheio e o dos Países Baixos cerca de 65%, contra mais de 90% em Itália. Os países com reservas mais baixas podem ter de comprar gás adicional durante o inverno, quando a procura de aquecimento e os preços são normalmente mais elevados.
Que medidas está a UE a considerar?
Na reunião de 29 de outubro, os ministros da Energia da UE abordaram dois desafios: reduzir as faturas de eletricidade através da alteração das tarifas de acesso às redes e preparar-se para eventuais perturbações no abastecimento de gás. A Comissão Europeia afirma que o sistema de gás da UE está preparado para o inverno, apesar de níveis de armazenamento mais baixos, embora uma vaga de frio possa pressionar o aprovisionamento.
Um dos temas centrais foi uma proposta da Comissão, apresentada em 17 de julho de 2026, para baixar as faturas de eletricidade através da alteração da forma como os consumidores pagam as redes elétricas. Estas tarifas cobrem o custo de construção, operação e manutenção das linhas elétricas e de outras infraestruturas, representando cerca de um quarto da fatura média de eletricidade das famílias na UE.
A proposta pretende tornar os custos de utilização da rede mais transparentes e eficientes, incentivando os operadores a tirar melhor partido das infraestruturas existentes através de contadores inteligentes, sistemas digitais e uma gestão melhorada, em vez de dependerem apenas de novas construções dispendiosas. Poderia também incentivar famílias e empresas a usar eletricidade fora das horas de ponta. Por exemplo, carregar um veículo elétrico durante a noite, em vez de no início da noite, pode reduzir as tarifas de rede e aliviar a pressão sobre o sistema.
A proposta prevê ainda que o imposto especial de consumo sobre a eletricidade não seja superior ao aplicado ao gás natural, para incentivar os consumidores a optar pelo aquecimento elétrico e outras tecnologias. No entanto, os ministros manifestaram preocupação de que as regras possam dar demasiado controlo à UE sobre decisões que atualmente cabem aos governos nacionais, pedindo maior flexibilidade para refletir as circunstâncias de cada país.
Os ministros discutiram também a preparação para eventuais perturbações no abastecimento de gás no inverno de 2026-2027, sublinhando a importância de diversificar as fontes de aprovisionamento, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e investir em energia limpa produzida internamente.
Salientaram ainda a importância de uma coordenação mais estreita na UE, da partilha de informação e da solidariedade, em especial com a Ucrânia e a Moldova.
O armazenamento de gás continua a ser uma parte importante da preparação para o inverno. Os países da UE têm, em geral, de atingir 90% da capacidade de armazenamento entre 1 de outubro e 1 de dezembro, embora as regras permitam alguma flexibilidade em condições de mercado difíceis.
O Conselho sublinhou também a necessidade de reforçar a resiliência a longo prazo das infraestruturas energéticas, incluindo face a riscos relacionados com o clima.
Desafios possíveis
O gás influencia muitas vezes os preços da eletricidade, e a Europa não consegue controlar picos nos preços do gás. A UE coloca em serviço a produção elétrica da mais barata para a mais cara, começando pelas renováveis e terminando no gás. Como as renováveis não conseguem cobrir toda a procura, os Estados-membros recorrem a centrais a gás. A última central necessária, normalmente a gás, fixa o preço de mercado, pelo que aumentos globais do preço do gás fazem subir a eletricidade mesmo quando a maior parte da energia provém de fontes mais baratas.
A Europa tem feito progressos na dissociação entre os preços do gás e da eletricidade, mas, enquanto “não tiver armazenamento de energia suficiente (bombeamento hidroelétrico ou baterias) [...] precisará de gás para satisfazer a procura de pico”, afirmou Noah Gordon, investigador sénior de políticas no Conselho Europeu de Relações Externas.
Redes de energia mais eficientes e interligações transfronteiriças mais fortes poderiam reduzir a dependência europeia do gás. Países com abundante energia renovável a baixo custo poderiam exportá-la para países que produzem menos energia limpa. No entanto, “a falta de interligações entre os Estados-membros e até dentro deles faz com que a energia limpa e barata por vezes não chegue onde é mais necessária”, disse Gordon. Alguns países dependem assim de energia local mais cara e não renovável, alargando as diferenças de preços da energia no bloco.
Outra dificuldade é não existir uma solução única que sirva para todos. Os Estados-membros têm combinações energéticas diferentes, o que condiciona a forma como o gás e os combustíveis fósseis afetam as faturas das famílias. Em Espanha, o uso generalizado de energia eólica e solar faz com que o gás influencie os preços da eletricidade apenas durante algumas horas. Em Itália, o gás gera mais eletricidade e define em grande medida os preços, enquanto a Alemanha e os Países Baixos se situam algures a meio. Por isso, limitar o impacto do preço do gás pode beneficiar bastante a Itália, mas ajudar menos outros países.
Para Gordon, “para todos eles, [os Estados-membros] a eletrificação e a energia limpa são a única via para a resiliência e a segurança do aprovisionamento”.
Alívio de curto prazo ou soluções de longo prazo?
A Europa pode enfrentar a crise energética de duas formas. As medidas de curto prazo, incluindo cortes de impostos e taxas, subsídios ou vales, tetos aos preços cobrados pelos fornecedores e ajudas estatais à indústria, oferecem um alívio imediato às famílias e às empresas. Os países da UE gastaram 17,9 mil milhões de euros nestas medidas só este ano e o total poderá atingir 38,6 mil milhões de euros se forem prolongadas até ao final do ano, segundo a Comissão Europeia.
As medidas de apoio de emergência são particularmente importantes para os agregados de baixos rendimentos, mas podem pressionar os orçamentos públicos, afirmou Matteo Prina, responsável de grupo de investigação no Eurac Research, Institute for Renewable Energy. A capacidade orçamental depende da “dimensão e duração das medidas”, mas o apoio é mais sustentável quando é “temporário” e “revisto à medida que as condições de mercado se alteram”, acrescentou.
As soluções de longo prazo passam por eliminar gradualmente os combustíveis fósseis, reduzir a dependência das importações e tornar a energia mais acessível e segura. Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, a UE ampliou as renováveis, diversificou as fontes de energia, promoveu a poupança de energia e apoiou o armazenamento e a eletrificação. A ACER, que coordena os reguladores nacionais da energia, relata que as renováveis forneceram cerca de metade da eletricidade da UE em 2025.
Embora esta abordagem aumente a independência energética da Europa, Prina explicou que os efeitos “se acumularão ao longo do tempo, em vez de surgirem de forma uniforme ou imediata”.
“Nova capacidade renovável pode começar a influenciar os preços grossistas à medida que os projetos entram em funcionamento, mas o impacto nas faturas das famílias depende de fatores como a capacidade da rede, o armazenamento, os impostos, as tarifas de rede e os contratos de fornecimento”.
O alívio de curto prazo pode parecer mais apelativo, mas manter artificialmente baixos os preços da energia pode enfraquecer os incentivos dos Estados-membros para investir em renováveis e comprometer os objetivos ambientais de longo prazo da Europa. O Serviço de Investigação do Parlamento Europeu alerta que o alívio imediato pode abrandar a transição para a energia limpa, a redução de emissões e os progressos climáticos, deixando a UE vulnerável a futuros choques energéticos.
Prina defende uma combinação de alívio de curto prazo direcionado com medidas que reduzam a exposição da Europa aos choques de preços. A UE precisa de coordenar medidas do lado da oferta e da procura, “acelerando as energias renováveis, as redes, o armazenamento, a eletrificação e a eficiência energética”, e garantindo que “os preços da eletricidade e os modelos do mercado retalhista permitam que as famílias beneficiem destes investimentos”, disse à Euronews.