China garantiu 23 dos 36 principais projetos industriais limpos financiados no ano passado, enquanto economias emergentes ultrapassaram Europa e EUA
Apesar de anos de investimento, avanços políticos e compromissos climáticos, a Europa está a ficar para trás na corrida pela indústria limpa.
Segundo uma nova investigação da Mission Possible Partnership (MPP), uma organização sem fins lucrativos que trabalha para descarbonizar indústrias intensivas em energia, a China e um número crescente de países em desenvolvimento conseguem financiar mais projetos industriais limpos do que as nações ocidentais, incluindo a UE e os Estados Unidos.
O domínio da China vai além dos novos investimentos. O país concentra 49 por cento de todas as instalações industriais limpas já em funcionamento ou em construção em todo o mundo.
Estes investimentos podem afetar mais do que as emissões. Podem determinar onde se instalam fábricas e empregos, quem produz e fornece combustíveis e até alterar o equilíbrio do poder global.
China domina investimento em indústria limpa
No último ano, um número recorde de 36 grandes projetos industriais limpos em todo o mundo garantiu o financiamento necessário para avançar, segundo a MPP. A China foi responsável por 23 desses projetos, no valor conjunto de mais de €40 mil milhões.
A MPP atribui a rápida expansão da China nas indústrias limpas a anos de políticas favoráveis, à infraestrutura de energias renováveis e a uma procura crescente por combustíveis alternativos.
Atualmente, por exemplo, a China representa mais de 90 por cento da capacidade mundial de produzir metanol de baixas emissões, um combustível que pode ser fabricado a partir de biomassa ou hidrogénio renovável em vez de combustíveis fósseis.
O país concentra também mais de 40 por cento da capacidade global de produção de alumínio mais limpo, que utiliza eletricidade de baixo carbono em vez de combustíveis fósseis para gerar energia.
A presença da China está também a expandir-se para além das suas fronteiras.
Em agosto de 2025, entrou em funcionamento no Laos o maior parque eólico do Sudeste Asiático. Detido por um consórcio liderado pela Tailândia, o projeto Monsoon Wind utiliza 133 turbinas fabricadas na China para fornecer eletricidade ao setor industrial do Vietname.
À medida que mais países procuram reduzir as importações de combustíveis fósseis, a China está a tornar-se um importante fornecedor de tecnologia limpa, afirma Belinda Schäpe, do Centre for Research on Energy and Clean Air (CREA).
“Isto cria oportunidades económicas significativas para a China e pode reforçar a sua influência geopolítica, sobretudo nas economias emergentes.”
‘Cinturão industrial solar’ cresce rapidamente
A China não é a única economia a avançar na indústria limpa. Em África, na Ásia e na América Latina, países no que a MPP designa como ‘cinturão industrial solar’ estão a atrair investimento graças aos seus abundantes recursos renováveis.
No último ano, mais seis projetos em economias emergentes garantiram €4.7 mil milhões de investimento, mais do que os €4.3 mil milhões em acordos fechados nas economias desenvolvidas.
O Quénia, por exemplo, está a desenvolver a primeira fábrica africana de fertilizante verde alimentada por energia geotérmica. Localizada no Vale do Rift, a instalação pretende produzir entre 200 000 e 300 000 toneladas de fertilizante por ano, a maior parte destinada a agricultores nacionais. O Paraguai também garantiu financiamento para uma fábrica de fertilizante mais limpa.
Na África do Sul, por sua vez, investidores apoiaram o segundo projeto comercial do mundo que produz combustível de aviação sustentável sintético (SAF) a partir de dióxido de carbono capturado e eletricidade renovável.
E mais 281 projetos estão em desenvolvimento em economias emergentes, acrescenta o relatório da MPP.
“Este ano, o novo cinturão industrial solar ultrapassou a Europa pela primeira vez, transformando planos industriais limpos em fábricas financiadas”, afirma Faustine Delasalle, diretora executiva da MPP.
“Do fertilizante alimentado por geotermia no Quénia aos combustíveis de aviação sustentáveis no Brasil, países ricos em renováveis estão a transformar os seus recursos naturais em fábricas, empregos e receitas.”
Europa consegue recuperar na corrida da indústria limpa?
Apesar de estar a ficar para trás, a UE tenta acompanhar o ritmo.
Em fevereiro de 2025, o bloco lançou o seu Clean Industrial Deal, comprometendo-se a mobilizar mais de €100 mil milhões para apoiar a produção limpa europeia, reduzir os custos de energia e ajudar indústrias como o aço e os químicos a cortar as suas emissões de gases com efeito de estufa.
Neste momento, os legisladores da UE debatem o Industrial Accelerator Act (fonte em inglês), que aceleraria as aprovações de novas fábricas e aumentaria a procura por produtos de baixo carbono feitos na Europa.
A política europeia também ajudou a estimular o investimento em SAF, que representou um em cada três investimentos industriais limpos em todo o mundo no último ano. Desde 2025, os fornecedores de combustível nos aeroportos da UE são obrigados a disponibilizar pelo menos dois por cento de SAF (fonte em inglês) no combustível de aviação que fornecem.
“A Europa e os Estados Unidos continuam a ter pontos fortes industriais e tecnológicos significativos”, diz Schäpe.
Segundo a mesma fonte, a Europa já consegue fabricar cerca do dobro dos veículos elétricos e das turbinas eólicas de que necessita por ano, e quase três vezes mais bombas de calor. E, embora a China esteja a exportar mais veículos elétricos no total, o valor combinado das exportações de outros países, sobretudo da Alemanha, aumentou muito mais do que o das exportações chinesas, de acordo com a mais recente investigação do CREA (fonte em inglês).
Ainda assim, o investimento em produtos e projetos deste tipo continua a ser um grande entrave em todo o mundo.
A MPP está a acompanhar mais de 800 projetos industriais limpos propostos, cerca de €4.3 biliões em investimento potencial, que ainda não conseguiram financiamento, muitas vezes devido a políticas pouco claras ou a clientes relutantes em assumir contratos de compra de longo prazo.
“O desafio agora é a escala e a rapidez”, afirma Delasalle. “Assistimos a um número recorde de decisões finais de investimento nos últimos 12 meses, mas precisamos de passar de dezenas para centenas de fábricas [de produção] financiadas todos os anos.”