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Companhias aéreas árabes deverão perder 3,82 mil milhões € em 2026, alerta AACO

Encontro de três dias analisou as pressões financeiras, operacionais e ambientais que assolam o setor
Encontro de três dias avaliou as pressões financeiras, operacionais e ambientais que o setor enfrenta -  Direitos de autor  Euronews Travel
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De Fakhriya M. Suleiman & Aadel Haleem
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Na assembleia-geral anual realizada esta semana em Doha, a Organização das Transportadoras Aéreas Árabes manifestou preocupação com as regras de carbono da UE, enquanto as companhias aéreas procuram reforçar a conectividade europeia numa altura de incerteza regional.

Depois de um ano turbulento, prevê-se que as companhias aéreas árabes registem perdas de vários milhares de milhões de dólares, segundo um relatório emitido pela Arab Air Carriers' Organization (AACO).

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Reunida esta semana em Doha para a sua assembleia geral anual (AGM), a AACO é uma associação de 39 companhias aéreas árabes sediadas no Médio Oriente e no Norte de África, incluindo companhias como a Qatar Airways, a Emirates, a Etihad Airways e a Gulf Air.

Proporciona um enquadramento comum de cooperação entre as companhias membros em áreas como assuntos aeropolíticos, transformação digital e combustíveis sustentáveis para a aviação.

No seu relatório anual de 2026, a AACO salientou que as pressões operacionais ligadas a “incertezas geopolíticas” e a “condições financeiras voláteis” atingiram os balanços das companhias regionais.

Segundo as conclusões, prevê-se que os membros da AACO registem em 2026 um prejuízo líquido de 4,3 mil milhões de dólares (3,82 mil milhões de euros) e uma queda de 5,2% no tráfego de carga aérea. A nível global, projeta-se que o lucro líquido da indústria desça para cerca de 23 mil milhões de dólares (20,5 mil milhões de euros), o seu “nível mais baixo em 12 anos, excluindo o período da COVID-19 e as suas consequências”.

O relatório acrescentou que o desempenho entre os membros “é suscetível de variar consideravelmente consoante a localização dos hubs e a exposição a mercados afetados por conflitos”.

Apesar das pressões, a AACO afirmou que se “prevê que o setor da aviação permaneça lucrativo” em 2026, “embora a um ritmo mais lento, já que os custos de energia mais elevados e as perturbações operacionais contínuas estão a exercer pressão adicional sobre as margens”.

O combustível deverá representar 31,4% dos custos operacionais da indústria e, especificamente para os membros da AACO, 37,3%, “acima dos 25,4% e 27,9% registados respetivamente em 2025”.

União Europeia aumenta pressão regulatória

Em Doha, foram manifestadas preocupações sobre o Sistema de Comércio de Emissões (ETS) proposto pela UE, alertando que poderá interferir no espaço aéreo regional e criar custos adicionais injustos para as companhias árabes.

Abdul Wahab Teffaha, secretário-geral da AACO, disse ao Euronews Travel que o ETS levantou questões de “soberania”.

“A UE decidiu que ‘queremos ter metas que vão além das metas acordadas pela ICAO (International Civil Aviation Organization)’ e não temos qualquer problema com isso, porque está a exercer os seus direitos soberanos”, afirmou.

Abdul Wahab Teffaha, secretário-geral da AACO
Abdul Wahab Teffaha, secretário-geral da AACO Fakhriya M. Suleiman/Euronews Travel

Em 2005, o bloco apresentou propostas para o ETS, com o objetivo de obrigar os poluidores a pagar pelas suas emissões de gases com efeito de estufa. O setor da aviação foi integrado no ETS da UE em 1 de janeiro de 2012, porém, a aplicação ao transporte aéreo de e para países não europeus foi suspensa mais tarde nesse mesmo ano.

Durante a assembleia, foi adotada a Resolução sobre Aviação e Ambiente, que se opõe à extensão do ETS a voos que partem do Espaço Económico Europeu (EEE) e aterram em países terceiros dentro de um raio de 5 000 quilómetros do Aeroporto de Frankfurt até 2029.

“Isto é extraterritorialidade, uma violação da soberania de outros”, disse Teffaha, acrescentando que a medida iria minar a Convenção de Chicago. “E isso aplica-se a todos os países dentro desses 5 000 quilómetros, que basicamente começam na Turquia, passam pelo Iraque, descem até ao Dubai, sobem até ao Sudão, Egito, até Marrocos.”

Também conhecida como Convenção sobre Aviação Civil Internacional, a Convenção de Chicago estabelece no artigo 1 que todos os Estados signatários reconhecem que cada país tem “soberania completa e exclusiva sobre o espaço aéreo acima do seu território”.

Para além da questão da soberania, Teffaha disse ainda ao Euronews que, se o ETS entrar em vigor, as companhias árabes poderão enfrentar de forma injusta custos duplicados com a redução das suas emissões, dado que o atual regime Carbon Offsetting and Reduction Scheme for International Aviation (CORSIA) já obriga as companhias aéreas a compensar uma parte das emissões dos seus voos internacionais.

Deste modo, as transportadoras árabes podem acabar por pagar em duplicado se os dois regimes não reconhecerem as tarifas um do outro.

Líderes da aviação árabe reúnem-se em Doha

O evento de três dias foi organizado pela Qatar Airways, com Hamad Al-Khater, diretor executivo do Qatar Airways Group, a presidir à sessão. Reuniu mais de 200 executivos e partes interessadas do setor, incluindo companhias membros da AACO, transportadoras parceiras e representantes da Amadeus e da SITA.

“Este encontro da AACO reúne as companhias aéreas do mundo árabe, que em conjunto desempenham um papel vital na ligação de pessoas, empresas e economias em seis continentes”, afirmou Al-Khater.

“Numa altura em que a nossa indústria atravessa um período muito difícil, com desenvolvimentos geopolíticos a continuarem a perturbar a conectividade global, a cooperação regional tornou-se a nossa maior força.”

Hamad Al-Khater, diretor executivo do Qatar Airways Group e presidente da 59.ª assembleia geral da AACO, fez o discurso de abertura no primeiro dia do encontro
Hamad Al-Khater, diretor executivo do Qatar Airways Group e presidente da 59.ª assembleia geral da AACO, fez o discurso de abertura no primeiro dia do encontro Qatar Airways

O responsável da Qatar Airways acrescentou que o setor sustenta até quatro milhões de postos de trabalho em todo o Médio Oriente e injeta 290 mil milhões de dólares (258 mil milhões de euros) na economia regional. Este valor deverá aumentar para 730 mil milhões de dólares (649,9 mil milhões de euros) até 2043.

Durante o evento, a AACO e a SITA assinaram um memorando de entendimento que torna o WorldTracer Bag Mate desta última, o sistema da SITA para bagagem mal manuseada, disponível para as companhias membros da AACO.

Europa continua a ser mercado-chave para as companhias árabes

Apesar de operarem num ambiente desafiante e perante uma crescente incerteza regulatória, a Europa continua a desempenhar um papel importante para as transportadoras árabes, com as companhias a reforçarem a conectividade entre as duas regiões.

Sheikh Jassim Fahad Al-Thani, vice-presidente de Assuntos Aeropolíticos e Corporativos da Qatar Airways, descreveu a assembleia de Doha como uma oportunidade importante para reforçar as colaborações a nível regional, acrescentando que “a Europa continua a ser um mercado fundamental para a Qatar Airways”.

Al-Thani disse ao Euronews que o aumento de voos para cidades europeias, incluindo Londres Heathrow e Frankfurt, vai “dar aos viajantes mais flexibilidade e melhores ligações através de Doha para a nossa rede global”.

Acrescentou: “Estamos também a aumentar os voos para destinos na Ásia, África e Austrália, tornando mais fácil para os passageiros explorarem o mundo através de Doha.”

Entretanto, em outubro, a companhia aérea Emirates, sediada no Dubai, aterrou pela primeira vez em Helsínquia. A nova rota diária para a capital finlandesa reforça a rede nórdica da transportadora, que já inclui Copenhaga, Oslo e Estocolmo.

“Para nós, o caminho passa por crescer mais”, afirmou Adnan Kazim, vice-presidente e diretor comercial da Emirates, ao Euronews.

“Há ainda muitos mercados que não explorámos. Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar para reforçar as parcerias com muitas companhias europeias, para acrescentar valor, mas para nós a Europa continua claramente a ser central na estratégia da Emirates.”

Apesar dos tempos incertos e da volatilidade dos preços dos combustíveis, Kazim afirmou também que isso não abalou os planos de crescimento da companhia, explicando que a Emirates continua a modernizar a sua frota, apoiada por investimentos no valor de 7 mil milhões de dólares (6,2 mil milhões de euros).

“O Dubai nunca parou nenhum projeto”, disse. “Estamos a continuar e esse é o ADN que temos quando olhamos para o futuro.”

A instabilidade regional, no entanto, tem pressionado o planeamento operacional das companhias aéreas, com as avaliações de segurança e a informação em tempo real a tornarem-se cada vez mais importantes, segundo Hany Bakr, vice-presidente sénior de Segurança na Aviação e Marítima na MedAire.

Hany Bakr (à direita na imagem), vice-presidente sénior de Segurança na Aviação e Marítima na MedAire
Hany Bakr (à direita na imagem), vice-presidente sénior de Segurança na Aviação e Marítima na MedAire Euronews Travel

Bakr, cuja organização trabalha com mais de 250 companhias aéreas e operadores de carga para fornecer gestão de riscos de saúde e segurança, disse ao Euronews que a situação atual na região atravessou um período “muito volátil”, com “ameaças diretas” a afetarem o setor. Os analistas da MedAire têm trabalhado para fornecer às companhias informação de inteligência que ajude a orientar as decisões operacionais.

Para os passageiros, o conselho de Bakr foi manterem consciência da situação e confiarem nos modelos de gestão de risco das transportadoras aéreas.

“Muitos desses acontecimentos hoje estão fora do controlo das companhias aéreas e devem-se a eventos regionais”, afirmou. “As transportadoras estão a construir um elevado nível de resiliência para continuarem a voar e levar as pessoas de A a B em segurança.”

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