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IA e transformação digital estão a mudar a aviação, mas a segurança continua a ser inegociável

Apenas 27% das companhias aéreas teriam tomado medidas concretas para levar a cabo a transformação digital
Apenas 27% das companhias aéreas teriam tomado medidas concretas para levar a cabo a transformação digital -  Direitos de autor  AP Photo
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De Joana Mourão Carvalho
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No World Aviation Festival, em Lisboa, a CEO da Hitit, Nevra Onursal Karaağaç, e o responsável pelos projetos de transformação digital da empresa, Aras Kubilay, defenderam uma modernização gradual dos sistemas das companhias aéreas e alertaram para os riscos de adotar IA sem uma estratégia clara.

A inteligência artificial e a transformação digital estão a abrir novas possibilidades para a aviação comercial, desde a personalização da experiência dos passageiros à previsão de perturbações operacionais. Mas a modernização de um setor altamente regulamentado exige mudanças que vão muito além da tecnologia, defendem dois responsáveis da Hitit, empresa turca de soluções tecnológicas para o setor da aviação, em entrevista à Euronews durante o World Aviation Festival, em Lisboa.

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Para Aras Kubilay, responsável pelo envolvimento com a indústria e pelo desenvolvimento de negócios da Hitit, a aviação enfrenta uma mudança estrutural na forma como gere os seus sistemas digitais. O desafio passa por modernizar infraestruturas que sustentam as operações diárias sem comprometer a continuidade dos voos e a satisfação dos passageiros.

“As companhias aéreas são empresas extremamente complexas e operam sem parar, 24 horas por dia, sete dias por semana”, descreveu. Por isso, não podem simplesmente suspender as operações durante vários dias para substituir os sistemas informáticos fundamentais.

A dimensão do desafio torna-se ainda mais evidente perante a velocidade da transformação digital. Segundo Kubilay, as companhias aéreas têm consciência da necessidade de mudar, mas muitas continuam a ter dificuldades em dar os primeiros passos.

O responsável citou dados de inquéritos realizados com executivos do setor no ano passado: 72% consideravam crucial a transformação digital. Este ano, disse ter ouvido durante o WAF estimativas de que a percentagem terá ultrapassado os 90%, embora ressalvasse não dispor de um número oficial atualizado. Ainda assim, apenas 27% das companhias aéreas teriam tomado medidas concretas.

“Se não se avançar nesta direção nos próximos dois a três anos, poderemos enfrentar problemas”, alertou.

Em vez de tentar substituir toda a infraestrutura de uma só vez, Kubilay defende uma abordagem faseada, que permita às transportadoras identificar problemas específicos e implementar melhorias progressivas.

“Não se começa com uma grande mudança de uma só vez. Substituem-se partes, conforme necessário, e depois, se os resultados forem positivos, avança-se nessa direção”, explicou.

Onde está a IA a acrescentar valor no mundo da aviação?

A Inteligência Artificial ocupa um lugar central nesta transformação, mas a sua utilização deve estar ligada a objetivos concretos. Para Kubilay, as companhias aéreas precisam de definir se pretendem aumentar as receitas, reduzir custos ou melhorar a experiência do cliente antes de avançarem com novos projetos.

“Se disserem que vão fazer tudo ao mesmo tempo, apenas acrescentando o rótulo de IA, vão gastar dinheiro sem que nada aconteça”, advertiu.

A Hitit afirma já integrar ferramentas de IA em diferentes componentes das suas soluções, incluindo contabilidade de custos, relatórios e gestão de perturbações operacionais.

Nevra Onursal Karaağaç, CEO da empresa, explicou que estas aplicações podem facilitar o trabalho dos utilizadores, permitindo, por exemplo, obter relatórios através de pedidos escritos, sem necessidade de introduzir manualmente vários parâmetros.

A tecnologia também pode ajudar a antecipar problemas meteorológicos com impacto nos voos. Kubilay descreveu um modelo que combina características físicas das pistas, orientação em relação ao vento e padrões meteorológicos para prever situações em que um voo pode ter que ser reagendado.

Com essa informação, as companhias aéreas podem antecipar possíveis atrasos ou alterações de rota, em vez de reagirem apenas quando a perturbação já ocorreu.

Tecnologia pode ajudar a antecipar problemas meteorológicos com impacto nos voos
Tecnologia pode ajudar a antecipar problemas meteorológicos com impacto nos voos AP Photo

Apesar destas possibilidades, o responsável alertou para os riscos de confiar cegamente em sistemas de IA, sobretudo no atendimento ao cliente. Sem identificar a companhia aérea, referiu um caso em que um sistema de inteligência artificial terá permitido reembolsos superiores ao valor pago e alterações de voos que não deveriam ser autorizadas.

“Num setor tão sensível e complexo como o transporte aéreo, talvez seja necessário pensar duas vezes”, alertou.

Já a segurança, frisou, não pode ser sacrificada em nome da conveniência. Os sistemas precisam de ser configurados com regras claras e limites de atuação, mantendo-se mecanismos de controlo adequados.

Karaağaç sublinhou também que desenvolver tecnologia para a aviação exige mais do que competências de programação. “É preciso conhecer o próprio mundo da aviação”, disse, defendendo a colaboração entre consultores do setor, analistas de negócio e equipas de desenvolvimento.

A expansão da inteligência artificial está também a alterar a forma como os passageiros procuram e compram voos. Para Kubilay, esta mudança pode representar uma oportunidade para as companhias aéreas recuperarem o controlo da relação com os clientes, num mercado em que os comparadores de voos e intermediários digitais tendem a colocar o preço e os horários no centro da decisão dos viajantes.

Com o crescimento dos assistentes de IA, os passageiros podem passar a procurar viagens através de pedidos conversacionais, indicando não apenas o destino, mas também o motivo da deslocação ou as suas preferências.

Essa informação e contexto poderá ajudar as companhias aéreas a apresentar ofertas mais relevantes, em vez de disponibilizarem uma lista extensa de opções indiferenciadas.

“Se não controlarem o envolvimento com o cliente, é muito fácil substituir uma companhia aérea por outra”, defendeu.

Kubilay considera que a personalização pode beneficiar tanto os passageiros, que irão poupar tempo a encontrar o que procuram, como as companhias aéreas, que poderão apresentar produtos mais adequados às necessidades de cada pessoa.

Ainda assim, a transformação deverá preservar a familiaridade destas plataformas digitais. Quando os sistemas são modernizados, o objetivo não deve ser obrigar os passageiros a aprender novamente a utilizar aplicações e plataformas.

“Idealmente, as pessoas não deveriam conseguir perceber que alguma coisa mudou. As únicas coisas que deveriam notar é que tudo melhorou e se tornou mais simples”, explicou.

Um futuro sem check-in?

Uma das mudanças que Kubilay considera possíveis nos próximos anos é a eliminação do check-in enquanto etapa nas viagens aéreas. O responsável recordou que o processo tem origem na época dos bilhetes em papel, quando era necessário destacar uma parte do documento para confirmar a sua utilização. Apesar da digitalização, algumas dessas práticas continuam incorporadas nos sistemas atuais.

“Queremos acabar completamente com o check-in. Compras o bilhete, vais para o avião e está feito”, explicou.

A concretização desta visão dependerá, contudo, da colaboração de toda a indústria. A validação da identidade dos passageiros, os controlos fronteiriços e os requisitos de segurança envolvem diferentes entidades e não podem ser resolvidos isoladamente por uma única empresa.

Kubilay destacou uma iniciativa desenvolvida através de padrões estabelecidos pela Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) e promovida pela Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA), designada Digital Travel Credentials (DTC), que procura facilitar a utilização de credenciais digitais de identidade. O objetivo é reduzir a necessidade de os passageiros voltarem a apresentar e validar repetidamente a mesma informação ao longo da viagem.

Segundo o responsável, um estudo da IATA identificou que, numa viagem, em média, os passageiros têm de declarar a mesma informação sete vezes.

“Temos que apresentar a nossa identificação quando fazemos a reserva, quando despachamos a bagagem, quando estamos a embarcar no avião, quando passamos pela alfândega. Depois, quando aterramos. Por que não posso fazer isto uma única vez e as autoridades comunicam entre si?”, questionou.

A iniciativa Digital Travel Credentials (DTC) é uma versão digital segura do passaporte para tornar os controlos de fronteira mais rápidos e simples
A iniciativa Digital Travel Credentials (DTC) é uma versão digital segura do passaporte para tornar os controlos de fronteira mais rápidos e simples AP Photo

A redução destes passos terá, no entanto, de respeitar os requisitos de segurança. Kubilay explicou que as credenciais digitais podem ser verificadas através de assinaturas digitais e da confirmação da sua autenticidade junto das autoridades emissoras.

O objetivo é tornar a viagem mais simples sem comprometer a segurança dos passageiros e das operações.

Hitit quer consolidar expansão internacional

Fundada em 1994 por duas mulheres, a Hitit começou por desenvolver soluções de fidelização de passageiros e expandiu progressivamente a sua atividade para sistemas centrais de reservas, emissão de bilhetes, check-in e outras operações das companhias aéreas.

A empresa desenvolve atualmente soluções que abrangem diferentes necessidades operacionais, incluindo planeamento de horários, controlo de operações, contabilidade, carga e sistemas de agências de viagens.

De acordo com Karaağaç, a Hitit trabalhava com 17 companhias aéreas em 2018 e, em 2026, presta serviços a quase 70 transportadoras. Os números públicos mais recentes referidos pela CEO da empresa turca apontavam para 68 companhias aéreas em 47 países, com soluções utilizadas em mais de 900 aeroportos.

“Apesar de as nossas raízes estarem na Turquia e de a empresa ter sido fundada na Turquia, já somos uma empresa global”, destacou Nevra Karaağaç.

A Hitit tornou-se uma empresa cotada na bolsa de valores de Istambul em 2022. Para Karaağaç, a expansão internacional deverá continuar a assentar na proximidade com as companhias aéreas e na capacidade de adaptação às suas necessidades.

Já Kubilay defende que o futuro da tecnologia no setor da aviação dependerá de sistemas mais interoperáveis, que permitam às companhias aéreas combinar soluções de diferentes fornecedores sem ficarem dependentes de um único parceiro.

Os operadores devem evitar situações em que percam o controlo dos próprios dados ou fiquem impossibilitados de mudar de fornecedor. “A tecnologia deve ser compatível com o futuro”, salvaguardou, explicando que as empresas precisam de flexibilidade para se adaptarem a mudanças que ainda não conseguem antecipar.

No horizonte dos próximos cinco anos, Kubilay espera que a transformação digital, a modernização dos sistemas comerciais e a adoção da IA atinjam uma escala suficientemente ampla para se tornarem a norma do setor, mantendo a segurança, a continuidade operacional e a confiança dos passageiros, mesmo que os objetivos mais ambiciosos da indústria não sejam cumpridos dentro dos prazos inicialmente previstos.

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