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UE rejeita "grande" acordo de segurança de Trump com a Rússia e "toda a Europa"

Presidente Donald Trump fala antes de assinar uma ordem executiva no Salão Oval da Casa Branca, quinta-feira, 5 de novembro de 2026, em Washington.
O Presidente Donald Trump fala antes de assinar uma ordem executiva no Salão Oval da Casa Branca, quinta‑feira, 5 de novembro de 2026, em Washington. -  Direitos de autor  AP Photo/Alex Brandon
Direitos de autor AP Photo/Alex Brandon
De Nela Heidner
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Líderes europeus rejeitam a proposta de Washington para um quadro de segurança mais amplo, avisando que Moscovo não pode ditar o futuro do continente, numa altura em que as negociações de paz sobre a Ucrânia lideradas pelos EUA se preparam para recomeçar em Abu Dhabi.

Dirigentes europeus rejeitaram de forma firme qualquer tentativa dos Estados Unidos e da Rússia de redesenharem a arquitetura de segurança do continente sem a sua participação, após a sugestão do presidente Donald Trump de que Washington poderá estar prestes a alcançar um amplo acordo com Moscovo que vai além da Ucrânia e abrange toda a Europa.

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As declarações, feitas por Trump na quinta-feira, reacenderam receios entre os aliados europeus de Washington de que a administração norte-americana esteja a caminhar para um arranjo de segurança que acomode as exigências de longa data do presidente russo, Vladimir Putin, à custa dos interesses europeus.

Trump descreveu o eventual acordo como um entendimento “muito grande”, envolvendo não só a Ucrânia, mas “toda a Europa”:

“Vai ser muito grande. Vai envolver mais do que a Ucrânia e até poderia dizer que pode envolver toda a Europa. Vai ser um acordo grande e bonito, e todos vão ficar encantados”, afirmou Trump, sem avançar quaisquer pormenores.

Os seus comentários surgiram numa altura em que o seu enviado especial e genro, Jared Kushner, anunciou que Washington está a trabalhar numa arquitetura de segurança europeia mais ampla, destinada a criar condições para uma paz duradoura.

A iniciativa suscitou de imediato objeções de responsáveis europeus, que insistem que os mecanismos de segurança do continente já estão definidos e não podem ser renegociados à sua revelia.

“Já temos uma arquitetura de segurança europeia em vigor”
Kaja Kallas
Chefe da diplomacia da União Europeia

“Já temos uma arquitetura de segurança europeia em vigor”, disse a chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, aos jornalistas em Varsóvia, na sexta-feira.

“O problema continua a ser que a Rússia está sempre a violar os tratados que a sustentam. A NATO não constituía qualquer ameaça para a Rússia em 2021 e não representa uma ameaça para a Rússia neste momento. Putin não tem direito de veto sobre a segurança europeia.”

Kallas sublinhou também que a União Europeia teria de estar envolvida em qualquer acordo para que este pudesse ser aplicado.

A sua posição foi ecoada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, que alertou que qualquer entendimento sobre a Ucrânia e o futuro da Europa alcançado sem participação europeia seria politicamente inaceitável e praticamente impossível.

“Um arranjo sobre o futuro da Ucrânia e da Europa acima das nossas cabeças não seria apenas imprudente. É, na realidade, impossível”, disse Sikorski.

Entretanto, o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andriy Sybiha, afirmou que Moscovo não pode ser vista como garante da segurança europeia, defendendo que a prioridade deve ser proteger a Europa contra a agressão russa e não negociar esferas de influência com o Kremlin.

“Temos de falar sobre como nos protegemos da Rússia, não sobre como falar com os russos de esferas de influência na Europa”, declarou Sybiha.

Sybiha reforçou a posição de Kiev após uma reunião com a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, em Varsóvia, sublinhando que nem o futuro da Ucrânia nem a segurança da Europa podem ser decididos sem o envolvimento direto de ambos.

Washington procura quadro de segurança mais amplo

O diferendo diplomático surge numa altura em que a administração Trump intensifica esforços para pôr fim à guerra na Ucrânia, com representantes norte-americanos a prepararem novas negociações entre Kiev e Moscovo em Abu Dhabi na próxima semana.

Depois de meses de esforços diplomáticos praticamente bloqueados, Washington reforçou o envolvimento com ambos os lados, procurando um quadro que permita alcançar um acordo duradouro.

No início desta semana, representantes norte-americanos realizaram dois dias de discussões em Bruxelas com responsáveis da NATO, da União Europeia e de grandes potências europeias. As reuniões centraram-se em garantias de segurança para a Ucrânia e no futuro dos mecanismos de segurança mais amplos da Europa.

Kushner, que participou nas discussões por videoconferência, traçou posteriormente a ambição de Washington de desenvolver um quadro mais abrangente.

Numa declaração publicada na plataforma de redes sociais X, afirmou que os Estados Unidos estão a trabalhar em arranjos práticos para responder às preocupações de segurança de todas as partes e estabelecer as bases para uma paz duradoura.

A proposta norte-americana reflete uma tentativa de ligar a questão da segurança da Ucrânia no pós-guerra à relação mais ampla entre a Rússia e o Ocidente.

No entanto, a linguagem utilizada reavivou preocupações antigas na Europa sobre as ambições de Moscovo de rever a ordem de segurança estabelecida após o fim da Guerra Fria.

Antes de lançar a invasão em grande escala da Ucrânia em fevereiro de 2022, a Rússia apresentou um ultimato à NATO exigindo mudanças fundamentais nas disposições de segurança da Europa. Entre as exigências de Moscovo figurava a retirada de forças da NATO dos países que aderiram à Aliança depois de 1997.

A Aliança militar ocidental rejeitou essas exigências, sustentando que os países soberanos têm o direito de definir os seus próprios arranjos de segurança.

Europa exige lugar à mesa de negociações

Para as capitais europeias, a questão central não é apenas se Washington consegue negociar o fim da guerra, mas se decisões que afetam a segurança de todo o continente podem ser tomadas sem a participação direta dos países mais afetados.

A Europa tem insistido em assumir um papel mais importante na iniciativa diplomática liderada pelos Estados Unidos, sobretudo à medida que as discussões vão para além do campo de batalha imediato na Ucrânia.

A porta-voz principal da Comissão Europeia, Paula Pinho, afirmou na sexta-feira que ainda há muito trabalho pela frente antes de se alcançar um acordo de paz, sublinhando que a União Europeia determinará as suas próprias questões de segurança.

A NATO, por seu lado, reiterou que os aliados da Ucrânia estão a trabalhar para um fim “justo e sustentável” do conflito.

Kushner procurou garantir aos parceiros europeus que não seriam excluídos do processo mais amplo. Disse que Washington tenciona consultá-los de perto à margem das negociações em Abu Dhabi e, se houver progressos, avançar para um formato multilateral mais vasto que envolva a sua participação direta.

Conversações em Abu Dhabi podem ser teste crucial

As negociações previstas em Abu Dhabi vão constituir um teste importante à capacidade de Washington para conciliar as exigências concorrentes da Ucrânia, da Rússia e dos seus aliados europeus.

Os Estados Unidos procuram desenvolver propostas que possam pôr fim aos combates e, ao mesmo tempo, criar mecanismos de segurança capazes de evitar outra guerra.

Contudo, as posições de fundo continuam muito afastadas. A Ucrânia pretende garantias credíveis contra futuras agressões russas, enquanto Moscovo há muito procura limitações à presença e influência da NATO na Europa de Leste.

Os governos europeus, por seu lado, estão determinados a impedir qualquer acordo que recompense a agressão militar russa ou mine a soberania da Ucrânia e o seu direito de decidir o próprio futuro político e de segurança.

Os esforços de Washington para negociar com Moscovo um quadro de segurança europeu mais amplo terão de enfrentar a firme oposição da Europa a qualquer arranjo que possa enfraquecer a NATO, comprometer acordos de segurança existentes ou limitar a soberania dos Estados europeus.

Entretanto, as reações de Varsóvia, Bruxelas e Kiev mostram que qualquer acordo negociado essencialmente entre Washington e Moscovo enfrentaria uma resistência considerável.

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