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Hungria: forint entra no top 10 de moedas de 2026 e supera dólar norte-americano

Ergue-se a estátua do Cristo Redentor em frente ao Pão de Açúcar e à baía de Guanabara, no Rio de Janeiro,
A estátua do Cristo Redentor ergue-se em frente ao Pão de Açúcar e à baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, Direitos de autor  Copyright 2016 The Associated Press. All rights reserved. This material may not be published, broadcast, rewritten or redistributed without permission.
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De Piero Cingari
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Guerra no Golfo, Reserva Federal paralisada e viragem agressiva na Europa e no Pacífico: como dez moedas se afastam de um dólar em queda

No início de 2026, os mercados cambiais desenhavam um cenário relativamente convencional: uma economia norte-americana a abrandar o suficiente para permitir dois cortes de juros pela Reserva Federal, um Banco Central Europeu prudente e a maioria dos restantes bancos centrais disposta a seguir a liderança de Washington.

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O conflito no Irão deitou esse guião por terra quase de um dia para o outro.

Os preços da energia dispararam, as expectativas de inflação ajustaram-se e os bancos centrais começaram a falar em subidas de juros. A Fed, confrontada com uma combinação de inflação impulsionada pela energia e crescente incerteza sobre o crescimento, manteve-se parada.

Essa divergência abriu espaço para um vasto leque de moedas ganhar terreno face ao dólar norte-americano. Mas cada vencedora tem a sua própria história.

As 10 moedas que mais valorizam face ao dólar em 2026

Brasil: real oferece o carry trade mais elevado do mundo

A valorização de quase 11% do real brasileiro desde o início do ano é o melhor desempenho de qualquer moeda de dimensão relevante face ao dólar em 2026. Duas forças atuam em simultâneo e ambas apontam no mesmo sentido.

A primeira é o carry. A taxa diretora Selic do Brasil está nos 14,75% e, mesmo depois de o banco central a ter cortado em 25 pontos base a 18 de março, continua cerca de 11 pontos percentuais acima do objetivo da Reserva Federal.

Esse diferencial está perto do nível mais elevado desde o ciclo global de aperto de 2022 e cria um forte incentivo mecânico: um investidor que se endivida em dólares e aplica o dinheiro em ativos denominados em reais brasileiros ganha esse diferencial como rendimento puro, todos os dias, enquanto a taxa de câmbio se mantiver.

Quando, além disso, o real se aprecia, como tem acontecido este ano, os retornos acumulam-se rapidamente.

É a expressão mais simples do carry trade e o Brasil oferece atualmente a versão mais elevada entre todos os mercados emergentes líquidos.

A segunda força são as matérias-primas. O Brasil é o maior exportador mundial de soja, minério de ferro, carne de bovino e açúcar, e é também um produtor relevante de petróleo bruto.

Quando os preços globais das matérias-primas sobem, como aconteceu no contexto de choque energético de 2026, os termos de troca do Brasil melhoram, as receitas de exportação aumentam e a procura pelo real reforça-se por um canal completamente distinto.

O rendimento de carry e a bonança das matérias-primas reforçam-se mutuamente, razão pela qual o real superou mesmo outras moedas de elevado juro que não dispõem da mesma estrutura de exportações do Brasil.

Austrália e Noruega: dólar australiano e coroa norueguesa combinam matérias-primas e prémio de juro

O Reserve Bank of Australia aumentou a taxa de juro de referência a 17 de março para 4,1%, após uma subida em fevereiro, numa decisão que colocou o diferencial de taxas da Austrália face aos Estados Unidos em terreno positivo pela primeira vez desde 2017.

Depois de anos em que as taxas australianas estiveram abaixo das norte-americanas, esta inversão sinaliza uma verdadeira mudança na política monetária relativa, e a valorização de 7% do dólar australiano desde o início do ano reflete precisamente essa reavaliação.

A coroa da Noruega segue quase em paralelo, com uma subida de perto de 7% no ano. Como grande exportador de petróleo, a Noruega é uma das poucas economias cujos termos de troca melhoram com preços mais altos do crude.

O Norges Bank já adotou um tom mais restritivo na comunicação e, de forma geral, as moedas escandinavas beneficiaram da narrativa de aperto monetário na Europa.

O peso da Colômbia encaixa no mesmo padrão: as exportações de petróleo dominam as receitas externas do país e a moeda acompanhou de perto a evolução dos preços da energia ao longo de 2026.

Hungria: forint protagoniza a reviravolta mais marcante do ano

A valorização de 6,32% do forint húngaro desde o início do ano disfarça a intensidade do movimento recente. Nas últimas duas semanas, a moeda ganhou cerca de 8%, colocando abril de 2026 a caminho de se tornar o melhor mês para o forint desde julho de 2020.

O catalisador foi inequívoco. A 12 de abril, a Hungria realizou eleições legislativas em que Viktor Orbán, no poder há dezasseis anos consecutivos, perdeu de forma clara para Péter Magyar, que garantiu uma maioria de dois terços no parlamento.

Para os mercados cambiais, não se tratou de uma simples mudança de governo, mas de uma reavaliação profunda do risco político húngaro.

Sob a liderança de Orbán, a Hungria manteve um confronto prolongado com a União Europeia em torno das normas de Estado de direito, o que levou ao congelamento de milhares de milhões de euros em fundos estruturais.

Um governo pró-UE com mandato reformista altera por completo a equação: os mercados passam a ver um caminho credível para normalizar as relações com Bruxelas e desbloquear os fundos congelados, eliminando o prémio de risco político que penalizou os ativos húngaros durante anos.

Frantisek Taborsky, estratega de câmbio e dívida da ING para a região EMEA, salientou, numa nota de 14 de abril, que a recuperação pós-eleitoral foi liderada sobretudo pelo extremo longo da curva, com as taxas de juro a reagirem melhor do que as obrigações e a moeda a apreciar-se mais lentamente do que o esperado, o que sugere que já existiam posições muito carregadas no mercado antes da votação.

Ponto comum: margem limitada da Reserva Federal

Por detrás de cada uma destas histórias individuais está um mesmo fator macroeconómico: a incapacidade da Reserva Federal de agir perante uma inflação alimentada pela guerra.

Embora a Fed tenha sinalizado que irá olhar para lá do choque inflacionista provocado pelo petróleo, outros bancos centrais seguiram no sentido oposto: o Reserve Bank of Australia já subiu juros e vários outros discutem ativamente novas subidas.

Os mercados de previsão na plataforma Polymarket atribuem uma probabilidade de 76% a uma subida de juros do Banco Central Europeu em 2026, de 57% a uma subida do Banco de Inglaterra, de 36% a um aumento pelo Banco do Canadá e de apenas 15% a um movimento da Reserva Federal, um retrato que evidencia a divergência de políticas de forma mais clara do que muitas previsões.

Os analistas sénior do Danske Bank Antti Ilvonen e Rune Thyge Johansen avançaram uma explicação estrutural para a limitação da Fed na edição de abril do seu Global Inflation Watch.

A inflação geral nos Estados Unidos aumentou 0,9% em termos mensais em março, para 3,3% em termos homólogos, impulsionada por uma subida de 10,9% na componente da energia. A inflação subjacente, que exclui energia e alimentos, ficou em 0,2% em cadeia, abaixo dos 0,3% esperados, enquanto a medida de serviços denominada “super core” desceu de 0,35% para 0,18%.

A conclusão: até agora, o impacto inflacionista da guerra concentrou-se quase totalmente na energia, com uma transmissão limitada à inflação subjacente.

Essa distinção sustenta a sua previsão de que a Fed retomará os cortes em setembro.

Os estrategas de taxas de juro da Goldman Sachs George Cole e William Marshall destacaram a dimensão da mudança no outro lado da aquação.

As rendibilidades subiram em todos os mercados do G10 desde o início da guerra, no fim de fevereiro, e o Goldman passa agora a esperar que seis bancos centrais do G10 aumentem juros em 2026, acima dos três previstos antes do conflito.

“Até agora, os aspetos inflacionistas do choque de preços das matérias-primas têm dominado as preocupações com o crescimento”, afirmou Cole.

Só para a Fed se antecipam cortes. A 15 de abril, a probabilidade implícita de pelo menos uma redução de juros este ano situava-se em 38%, segundo o BBVA.

“Acreditamos que a precificação de mercado não é suficientemente acomodatícia e esperamos que volte a apontar para pelo menos um corte de juros ainda este ano”, afirmou Dariusz Kowalczyk, responsável de Estratégia Cross-Asset Ásia no BBVA.

O que pode mudar o cenário?

Salvo uma deterioração acentuada das perspetivas de crescimento global, a reavaliação atual dos trajetos dos bancos centrais tenderá a manter-se.

Para as chamadas moedas de matérias-primas, como a coroa norueguesa, o dólar australiano ou o peso colombiano, a outra variável crucial é o petróleo.

O BBVA sublinhou que a Agência Internacional de Energia (AIE) estima que serão necessárias duas semanas após a reabertura do estreito de Ormuz para repor 50% dos volumes de exportação do Golfo Pérsico anteriores à guerra, e um mês para chegar aos 80%.

Uma normalização da oferta de energia mais rápida do que o esperado reduziria o prémio das matérias-primas que tem impulsionado estas moedas.

Francesco Pesole, da ING, deixou uma nota de cautela sobre o quadro mais alargado. “Os mercados continuam fortemente inclinados para uma leitura benigna dos acontecimentos. Isso significa que muitas boas notícias já estão incorporadas nos preços, o que aumenta o potencial de recuperação do dólar caso as tensões voltem a agravar-se”, afirmou esta semana.

As moedas no topo da tabela deste ano subiram com base na premissa de que as boas notícias continuarão a chegar. Se tal não acontecer, a correção poderá ser tão acentuada como a subida.

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