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Nvidia: acordo de 500 mil milhões em Wall Street revela limites do boom da IA

O presidente executivo da NVIDIA, Jensen Huang, ouve Donald Trump, presidente dos EUA, falar no Salão Oval da Casa Branca, Washington DC, 29 de julho de 2026
CEO da NVIDIA Jensen Huang ouve o presidente dos EUA, Donald Trump, falar no Salão Oval da Casa Branca, Washington D.C., 29 de julho de 2026 Direitos de autor  AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
Direitos de autor AP Photo/Julia Demaree Nikhinson
De Quirino Mealha
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A Nvidia e seis grandes fundos de investimento planeiam canalizar mais de 500 mil milhões de dólares (433 mil milhões de euros) para infraestruturas de IA, permitindo às tecnológicas construir centros de dados sem pôr o custo nos seus balanços

Nvidia recorre a Wall Street para financiar os seus próprios clientes.

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A fabricante de chips norte-americana anunciou, na semana passada, que assinou memorandos de entendimento com alguns dos maiores gestores de activos de Wall Street, incluindo a Apollo Global Management, Blackstone, BlackRock, Brookfield Asset Management, Goldman Sachs e KKR, para mobilizar mais de 500 mil milhões de dólares em financiamentos destinados a empresas de inteligência artificial – dinheiro que servirá para comprar os seus chips e construir os servidores onde vão funcionar.

As seis entidades vão criar aquilo que a Nvidia descreve como “plataformas de financiamento de capacidade de computação”, alimentadas por capital institucional, fundos de seguros e crédito privado. As empresas mutuárias poderão usar esses recursos para adquirir chips, servidores, material de rede, edifícios e fornecimento de energia.

A Nvidia tem a opção de garantir até um quarto de cada operação, o que reduz a taxa de juro paga pelos clientes, mantendo a maior parte do risco de crédito nos financiadores.

Jensen Huang, presidente-executivo da Nvidia, afirmou que só abordou estas seis empresas e nenhuma recusou.

Manter essa despesa fora dos seus próprios balanços é precisamente o objetivo e o simples facto de ser preciso montar esta estrutura diz muito aos investidores sobre onde estão hoje os limites da vaga de investimento em inteligência artificial.

Esta engenharia financeira assenta numa única reclassificação. As unidades de processamento gráfico (GPU) foram sempre tratadas como bens que se desvalorizam rapidamente, substituídos sempre que surge uma geração mais rápida.

Na prática, a Nvidia está a pedir aos financiadores que passem a encarar estes activos como infraestruturas de longa duração, mais próximas de uma autoestrada com portagens ou de uma central elétrica, que podem servir de garantia durante anos.

“Estes são agora activos geradores de receitas”, afirmou Huang, que os descreve como produtivos, duradouros e transferíveis entre clientes.

Por que o dinheiro teve de vir de fora

O calendário reflete uma pressão que se foi acumulando ao longo de todo o ano.

A Microsoft, a Amazon, a Alphabet, a Meta e outros hiperescaladores, cujas plataformas de cloud alojam a maior parte das cargas de trabalho de IA no mundo, apontam em conjunto para investimentos de capital entre 720 mil milhões de dólares (€624 mil milhões) e 745 mil milhões de dólares (€646 mil milhões) em 2026, um aumento de cerca de 77% face ao ano passado.

As estimativas dos analistas para o que estes hiperescaladores vão gastar só em 2027 mais do que duplicaram em apenas um ano: de um consenso de 480 mil milhões de dólares (€416 mil milhões) em agosto de 2025 para 1,08 biliões de dólares (€943 mil milhões) este mês, uma subida de cerca de 127%, segundo o Bank of America.

O padrão repetiu-se em todas as fases.

Analistas que já consideravam insustentável o nível de investimento do ano passado viram depois os hiperescaladores elevar as metas no início de 2026, voltar a rever esses valores em alta ao longo do ano e projetar montantes ainda maiores para o próximo ano e para 2028.

A Moody’s alertou que despesas desta dimensão estão a consumir o fluxo de caixa livre e a empurrar os grupos tecnológicos para níveis mais elevados de endividamento. A Alphabet registou um fluxo de caixa livre negativo de 5,9 mil milhões de dólares (€5,1 mil milhões) num trimestre em que gastou 44,9 mil milhões de dólares (€38,9 mil milhões) em projetos.

É essa pressão que a estrutura do acordo da Nvidia com Wall Street procura aliviar.

A dívida emitida através destas “plataformas de financiamento de capacidade de computação” fica nos veículos de financiamento em vez de entrar diretamente nas contas dos hiperescaladores e conta ainda com a garantia da Nvidia, o que protege as notações de crédito e deixa margem para endividamento convencional noutros domínios.

Para operadores mais pequenos o efeito é ainda maior, já que empresas como a CoreWeave e a Nebius, sem rating de qualidade de investimento e que pagam caro pelo crédito, passam a ter acesso a capital em condições antes reservadas aos gigantes.

Como o mercado interpretou o anúncio

A reação foi mais ambivalente do que o montante em causa poderia sugerir e surgiu semanas depois de uma correção em julho, motivada por dúvidas sobre se o investimento em IA se pagará a si próprio.

Na essência, os investidores em ações viram um estrangulamento a ser desfeito, enquanto os investidores em dívida viram outra coisa: o custo de segurar a própria dívida da Nvidia contra incumprimento aumentou após o anúncio e praticamente duplicou desde o final de maio.

As dúvidas concentram-se na reclassificação já referida.

“Os chips depreciam-se rapidamente e perdem valor logo que surge uma geração mais recente”, alertou Nigel Green, da consultora financeira deVere Group, sublinhando que emprestar com esses activos como garantia só funciona se o colateral mantiver o seu valor.

Os críticos sublinham também que a Nvidia está a ajudar a financiar a compra dos seus próprios produtos, reforçando a circularidade que já preocupa o sector.

David Solomon, presidente-executivo da Goldman Sachs, descreveu o acordo como “um momento decisivo de um ciclo histórico de investimento em IA”.

Se esse momento se revelar decisivo no sentido que Solomon pretende depende de uma questão a que ninguém consegue ainda responder: quanto valerá uma GPU atualmente em uso daqui a cinco anos?

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