O reverendo Jesse Jackson destacou-se como ativista pelos direitos civis e concorreu duas vezes, em 1984 e 1988, à nomeação presidencial do Partido Democrata dos EUA.
Morreu aos 84 anos o reverendo Jesse Jackson, histórico dirigente dos direitos civis nos EUA e duas vezes candidato presidencial.
A notícia foi confirmada pela família, que adiantou que morreu em paz, rodeado de entes queridos.
“O seu compromisso inabalável com a justiça, a igualdade e os direitos humanos ajudou a moldar um movimento global pela liberdade e pela dignidade”, afirmou a família Jackson. “Agente incansável de mudança, elevou as vozes dos que não tinham voz, desde as campanhas presidenciais que liderou na década de 1980 até à mobilização de milhões de pessoas para se recensearem para votar, deixando uma marca indelével na história”.
“O nosso pai foi um líder ao serviço dos outros – não só da nossa família, mas também dos oprimidos, dos que não tinham voz e dos esquecidos em todo o mundo. Partilhámo-lo com o mundo e, em troca, o mundo passou a fazer parte da nossa família alargada”.
A nota acrescenta: “A sua crença inabalável na justiça, na igualdade e no amor inspirou milhões de pessoas e pedimos que honrem a sua memória continuando a luta pelos valores que pautaram a sua vida”.
A causa da morte não foi de imediato avançada, mas Jackson foi hospitalizado em novembro para tratamento de regulação da tensão arterial, depois de ter estado sob observação por paralisia supranuclear progressiva – “uma perturbação neurológica rara que afeta os movimentos corporais, a marcha e o equilíbrio, bem como os movimentos oculares”, segundo o Instituto Nacional de Doenças Neurológicas e AVC dos EUA.
Em 2017, revelou ter sido diagnosticado com doença de Parkinson.
Nascido a 8 de outubro de 1941 em Greenville, na Carolina do Sul, Jackson ganhou projeção na década de 1960 como dirigente na organização Southern Christian Leadership Conference, liderada por Martin Luther King.
Em 1965, juntou-se à marcha pelos direitos de voto que King liderou de Selma a Montgomery, no Alabama. King enviou-o depois para Chicago para lançar a Operation Breadbasket, uma iniciativa da Southern Christian Leadership Conference destinada a pressionar empresas a contratarem trabalhadores negros.
Jackson estava com King em 4 de abril de 1968, quando o líder dos direitos civis foi assassinado no Lorraine Motel, em Memphis, no Tennessee. Segundo o relato de Jackson, King morreu nos seus braços.
Fundou duas organizações de justiça social e ativismo: a Operation PUSH (inicialmente denominada People United to Save Humanity) em 1971 e, anos mais tarde, a National Rainbow Coalition. Defendeu, nos Estados Unidos e no estrangeiro, os pobres e os sub-representados em áreas que iam dos direitos de voto e das oportunidades de emprego à educação e aos cuidados de saúde.
Alcançou vitórias diplomáticas junto de vários líderes mundiais e, através da sua Rainbow/PUSH Coalition, levou as reivindicações de orgulho negro e autodeterminação até às salas de administração das grandes empresas, pressionando dirigentes empresariais a tornar os Estados Unidos uma sociedade mais aberta e mais equitativa.
Quando proclamava “I am Somebody”, num poema que repetia frequentemente, procurava chegar a pessoas de todas as cores.
Apesar dos problemas de saúde dos últimos anos, Jackson continuou a manifestar-se contra a injustiça racial já na era do movimento Black Lives Matter.
“Mesmo que ganhemos”, disse aos manifestantes em Minneapolis, antes de o polícia que manteve o joelho sobre o pescoço de George Floyd ser condenado por homicídio, “isso será um alívio, não uma vitória. Continuam a matar o nosso povo. Parem a violência, salvem as crianças. Mantenham a esperança viva”.
Donald Trump respondeu aos protestos – o maior movimento de contestação social nos EUA desde a década de 1960 – ameaçando enviar os militares para a rua. Jackson alertou que isso só iria provocar “uma enorme resistência”.
“Teremos de ir para a prisão, vamos resistir”, afirmou na altura à Euronews. “A nossa democracia não pode ceder a um Estado policial”.
Em 2024, marcou presença na Convenção Nacional Democrata em Chicago e numa reunião da Câmara Municipal para manifestar apoio a uma resolução que pedia um cessar-fogo na guerra entre Israel e o Hamas.
O reverendo Jackson deixa a mulher, Jacqueline, os filhos – Santita, Jesse Jr., Jonathan, Yusef, Jacqueline e Ashley Jackson – e vários netos.