Quase mil anos após ser criada, a tapeçaria de Bayeux regressa a Inglaterra e alunos britânicos são convidados a imaginar a cena final em falta
Para alguns alunos britânicos do ensino básico, os trabalhos de casa de História deste outono vão bem além de uma ficha sobre o ano de 1066.
Um novo concurso desafia alunos do 1.º ciclo em todo o Reino Unido a conceber e bordar um novo painel final para a Tapeçaria de Bayeux, um registo bordado de 70 metros sobre a conquista normanda de Inglaterra a que falta, há séculos, a derradeira secção.
Ninguém sabe ao certo o que representava originalmente. Em vez de tentarem reconstruir as cenas perdidas, as crianças são convidadas a imaginar o que poderá ter acontecido depois da conquista, projetando um “melhor amanhã” em vez de mais uma batalha.
Tapeçaria de Bayeux: o que é
Apesar do nome, a Tapeçaria de Bayeux é um bordado feito com fios de cores cosidos em linho, e não uma tapeçaria tecida.
Deixando a semântica de lado, as cenas descrevem os acontecimentos que antecederam a invasão de Inglaterra por Guilherme da Normandia, culminando na sua vitória na batalha de Hastings, em 1066.
Terá sido produzida em Inglaterra na década de 1070 e poderá ter sido encomendada pelo bispo Odo de Bayeux, meio‑irmão de Guilherme, para decorar a nova catedral de Bayeux, o que ajuda a explicar o nome.
Ao contrário de grande parte da arte que chegou até nós desse período, não é uma obra religiosa. Oferece antes um olhar invulgarmente detalhado sobre a vida no século XI, mostrando navios, armas, cavalos, edifícios, vestuário e alimentos, a par do relato da conquista.
A secção final da tapeçaria está desaparecida há séculos. Ninguém sabe quando se perdeu nem exatamente o que representava, embora os especialistas considerem provável que mostrasse a coroação de Guilherme, o Conquistador.
Concluir a história ‘inacabada’
Agora cabe aos alunos britânicos criar um novo futuro a partir da história antiga.
O concurso gratuito, aberto a todo o Reino Unido e intitulado Beyond the Battle (fonte em inglês), destina-se a alunos do key stage 2 – aproximadamente dos 7 aos 11 anos – que vão trabalhar em turma para desenhar e bordar os seus painéis.
Organizado pela Art Explora UK em parceria com a English Heritage, o concurso arranca no final de setembro deste ano.
As turmas vencedoras vão receber uma viagem totalmente financiada a Londres para ver a tapeçaria original, bem como uma visita à Battle Abbey and Battlefield de 1066, em Hastings, ou a outro local normando gerido pela English Heritage.
Os trabalhos serão igualmente apresentados numa exposição especial, e cada turma premiada receberá uma peça têxtil personalizada criada pela artista Jessica Grady.
As turmas finalistas terão direito a uma visita financiada ao local normando da English Heritage mais próximo.
Inglaterra: longa viagem de regresso
A tapeçaria está habitualmente exposta no Musée de la Tapisserie de Bayeux, na Normandia, mas o museu fechou em setembro de 2025 para uma renovação de dois anos. Este encerramento temporário abriu caminho a um acordo histórico de empréstimo entre França e o Reino Unido.
A Tapeçaria de Bayeux vai estar em exibição no British Museum, em Londres, entre 10 de setembro de 2026 e 11 de julho de 2027, na Sala 30 da Sainsbury Exhibitions Gallery. Será a primeira vez que a tapeçaria é mostrada no Reino Unido desde que foi produzida, há quase mil anos.
Enquanto estiver em Londres, peças como os tesouros de Sutton Hoo e as peças de xadrez de Lewis vão viajar do British Museum para museus na Normandia.
Além do regresso histórico a Inglaterra, há outro motivo histórico.
No próximo ano assinalam‑se mil anos sobre o nascimento de Guilherme, o Conquistador, em Falaise, e responsáveis europeus estão a organizar o ‘Year of the Normans’ em torno dessa efeméride.
Estão a ser planeados perto de mil eventos em toda a Normandia e em sete territórios europeus com herança normanda: o Reino Unido, a Irlanda, as Ilhas do Canal, a Flandres, o sul de Itália, a Noruega e a Dinamarca. O programa incluirá exposições, concertos e festivais de temática medieval, bem como uma nova tapeçaria que representará a secção em falta.
A tapeçaria, com 25 metros quadrados, foi concebida pela artista francesa Hélène Delprat e será tecida pelo Atelier Tapisserie Guillot d’Aubusson. Representa a coroação de Guilherme e será apresentada na Abadia de Westminster em 2027, antes de seguir para Falaise.