França altera o mapa‑mundo: diplomacia abandona a projeção de Mercator, tida como enganadora, e adota mapas que mostram melhor a verdadeira dimensão de África
Uma África encolhida, uma Gronelândia e um norte da Rússia que parecem estender-se até ao infinito: esse cenário está prestes a acabar nos mapas da diplomacia francesa.
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean-Noël Barrot, anunciou na sexta-feira o abandono, pelos seus serviços, da chamada projeção de Mercator, que aumenta artificialmente as zonas polares e reduz visualmente a dimensão das regiões equatoriais. A França passará a usar, em seu lugar, a projeção Eckert IV, que restitui de forma mais fiel as proporções reais dos continentes.
Assim, a França surgirá mais pequena no mapa em comparação com os países próximos do equador, tal como os Estados Unidos ou a Rússia.
“Um mapa nunca é totalmente neutro”
No seu discurso na Sorbonne, durante o evento para o grande público “La Fabrique de la diplomatie”, o ministro francês afirmou que “chegou o momento” de “corrigir” as perceções do mundo transmitidas por uma cartografia herdada dos navegadores ocidentais do século XVI.
Num discurso proferido na Sorbonne por ocasião do evento para o grande público “La Fabrique de la diplomatie”, o ministro francês declarou que “chegou o momento” de “corrigir” as perceções do mundo transmitidas por uma cartografia herdada dos navegadores ocidentais do século XVI.
“Um mapa nunca é totalmente neutro. Vejam a projeção de Mercator, aquela que cada um de nós conhece desde a infância. As áreas que aí vemos não correspondem às áreas reais: (...) Os Estados Unidos, a Rússia e a China ganham uma importância visual desproporcionada face a África, à América Latina ou ao Sudeste Asiático”, declarou o chefe da diplomacia francesa.
Jean-Noël Barrot deu também o exemplo da Gronelândia, que tem aproximadamente a mesma dimensão que a República Democrática do Congo ou a Argélia, quando na realidade “parece quase tão vasta” quanto todo o continente africano.
“Mudar de mapa não muda, evidentemente, o mundo. Mas corrigir uma representação que o distorce constitui já um ato de verdade”, sublinhou.
Na ONU, vitória cartográfica para África
O anúncio feito em Paris surge numa altura em que, em Nova Iorque, o mapa-mundo também está a mudar. Umas horas mais tarde, a Assembleia Geral das Nações Unidas abandonou oficialmente a projeção de Mercator em favor de uma projeção baseada no modelo Equal Earth, concebido em 2018 e mais fiel às proporções reais dos continentes.
A resolução, não vinculativa, intitulada “Corrigir o mapa” (fonte em francês) e patrocinada pelo Togo, obteve o apoio de 164 Estados-membros. A União Africana já tinha adotado a Equal Earth em março passado, e o texto encoraja agora os países a fazer o mesmo.
Só os Estados Unidos votaram contra, denunciando um “projeto ideológico radical”, nomeadamente devido a uma passagem da resolução que afirma que “a correção das distorções cartográficas relativas à dimensão dos continentes constitui um ato de justiça cognitiva e de reparação da memória histórica”.
Seis países – a Estónia, a Geórgia, a Lituânia, a Moldávia, a Sérvia e a Ucrânia – abstiveram-se.
A ONU sublinha que a resolução não proíbe a projeção de Mercator, “nem impõe um mapa único”. A resolução “encoraja os governos, os estabelecimentos de ensino, as organizações internacionais e as empresas tecnológicas a recorrerem à projeção “Equal Earth (fonte em francês)”, ou a outros mapas ditos “equivalentes”, que preservam as proporções reais das áreas.
A França associou-se assim a esta orientação, mas optou por adotar a projeção Eckert IV, criada em 1906. Esta projeção é próxima da Equal Earth, recomendada pela ONU, embora não seja idêntica. Ambas representam de forma mais fiel a dimensão dos continentes do que a projeção de Mercator, mas diferem ligeiramente na forma que atribuem aos continentes.
Como lembra a ONU, a cartografia de Mercator não vai desaparecer. Plataformas digitais como o Google Maps utilizam (fonte em francês) também atualmente uma versão desta projeção.
Nas escolas francesas, a maioria dos planisférios continua a usar Mercator. “Encontram-se Eckert ou Peters* nalguns manuais, mas é muito raro”, diz à Euronews Grégory, professor agregado de História-Geografia em Rennes.
Resta saber se os mapas usados na escola irão também acompanhar o movimento lançado pelo Quai d’Orsay.
*outra projeção equivalente, que permite representar melhor a área real dos continentes – Euronews.