O Papa Leão XIV, que fez da IA um elemento central do seu pontificado, alertou para os perigos desta tecnologia na UNESCO.
O Papa Leão XIV alertou, na sexta-feira, para os perigos da inteligência artificial, afirmando que as novas tecnologias devem "permanecer ao serviço da pessoa humana", em vez de se tornarem "mais um instrumento de dominação e injustiça".
Num discurso proferido na sede da UNESCO, em Paris, no âmbito da sua visita de quatro dias a França, o pontífice declarou que a IA corre o risco de empobrecer “as ideias e as relações” humanas através de um “processo de desumanização”, criticando também a crescente ênfase na produtividade nas sociedades modernas.
Ao proferir o seu discurso tanto em francês como em inglês, defendeu que julgar as pessoas de acordo com o "critério da eficiência" corria o risco de minar o respeito pela dignidade humana, levando "aqueles que já não são produtivos" a serem rejeitados e descartados.
A inteligência artificial tem-se revelado um tema proeminente do pontificado do Papa. Em maio, publicou a sua primeira encíclica, com 42.300 palavras, intitulada "Magnifica humanitas", que abordava os riscos que a inteligência artificial, se não for controlada, cria para os seres humanos, defendendo uma maior supervisão regulatória.
No seu discurso, o Papa salientou a necessidade de garantir que as tecnologias emergentes ofereçam salvaguardas adequadas para as crianças, afirmando que a "vulnerabilidade" dos jovens "nunca deve tornar-se uma oportunidade para a exploração".
Os decisores políticos europeus têm vindo a debater-se com a questão de como proteger as crianças dos perigos online, com medidas como a proibição do uso de telemóveis nas escolas já em vigor, enquanto a Comissão Europeia propôs o "Kids Act", que poderá restringir o acesso às redes sociais para crianças com menos de 13 anos, o que tem vindo a suscitar cada vez mais atenção.
“A mais terrível das obras humanas é a guerra”
O Papa abordou também a questão da guerra e fez referência ao lema da UNESCO: "uma vez que as guerras começam nas mentes das mulheres e dos homens, é nas mentes das mulheres e dos homens que devem ser construídas as defesas da paz".
As suas observações surgem num momento em que o mundo se debate com múltiplos conflitos em curso, incluindo no Médio Oriente e a invasão da Ucrânia pela Rússia.
Neste contexto, o Papa declarou que "a humanidade percebeu que o progresso científico, quando separado da sabedoria, pode transformar-se numa arma de destruição".
Refletiu também sobre o papel das instituições internacionais, afirmando que estas são vistas "com sentimentos contraditórios": por um lado, atuam como organismos que enfrentam desafios que "nenhum Estado consegue enfrentar sozinho", mas, por outro, "passam por uma crise de eficácia, especialmente quando o diálogo é visto como um obstáculo à ação".
Em resposta, o pontífice apelou a uma maior "confiança".
"Confiança de que as diferenças não representam necessariamente uma ameaça. Confiança de que o diálogo sincero pode trazer um bem maior do que aquele que cada pessoa poderia alcançar sozinha", afirmou.
Estes comentários surgem num momento em que a cooperação internacional enfrenta tensões políticas crescentes. Em julho de 2025, a administração Trump anunciou a sua decisão de se retirar da UNESCO, descrevendo a organização como "politicamente correta", culturalmente divisiva e "desfasada" das políticas apoiadas pelos americanos que elegeram o presidente dos EUA. A decisão deverá entrar em vigor em dezembro de 2026.
Uma visita matinal ao Palácio do Eliseu
No início do dia, o presidente francês Emmanuel Macron recebeu o Papa no Palácio do Eliseu, na presença de várias personalidades, incluindo autoridades diplomáticas, bombeiros que intervieram durante o incêndio da Notre-Dame de Paris e representantes de várias autoridades religiosas.
Durante o seu discurso, o pontífice reafirmou a importância do direito humano à vida — um ponto de discórdia tenso entre a Igreja Católica francesa e os políticos.
França consagrou o direito ao aborto na sua Constituição em 2024 e, no início deste ano, foi aprovada uma lei controversa a favor da morte assistida em situações médicas extremas, o que reacendeu algumas destas tensões.
O pontífice definiu o direito à vida como "o alicerce indispensável de todos os outros direitos humanos".
Abordou também a situação global, reafirmando a oposição firme do Vaticano às armas nucleares e denunciando a "crença errada" de que os meios de dissuasão nuclear proporcionam soluções.
Após o seu discurso na UNESCO, o pontífice partiu rapidamente no seu papamóvel para um desfile por Paris, antes das Vésperas na catedral de Notre-Dame de Paris e de uma grande vigília de oração noturna com jovens no Stade de France, em Saint-Denis.