O recital teve lugar no Castelli de Kampos, integrado no evento musical
A soprano grega de renome internacional Christina Poulitsi, que já se apresentou em emblemáticos teatros de ópera em todo o mundo, participou na edição deste ano do The Chios Festival, organizado pela Região do Egeu Norte na Grécia.
Juntamente com o prestigiado pianista Dimitris Giakas, deu um concerto no impressionante solar Castelli, em Kambos, na ilha de Chios. No centro da noite de ópera estiveram árias célebres interpretadas por Maria Callas, bem como o documentário da Ópera Nacional da Grécia “Mary, Marianna, Maria: Os anos gregos desconhecidos de Callas”.
Encontrámo-la e falámos com ela sobre Maria Callas, mas também sobre o seu próprio percurso na ópera: “Antes de mais, enquanto gregos, sentimos um enorme orgulho por Maria Callas, que é um gigante da música clássica e da ópera, ser grega. Considero que a todos nós nos inspira através das suas interpretações, não apenas musicalmente, mas também pela energia que transmite nas suas árias.
Infelizmente nunca tive oportunidade de a ver ao vivo, mas mesmo através das gravações percebe-se bem o quão singular era. Sempre que canto árias, e sobretudo bel canto italiano, volto sempre a ela e inspiro-me nas suas interpretações. Vejo-a como um pilar, uma luz que abre a cada um um caminho próprio e distinto.”
Também natural de Chios, Christina Poulitsi nutre um grande amor pela sua terra e pelos conterrâneos. Participou este ano pela terceira vez na iniciativa. Estudou na Alemanha, onde deu também os primeiros passos profissionais. Cantou nos grandes teatros de ópera, conquistando o carinho e o entusiasmo do público. Soma já uma longa trajetória, com distinções e papéis de relevo dentro e fora da Grécia.
“No estrangeiro comecei pela Alemanha, porque foi aí que estudei e dei os primeiros passos. Já cantei em quase todos os grandes teatros de ópera alemães e, depois, continuei pela Europa, América, Ásia e Oceânia. É uma enorme alegria conhecer mundos diferentes, trabalhar com maestros e teatros com os quais se cria empatia e onde se pode fazer música ao mais alto nível", afirma Poulitsi.
"Tive a sorte de ter como mentor o Zubin Mehta, que é uma lenda no universo da ópera. Foi ele quem escreveu uma carta de recomendação por mim e, na prática, lançou a minha carreira. Quis acompanhar-me enquanto ainda era estudante e, quando considerou que eu já estava ao nível certo, propôs-me a nossa primeira colaboração, como Gilda, em Florença. Depois, uma coisa foi levando à outra. Fizemos inúmeros concertos juntos. Fui convidada muitas vezes a ir a Israel, a Telavive, e foi lá que conheci também o Gianandrea Noseda", acrescenta.
"Sinto um enorme afeto pela Alemanha, porque foi o país onde me destaquei e onde comecei o meu percurso. Mas, naturalmente, tenho também um amor muito grande pela Grécia. É o meu país. Gosto imenso de cantar aqui. Tenho uma relação muito especial com o público na Grécia e adoro voltar, vezes sem conta. Hoje, com o pretexto deste concerto, estou muito emocionada por cantar na minha terra, porque sou oriunda de Quios”, frisa.
O que é que a atrai em espaços que não são os habituais para o canto lírico? Como é que se sente a cantar em palcos mais pequenos?
“É o terceiro ano em que canto no The Chios Festival, organizado pela Região do Egeu Norte. Fazem um trabalho notável. É uma semana cheia de conferências, documentários, espetáculos, iniciativas que cobrem muitas áreas, como medicina, história, arte, tudo. Gosto imenso de cantar em espaços que não estão estritamente associados às salas onde normalmente se fazem recitais e concertos. Adoro cantar ao ar livre. Claro que as condições são muito exigentes, nem vale a pena negar, mas a energia é sempre diferente.
Estes locais conquistam-te e criam uma sensação completamente nova. Aqui estamos numa torre genovesa medieval, em Kambos, em Chios, onde se preservam todos os elementos tradicionais: os pomares, a arquitetura, a forma única de construção, a nora. Neste jardim magnífico, com as tangerinas e limoeiros perfumados de Chios, a sensação é única. Dá-te inspiração para continuares no futuro.”
Mãe de dois filhos pequenos, a soprano grega procura manter o equilíbrio entre a família e as exigências da carreira internacional que construiu ao longo destes anos. Nesta fase tenta passar mais tempo na Grécia com as crianças e evitar as grandes produções de ópera. Ainda assim, o programa da nova temporada está cheio:
“Logo a seguir a Quios começamos os ensaios de uma nova ópera grega que vai estrear em Atenas, intitulada “Teodora, imperatriz de Bizâncio”. (fonte em grego) É a nova obra de Theodoros Stathis, encenada por Panos Angelopoulos. A figura emblemática da história bizantina ganhará vida no palco do Teatro Municipal de Música Olympia “Maria Callas”, a 30 de setembro e 1 de outubro. Depois tenho um recital, também em Atenas, no Parnassos. Seguidamente vamos com o Plácido Domingo à Malásia. Em dezembro apresento-me no Megaron, o Salão de Concertos de Atenas, e dou dois recitais a solo no Conservatório de Atenas. Mais tarde haverá ainda outro recital com o Plácido Domingo. Depois segue-se um recital com o tenor norte-americano John Osborn, em Salónica. Espero-o com grande expetativa, porque já trabalhámos juntos e temos uma química muito boa. E termino a temporada com um recital na Suíça.”
O The Chios Festival realizou-se este ano pela quinta vez e durou dez dias. O programa abrangente voltou a deixar uma marca forte na ilha. Incluiu espetáculos, concertos, projeções, debates, exposições, eventos paralelos e noites de homenagem. Personalidades destacadas da ciência, da cultura, da arte, da história e da marinha mercante marcaram presença na iniciativa, que decorre sob a égide da UNESCO – Comissão Nacional Helénica e da American-Hellenic Chamber of Commerce.
“Conseguimos criar um festival multifacetado. Acho até que a palavra ‘festival’ não lhe faz justiça. É uma mistura de conferência, eventos artísticos e exposições. O que tentamos é dar a conhecer a identidade cultural de Quios, promover os artistas de Quios e, ao mesmo tempo, e sobretudo, trazer grandes personalidades à ilha", afirma à Euronews a diretora artística da iniciativa, Dimitra Moutzouri.
"Queremos transformar a ilha no centro cultural de setembro na Grécia. E acreditamos que, em certa medida, já o conseguimos. É um festival que cresce passo a passo, ano após ano. Não estabelecemos metas. Limitamo-nos a tentar ser melhores todos os anos. Continuaremos da mesma forma nos próximos anos, sempre com o objetivo de fazer o melhor por Quios e pelos seus habitantes", acrescenta.