O líder do partido da oposição húngaro Tisza tem dado prioridade à campanha eleitoral interna em detrimento das suas funções parlamentares, chegando por vezes a contrariar o seu grupo no Parlamento Europeu para atrair os eleitores, ao mesmo tempo que se distancia de figuras da UE como von der Leyen.
Péter Magyar esforçou-se tanto para evitar ser rotulado de "fantoche de Bruxelas" pelo seu rival Viktor Orbán que quase não se tem feito ver em Bruxelas.
O líder do Tisza, o principal partido da oposição húngara, tem encarado o seu cargo de eurodeputado sobretudo como uma plataforma para confrontar o atual primeiro-ministro do país e impulsionar a sua campanha em Budapeste, na perspetiva das eleições de 12 de abril.
No entanto, desde que foi eleito eurodeputado em 2024, Magyar nunca redigiu qualquer relatório parlamentar; assinou apenas uma resolução numa câmara que produz dezenas por mês e, segundo muitos colegas, raramente compareceu às sessões das comissões.
A última aparição de Magyar foi em Estrasburgo, em janeiro, quando votou a favor de submeter o acordo comercial UE-Mercosul ao Tribunal de Justiça.
"Parece que a sua participação nas votações em plenário é, de facto, bastante baixa, cerca de 21% desde o início do mandato", afirmou Doru Frantescu, analista da EU Matrix, um grupo de reflexão que fornece análises e dados sobre as instituições da UE. "Isto significa que ele se concentrou na política interna não só recentemente, mas mesmo antes disso."
Um eurodeputado em missão
Isto reflete uma missão clara: desde o início, Magyar deu prioridade à destituição de Orbán após 16 anos de um governo praticamente incontestado.
Para tal, o Parlamento Europeu serviu de trampolim para o lançamento da sua campanha, concedendo-lhe imunidade e permitindo-lhe, ao mesmo tempo, forjar alianças antes da votação crucial.
Este impulso já era evidente nas eleições europeias de junho de 2024, quando Magyar conquistou 30% dos votos com um partido fundado poucos meses antes. Pouco depois, o Partido Popular Europeu acolheu os sete eurodeputados do Tisza, integrando-os no maior bloco político do continente.
Com as sondagens a sugerirem que está no bom caminho para vencer, a campanha de Magyar intensificou-se nos últimos meses, obrigando-o a concentrar-se em comícios e eventos de campanha na Hungria, em vez de em Bruxelas.
Além disso, Magyar está longe de estar sozinho — muitos eurodeputados têm, historicamente, utilizado o Parlamento Europeu para promover campanhas nacionais. No seu caso, porém, a grande maioria dos eurodeputados apoia Magyar como a melhor alternativa a Orbán, que se tornou o inimigo de Bruxelas, bloqueando dossiês-chave da UE com os seus vetos.
Neste contexto, o Parlamento ajudou Magyar a reforçar a sua visibilidade política, tanto no seu país como no estrangeiro.
O único confronto que teve com Orbán ocorreu na sessão plenária de Estrasburgo durante a presidência húngara do Conselho da UE, em outubro de 2024. Após o habitual discurso de Orbán aos eurodeputados, Magyar tomou a palavra para o acusar de transformar a Hungria no Estado-membro mais pobre e mais corrupto da UE.
A troca de palavras não terminou aí. Mais tarde, Magyar aproximou-se de Orbán e os dois homens apertaram as mãos — uma fotografia que rapidamente se tornou viral, colocando Magyar numa posição favorável, uma vez que parecia enérgico ao lado de Orbán.
No entanto, o papel de um eurodeputado destina-se a equilibrar as responsabilidades europeias e nacionais, um equilíbrio que se alterou nos últimos anos, à medida que muitos eurodeputados passam mais tempo em Bruxelas e assumem um papel mais ativo na definição das políticas da UE.
Afinal, os Tratados definem claramente que os deputados europeus desempenham um "papel fundamental na definição das regras da UE, uma vez que alteram e votam as propostas legislativas apresentadas pela Comissão Europeia e negociam o texto final com o Conselho, que representa os países da UE".
Advogado de profissão, Magyar foi nomeado membro de duas comissões influentes — Assuntos Constitucionais (AFCO) e Agricultura e Desenvolvimento Rural (AGRI). No entanto, não esteve envolvido em nenhum relatório elaborado por estas comissões.
Assinou apenas uma resolução — sobre os direitos das mulheres no Iraque — e apresentou uma única pergunta escrita à Comissão relativa às práticas de confisco de terras ligadas aos históricos decretos Beneš na Eslováquia, que afetam as minorias húngaras.
"Não tenho muito a dizer, pois nunca o vi", disse à Euronews um eurodeputado que integra uma comissão com Magyar. Outro confirmou que o trabalho de Magyar a nível das comissões "tem feito muita falta", devido aos seus compromissos de campanha na Hungria.
Contactados pela Euronews, muitos membros do Partido Tisza recusaram-se a comentar o trabalho de Magyar no Parlamento devido à sensibilidade política em torno das eleições húngaras. Outros, no entanto, argumentam que a oposição de Magyar a Orbán o coloca numa posição sem precedentes em comparação com outros eurodeputados.
"Esta não é uma campanha rotineira, é uma eleição que define o sistema, em que está em jogo a própria adesão da Hungria à UE, e exige toda a atenção de Péter Magyar", disse à Euronews um funcionário do Parlamento próximo do Partido Tisza, alegando que a ausência física de Bruxelas não significa desligamento.
"Ele continua totalmente envolvido em todas as decisões-chave. Quando surgem escolhas de alto risco, particularmente sobre posições de voto, ele participa frequentemente nas discussões diretamente", afirmou o funcionário.
Outro funcionário disse que, sem a sua imunidade parlamentar, "ele teria tido problemas em chegar a este ponto". As autoridades húngaras solicitaram o levantamento da imunidade de Magyar em três processos judiciais diferentes, mas o Parlamento rejeitou os pedidos por ampla maioria.
No seio do PPE, a ausência de Magyar é notada, mas geralmente aceite.
"Ele nunca participa nas reuniões do grupo", afirmou um responsável do PPE à Euronews, acrescentando que é sobretudo Zoltán Tarr, o chefe da delegação do Tisza no Parlamento, quem representa o partido em todas as discussões políticas do grupo em Bruxelas ou Estrasburgo.
Os responsáveis do PPE reconhecem que a liderança do grupo tem tolerado o envolvimento limitado de Magyar nas atividades do grupo, considerando o apoio ao sucesso eleitoral de um partido do PPE na Hungria como uma prioridade superior.
Caminhando na "corda bamba" em Bruxelas
Embora o Tisza seja visto como mais pró-europeu do que o Fidesz de Orbán, Magyar tem tido o cuidado de evitar em Bruxelas qualquer posicionamento político que possa ser impopular no seu país, procurando contrariar a narrativa de Orbán que o retrata como um "fantoche de Bruxelas".
Orbán acusou o Tisza de representar os interesses da UE e da Ucrânia, uma alegação que Magyar rejeita.
Para o Tisza, a potencial adesão da Ucrânia à UE é uma questão particularmente sensível: embora seja apoiada pela maioria do Parlamento Europeu, incluindo o PPE, muitos dos seus eleitores continuam céticos.
Existe uma tensão semelhante no que diz respeito ao compromisso da UE e do PPE de aumentar o apoio à Ucrânia. Em fevereiro de 2026, os eurodeputados do Tisza votaram contra o empréstimo de 90 mil milhões de euros proposto pela UE à Ucrânia, alinhando-se com a decisão de Orbán de o vetar.
"A margem de manobra do Tisza é limitada. Assumir uma posição diametralmente oposta à do Fidesz não seria bem recebida por grande parte do eleitorado", afirmou Frantescu. "Têm de encontrar um equilíbrio cuidadoso entre a posição do PPE e a da atual opinião pública no seu país."
Em questões como a migração e o ambiente, o Tisza atua como uma ponte, alinhando-se em grande parte com a sua família política europeia, mantendo simultaneamente uma proximidade com a posição do Fidesz.
"A UE e a Hungria precisam de uma forte proteção das fronteiras externas e devemos lutar juntos contra a migração ilegal. Não concordo com a redistribuição dos requerentes de asilo pela Europa", afirmou Magyar à Euronews numa entrevista em outubro de 2024, alguns meses após a sua eleição como eurodeputado.
Por vezes, os esforços para conquistar o eleitorado húngaro têm criado atritos entre o Tisza e outros partidos do grupo PPE.
O Tisza contrariou a posição do grupo PPE por três vezes recentemente, o que levou à aplicação de sanções internas. Os seus eurodeputados votaram contra o acordo comercial UE-Mercosul, invocando a necessidade de defender os interesses dos agricultores húngaros, uma decisão que resultou na proibição de os legisladores do Tisza intervirem nas sessões plenárias durante seis meses.
Outra questão delicada é o esforço do Tisza para se distanciar do presidente do PPE, Manfred Weber, e da presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, ambos retratados de forma negativa pelo governo húngaro e frequentemente apresentados ao lado de Magyar nos cartazes de campanha do Fidesz.
Este posicionamento reflete-se no seu comportamento parlamentar: os eurodeputados do Tisza não apoiaramvon der Leyen na últimamoção de confiança, em janeiro, uma atitude vista como intencional.
"Estamos gratos pela confirmação de Bruxelas de que os políticos do Tisza não têm dono", escreveu Magyar no Facebook, na altura, dando a entender que o seu compromisso com o PPE e com os princípios da UE tem sido sempre secundário em relação à opinião interna.