A grande maioria dos legisladores europeus espera ver Orbán cair nas próximas eleições húngaras, consideradas um momento decisivo para Bruxelas. Mesmo os legisladores de esquerda estão a torcer pelo rival de Orbán, Péter Magyar, numa votação decisiva para o futuro da Europa.
A duas semanas das eleições na Hungria, a campanha também está a aquecer em Bruxelas.
Enquanto a Comissão Europeia se mantém discreta para evitar qualquer controvérsia, os legisladores europeus estão a falar mais alto.
A Euronews estima que a maioria dos grupos parlamentares - mais de três quartos dos deputados - está contra o primeiro-ministro Viktor Orbán e, em certa medida, a favor do líder da oposição, Péter Magyar.
"Esta votação é absolutamente decisiva", afirma Andrey Kovatchev, um destacado membro do Partido Popular Europeu.
"O grupo está a apoiar totalmente o Tisza [partido de Magyar]", disse à Euronews, apesar dos recentes atritos em questões como o acordo comercial UE-Mercosul. "Derrubar Orbán é muito importante para o futuro da UE".
De acordo com as estimativas efetuadas pelo grupo de reflexão EU Matrix, a Hungria foi o país que mais vezes se opôs às decisões dos outros Estados-membros na década de 2020, o que pode explicar porque é que muitos em Bruxelas preferem um governo mais conciliador do que o de Orban.
Vários legisladores concordam que uma derrota de Orbán pouparia à Europa um dos seus desafios internos mais persistentes, especialmente à luz das recentes revelações sobre o facto de o ministro dos Negócios Estrangeiros húngaro ter telefonado ao homólogo russo, Sergei Lavrov, antes e depois de reuniões importantes da UE.
"Há muito que Orbán atua como o homem de Putin dentro da UE", disse o eurodeputado alemão Daniel Freund à Euronews. "Os seus constantes vetos e manobras políticas estão a minar a segurança europeia."
Uma derrota do Fidesz seria uma vitória para a grande maioria dos eurodeputados que, nos últimos anos, têm adotado uma posição firme contra o governo húngaro, criticando a corrupção, a erosão do Estado de direito e a repressão da liberdade de imprensa e dos opositores políticos.
Durante as legislaturas anteriores, os deputados lançaram, por exemplo, o procedimento do artigo 7.º contra a Hungria - que pode acabar por retirar o direito de voto ao país na UE -, declararam o país uma "autocracia eleitoral" e pediram a Budapeste que renunciasse à sua vez na presidência rotativa da União Europeia.
Nesta legislatura, o Parlamento aprovou um relatório (fonte em inglês) que criticava duramente a interferência judicial, a corrupção, a má utilização dos fundos da UE e os ataques à sociedade civil no país.
"A queda de Orbán significaria que os eleitores concordam que o Estado de direito deve ser restaurado na Hungria", disse à Euronews a eurodeputada holandesa Tineke Strik, relatora do dossier. "Isto só pode ser conseguido com a sua derrota."
Péter Magyar é a esperança de todos, incluindo a esquerda
A oposição do Parlamento a Orbán traduz-se num amplo apoio ao seu adversário, Péter Magyar, líder do partido Tisza.
"As próximas eleições são decisivas, um momento de rutura para regressar a uma democracia livre e pluralista", disse à Euronews a presidente do grupo Renew Europe, Valérie Hayer, refletindo uma opinião amplamente partilhada no hemiciclo, onde as eleições húngaras são vistas como o voto mais importante do ano.
Embora Tisza pertença ao Partido Popular Europeu (PPE), de centro-direita, o apoio a uma mudança de governo vai para além das forças políticas de direita.
Magyar tem encontrado apoio entre os legisladores de esquerda, apesar de estes se oporem a muitas das suas posições em matéria de ambiente, migração e questões LGBTQ+.
A rápida ascensão de Magyar nas sondagens levou a um colapso do apoio a outros partidos da oposição na Hungria, que foram a principal alternativa política a Orbán durante anos.
O Partido Socialista Húngaro (MSZP) e o Momentum retiraram-se da campanha, orientando os seus apoiantes para votarem no candidato da oposição mais forte em cada distrito, normalmente um membro do Tisza.
Não é habitual que os eurodeputados liberais e de esquerda estejam a torcer discretamente por um político conservador e de centro-direita, simplesmente porque é considerado mais pró-europeu do que o atual primeiro-ministro.
"Num mundo ideal, gostaria de ver a minha colega socialista Klára Dobrev a governar a Hungria", disse a eurodeputada socialista francesa Chloé Ridel, referindo-se a Dobrev, membro do partido socialista húngaro Demokratikus Koalíció. "Mas agora a prioridade é livrarmo-nos de um regime corrupto e, portanto, expulsar Orbán".
A eurodeputada espera que Orbán perca as eleições para o impedir de "manter a UE como refém", apesar de não ser garantido que o seu adversário cumpra as suas promessas de campanha.
Os Verdes, que têm estado entre os eurodeputados que mais se manifestaram contra o governo de Budapeste nos últimos anos, vão utilizar as suas redes sociais "para apelar a todos os húngaros para que votem e derrubem este sistema", disse um eurodeputado do grupo.
A Esquerda no Parlamento Europeu não apoia oficialmente nenhum candidato, mas "aguarda com expetativa a queda de Orbán", disse um representante do grupo à Euronews.
Quem apoia Orbán no Parlamento Europeu?
Apesar de uma longa lista de detratores, Orbán continua a ter alguns apoiantes no Parlamento Europeu e em toda a UE.
Líderes nacionalistas europeus, incluindo a francesa Marine Le Pen e o italiano Matteo Salvini, mostraram o seu apoio ao atual primeiro-ministro húngaro durante um evento chamado "Grande Assembleia dos Patriotas", a 23 de março, em Budapeste.
O Fidesz pertence ao grupo Patriotas pela Europa (PFE ou Patriotas), o terceiro maior do Parlamento Europeu, e o governo de Orbán goza de apoio mesmo para além dos seus aliados políticos, com mais de uma centena de eurodeputados a desejarem a sua recondução como primeiro-ministro.
A Europa das Nações Soberanas (ESN), o outro grupo de extrema-direita no Parlamento, vai apoiar oficialmente o Movimento Nossa Pátria, uma força nacionalista menor que faz parte do grupo e que obtém cerca de 6% das sondagens.
No entanto, os eurodeputados do ESN dizem que admiram Orbán pela sua linha dura em relação à migração e pela sua narrativa anti-UE e antissocial.
"Espero que o Fidesz continue no governo, idealmente numa coligação com os nossos parceiros, como uma força corretiva. Não é segredo que mantemos boas relações com Viktor Orbán", disse à Euronews o eurodeputado da Alternativa para a Alemanha (AfD) Tomasz Froelich, referindo-se a um encontro recente entre o líder húngaro e a líder da AfD, Alice Weidel.
Os Conservadores e Reformistas Europeus (ECR), de direita, não apoiam Orbán, embora alguns partidos do grupo, como o Lei e Justiça, da Polónia, e os Irmãos de Itália, de Giorgia Meloni, o apoiem.
"O nosso grupo não está a tomar uma posição unida sobre as eleições húngaras", disse o copresidente Nicola Procaccini à Euronews, refletindo as diferentes opiniões entre as delegações nacionais.