Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Morreu aos 104 anos Edgar Morin, um dos maiores intelectuais do século XX

Filósofo e sociólogo francês Edgar Morin profere um discurso no Eliseu, por ocasião do seu centésimo aniversário, em Paris, quinta-feira, 8 de julho de 2021.
O filósofo e sociólogo francês Edgar Morin profere um discurso no Eliseu, por ocasião do seu centenário, em Paris, na quinta-feira, 8 de julho de 2021. Direitos de autor  Yoan Valat/AP
Direitos de autor Yoan Valat/AP
De Serge Duchêne com AFP
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários
Partilhar Close Button

Para os franceses, Morin foi sobretudo um guia intelectual, que desenvolveu uma abordagem holística e transdisciplinar das grandes questões do nosso tempo. Fora de França, ficou conhecido como o inventor do “cinema verdade” graças à sua “Crónica de um verão” (1961).

Edgar Morin, figura maior da vida intelectual francesa, antigo resistente da Segunda Guerra Mundial que consagrou a vida à promoção do espírito crítico e ao combate à intolerância, morreu aos 104 anos, anunciou este sábado a esposa.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

«É o avô de todos os franceses e a memória do século XX», escrevia o diário de esquerda Libération num retrato publicado em 2021, dedicado a este elegante filósofo, apreciador de chapéus e gravatas de seda.

Na manhã de sábado, o presidente francês Emmanuel Macron saudou, na rede social X, a memória deste «espírito universal» e desse «humanismo feito pessoa».

Para o antigo inquilino do Eliseu, François Hollande, Morin "escolheu, ao longo da sua longa existência, os caminhos da liberdade intelectual. Tropeçando por vezes, corrigindo-se sempre".

Prova do seu inegável apelo intelectual, as homenagens a Morin sucediam-se, na manhã de sábado, à direita e também na extrema-esquerda.

O líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, recordou que Morin, "aos 102 anos, teve a sua parte na contestação contra o massacre dos palestinianos em Gaza", concluindo: "Um exemplo nunca morre".

O antigo ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Dominique de Villepin, garantiu que "o seu pensamento abre-nos caminho. A sua voz, tão amiga e fraterna, acompanhar-nos-á durante muito tempo".

No mesmo registo, Enrico Letta, antigo secretário do Partido Democrata italiano e ex-primeiro-ministro transalpino, atualmente presidente do Instituto Jacques Delors:

Por fim, a UNESCO prestou homenagem "à memória e ao imenso legado filosófico de Edgar Morin, figura maior do pensamento", sublinhando que "o percurso intelectual de Edgar Morin é um método para o futuro".

O que é ser humano?

Filho de judeus imigrantes laicos, formou-se em Sociologia, mas via-se sobretudo como um "humanista", cruzando filosofia, psicologia, etnografia e biologia para tentar compreender a natureza humana.

No estrangeiro, é sobretudo conhecido como o criador do «cinema vérité», graças ao documentário de 1961, realizado com o cineasta Jean Rouch, «Chronique d'un été», que acompanha o dia a dia de jovens parisienses comuns.

As conversas espontâneas sobre classes sociais, raça, colonialismo e outros temas centrais, desencadeadas pela simples pergunta "É feliz?", revolucionaram o género documental.

"É um dos documentários mais grandiosos, mais ousados e mais originais jamais feitos", entusiasmava-se a revista New Yorker em 2013.

Em França, Morin era antes de mais uma referência intelectual, que desenvolveu uma abordagem holística e transdisciplinar às grandes questões da época.

"O que é ser humano? O que é a globalização? O que é a vida? Estas questões obrigam-nos a ligar conhecimentos hoje dispersos por diferentes campos de investigação", explicava à TV5 Monde em 2020.

Muito depois de completar 100 anos, continuava a comentar a atualidade, partilhando as suas reflexões com os 220 mil seguidores na rede social X, da vaga de calor de 2022, quando escreveu: «Paris, 18h, 40 °C: levanta-te, tempestade tão esperada!», à guerra na Ucrânia, sobre a qual anotou: "A guerra é uma lição de ódio".

"Até aos últimos dias, Edgar Morin manteve-se atento ao mundo, aos outros e às grandes questões humanas que alimentavam o seu pensamento", declarou a esposa, Sabah Abouessalam Morin, num comunicado enviado à AFP este sábado.

"Hoje, o vazio que deixa é imenso. Mas a sua coragem, a sua lealdade para com as pessoas e as ideias, a sua exigência moral e a sua esperança continuam a acompanhar-nos."

Rejeitado pelos comunistas

Morin, nascido Edgar Nahoum a 8 de julho de 1921 em Paris, era filho de pais judeus imigrantes da Grécia. Recusou sempre ser definido pela sua identidade judaica, insistindo em que era também "francês, mediterrânico e cidadão do mundo".

Com 10 anos, perdeu a mãe, que adorava; um acontecimento que a família tentou esconder-lhe durante semanas e que descreveria décadas mais tarde como o seu "Hiroshima pessoal".

Refugiou-se primeiro nos estudos e depois no ativismo de esquerda, aderindo ao Partido Comunista.

Depois de inicialmente ter defendido a resistência pacifista aos nazis – um dos dois grandes erros de avaliação que reconheceria mais tarde, a par do apoio inicial, após a guerra, ao dirigente soviético Josef Estaline –, juntou-se à Resistência sob o pseudónimo Edgar Morin.

Licenciado em História, Geografia e Direito, dirigiu a propaganda do governo militar francês na Alemanha do pós-guerra, antes de trabalhar como jornalista e de integrar o CNRS.

Obcecado pelo debate de ideias, atraiu sobre si a ira dos camaradas comunistas por ter escrito num jornal considerado pró-americano.

Expulso do partido, Morin passou a alimentar uma profunda desconfiança em relação à doutrinação, que exprimia na obra «Autocritique», onde sublinhava a necessidade de questionar constantemente as próprias convicções.

Manteve-se, no entanto, uma voz influente à esquerda.

As suas análises sobre temas tão diversos como o antissemitismo que alimentou os rumores mais disparatados de raptos de clientes judeus em lojas de roupa em Orleães, nos anos 1960 – histeria coletiva sobre a qual Morin escreveu um livro – e a globalização, chegaram a um público vasto.

Edgar Morin sorri durante um evento organizado por ocasião do seu 100.º aniversário, na sede da UNESCO em Paris, sexta-feira, 2 de julho de 2021.
Edgar Morin sorri durante um evento organizado por ocasião do seu 100.º aniversário, na sede da UNESCO em Paris, sexta-feira, 2 de julho de 2021. Michel Euler/Copyright 2021 The AP. All rights reserved

Um oráculo francês

A partir da década de 1970, começou a alertar para os perigos ambientais de um crescimento económico desenfreado – um dos muitos temas em que se revelou de notável lucidez.

Criticava também duramente o tratamento dado por Israel aos palestinianos, afirmando num artigo de 2002 que «os judeus de Israel, descendentes de um apartheid chamado gueto, guetizam os palestinianos» e que «os judeus que foram humilhados, desprezados e perseguidos humilham, desprezam e perseguem os palestinianos».

Foi condenado por antissemitismo devido a esse artigo, mas acabou absolvido pelo Tribunal de Cassação. O caso, durante o qual extremistas judeus o acusaram de ser "um judeu que se odeia a si mesmo", valeu-lhe ampla solidariedade entre os pares universitários.

Prova do respeito quase universal de que gozava, por ocasião do 100.º aniversário, em 2021, Morin foi convidado para jantar pelo presidente Emmanuel Macron.

Autor prolífico – escreveu dezenas de livros, o último publicado em 2025 –, deixou marca com os alertas sobre a urgência climática e os excessos do capitalismo selvagem.

Georgette Elgey, escritora, e Edgar Morin, filósofo, posam após receberem a Legião de Honra, em Paris, terça-feira, 26 de fevereiro de 2013.
Georgette Elgey, escritora, e Edgar Morin, filósofo, posam após receberem a Legião de Honra, em Paris, terça-feira, 26 de fevereiro de 2013. Bertrand Langlois/AP

Edgar Morin em cinco datas:

1921 Nascimento a 8 de julho

1941 Adesão ao Partido Comunista Francês (até 1951)

1950 Investigador no CNRS, onde chega a diretor de investigação em 1970

1982 Publicação de Science avec conscience (Fayard), obra em que desenvolve pela primeira vez a teoria do «homem complexo»

2024 Lançamento de La méthode de la méthode, tomo 3 (Actes Sud)

Outras fontes • RFI

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários

Notícias relacionadas

Morreu Jürgen Habermas, um dos principais filósofos alemães contemporâneos

Conhecer Abai Qunanbaiuly: o legado do poeta, filósofo e músico cazaque

Morreu o ensaísta Eduardo Lourenço (1923 - 2020)