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Hala El Akl: A arquitetura, a pandemia e o futuro

De  Damon Embling
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Hala El Ak
Hala El Ak   -   Direitos de autor  euronews
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A pandemia global fez-nos pensar na nossa saúde de mais do que uma forma. Para a arquiteta e designer urbana baseada em Londres Hala El Akl, expôs a ligação entre o local onde vivemos e trabalhamos e o nosso bem-estar pessoal.

É um grande foco para esta inovadora da indústria. Como diretora da PLP Architecture e membro fundadora do núcleo de investigação PLP Labs, Hala está a desbloquear novas tecnologias e um novo pensamento para redefinir e desenhar as cidades de amanhã.

Damon Embling, euronews: Como arquiteta e designer urbana, deve ter um trabalho fascinante. Já trabalhou em tudo, desde um plano diretor para uma cidade inteira a empreendimentos residenciais e comerciais em cidades como Londres?

Hala El Akl: Sim, é fascinante poder trabalhar em cidades novas e em grande escala. Na verdade, o projeto em escala mais pequena em que trabalhei foi uma casa de banho pública em Oxford Street. Trabalho a uma grande escala, em muitas geografias e países, o que é muito enriquecedor, cultural e profissionalmente.

O projeto em escala mais pequena em que trabalhei foi uma casa de banho pública em Oxford Street.
Hala El Akl
Arquiteta
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Hala El Akl com o repórter Damon Emblingeuronews

Beirute como inspiração

Já trabalha em Londres há alguns anos, mas nasceu em Beirute, no Líbano. Nasceu e foi criada numa cidade dividida, na altura. Fale-nos da sua infância, da sua educação e dos estudos lá. De que forma isso a influenciou pessoal e profissionalmente?

Crescer em Beirute foi ótimo, foi difícil mas ótimo, porque eu nasci durante a Guerra Civil. A nossa família fez muito bem em proteger-nos de tudo o que estava a acontecer à nossa volta. Venho de uma família de construtores, arquitetos e urbanistas. Eles tentaram manter-me a mim e à minha irmã longe disso, mas ambas acabámos por estudar arquitetura. Ela está no cinema e eu sou arquiteta e designer urbana.

Penso que usar Beirute como laboratório para explorar este campo, uma cidade onde as interacções sociais e a divisão são tão visíveis no tecido construído, foi uma grande experiência e dá visibilidade. A ligação entre ambiente construído e interação social muito cedo se sobrepôs e tornou-se naquilo que me fascina.

Os nossos pais tentaram manter-me e à minha irmã longe deste mundo. Mas acabámos ambas a estudar arquitetura.
Hala El Akl
Arquiteta

Que tipo de coisas impulsiona o seu trabalho? O que tenta alcançar?

Penso que existe um sentido de responsabilidade como arquiteta e designer urbana, no sentido em que cada linha que desenho representa uma parede, um limite ou um tipo diferente de interação. Portanto, existe esta responsabilidade de tentar desenhar lugares que reflitam as sociedades que os vão habitar. Mergulhamos na interação social através da história antropológica, olhando para o futuro. É uma espécie de tentativa de ligar passado e futuro num espaço.

Arquitetura e pandemia

Diz “olhando para o futuro”, mas se olharmos um pouco para trás, para o ano passado, temos a pandemia, que obviamente atingiu o Reino Unido, tal como todo o mundo. Como é que o que vivemos no ano passado perturbou o seu setor em termos de arquitetura e design urbano? Será que vai mudar as coisas a longo prazo?

Penso que é demasiado cedo para começar a dizer qual será exatamente o impacto. Sinto que precisamos de um pouco de distância e espaço para analisar o que aconteceu este ano, o que realmente nos atingiu. Mas penso que o mais importante é que, na mente das pessoas, se confirmou a ligação entre o ambiente e a saúde. O que estamos a fazer nos PLP Labs é desenvolver ferramentas para ajudar a melhorar esse envolvimento, para ajudar a melhorar essa compreensão e ajudar as comunidades a tomar medidas. Posso contar-lhe mais sobre esse projeto mais tarde, se quiserem.

Qual é então a ligação entre os edifícios e a nossa saúde?

Isto é exatamente o que esse projeto faz. Chama-se Conhecer a Sua Saúde. Desenvolvemo-lo com a Comuzi, o Centric Lab e os PLP Labs, claro. O que faz é leva-lo através de uma compreensão do que são os fatores de stress ambiental - ruído, luz, poluição sonora e stress psicossocial do emprego, a uma série de coisas. Por isso, responde a este questionário e depois descarrega o guia que o vai ajudar a compreender o que é que na habitação, na biodiversidade e nas infraestruturas que fazem parte da sua vida quotidiana, pode ser melhorado.

Mas este é apenas mais um exemplo de uma forma diferente para as autoridades locais e comunidades se envolverem, ou proprietários e inquilinos. Nos PLP Labs, estamos muito interessados em melhorar a forma como nos envolvemos uns com os outros, porque o que a pandemia mostrou, para o qual temos vindo a evoluir naturalmente, é que precisamos de nos envolver melhor e com mais pessoas.

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Hala El Akl com o repórter Damon Emblingeuronews

Êxodo urbano

Ouvimos falar de pessoas que talvez queiram agora abandonar as cidades e ir para zonas rurais. Que perturbação significa tudo isso em termos das coisas que vai conceber no futuro?

Não creio que vamos assistir à morte da cidade, ou à morte do escritório, ou à morte das ruas comerciais, como as pessoas gostam de dizer, porque há coisas que nos fazem falta quando nos encontramos isolados. Penso que as pessoas prosperam através da interação social e da ligação. Por isso, penso que é um movimento temporário em direção aos ambientes rurais.

Há coisas como estas que nós, como designers, devemos aprender e incorporar. Porque talvez haja coisas que pensávamos que levariam muitos anos para que as autoridades locais tornassem possível acontecer. Mas elas reagiram muito rapidamente. É como a cidade de Paris e as ciclovias durante a pandemia. Os quilómetros que eles acrescentaram são bastante impressionantes. Por isso, penso que algumas destas mudanças foram aceleradas e espero que tenham vindo para ficar.

Mas será que vai mudar o tipo de empreendimentos que concebem, em termos de habitação ou de escritórios? Será que vão ter um aspeto muito diferente no futuro?

Uma pequena coisa que tenho notado são os terraços. No passado, em todos os planos diretores, no espaço público, costumávamos desenhar muitos terraços ao ar livre e as pessoas no Reino Unido olhavam para mim e diziam: 'Hala, não estamos no Mediterrâneo, isto não vai funcionar aqui'. Agora, quando tivemos de fazer isto com a pandemia e permitir lugares ao ar livre com espaçamento, espero que tenham vindo para ficar. Olhamos para as ruas de Londres e as pessoas apoderaram-se delas, apropriaram-se delas, as ruas estão vivas. Espero que a tendência fique. Penso que há coisas que nós, enquanto designers, devemos aprender e incorporar.

Não vamos assistir à morte da cidade, do escritório ou da rua comercial.
Hala El Akl
Arquiteta

Escritórios do futuro

Que tipo de lugares pensa que vai desenhar no futuro? Onde vamos trabalhar?

O importante num edifício de escritórios ou num plano diretor são as infraestruturas que fornecemos aos outros utilizadores, quer sejam sociais, culturais ou de saúde e bem-estar. São coisas de que talvez hoje falemos mais, mas há anos que falamos delas. Agora tornaram-se mais óbvias. O que precisam os empregadores de fazer para atrair talento? Essa é a questão. Nós, como designers, como fazemos para criar espaços que despertem a criatividade nas pessoas? Voltamos a esta rede ou ecossistema de comodidades em todo o edifício. O que fazemos em muitos dos nossos projectos é desenvolver estratégias feitas por medida.

Os dois CC, comunidade e cultura, são claramente uma grande parte do seu foco, uma paixão. Porquê?

Os espaços de que gostamos ou aos quais tendemos a voltar, ou recordar, têm uma alma e não é coincidência. Não creio que haja uma receita para recriar essa alma. Podemos, através da nossa prática, através dos nossos diferentes projetos, melhores práticas, tentar recriar isso. O pior para um designer é criar um espaço em que as pessoas não querem estar e do qual não façam o seu próprio espaço.

Trabalha aqui no Reino Unido, em toda a Europa, Médio Oriente e Ásia. Não pode usar o mesmo modelo para todos, certo?

Por exemplo, se trabalhamos no Médio Oriente, o importante é manter o sol fora. Se trabalhamos num plano director em Manchester, tudo se resume a fazer a luz entrar. Trata-se de lidar com as condições ambientais de uma forma muito diferente. Quando tentamos compreender como as pessoas vivem em casa, há diferentes práticas sociais todos os dias. Por exemplo, no Médio Oriente, o aspeto religioso faz mais parte da vida quotidiana. Assim, inclui-se esse na rede de infra-estruturas que são importantes numa cidade.

Se trabalhamos no Médio Oriente, o importante é manter o sol fora. Se trabalhamos num plano director em Manchester, tudo se resume a fazer a luz entrar.
Hala El Akl
Arquiteta

As pessoas preocupam-se com a cultura e a comunidade onde vivem e trabalham? Pensa que estão realmente preocupadas com isso?

Reparamos quando já não está lá. Tomamos isso como um dado adquirido. Em Londres ou Paris, somos demasiado mimados, porque é grátis, está disponível em todo o lado. Em outros lugares, não é o caso. Por isso, é algo que tomamos como garantido. Se olharmos para este ano, quando estes lugares não estavam disponíveis, penso que as pessoas já repararam e pediram que voltassem.

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Inovação e sustentabilidade

Sustentabilidade. Quão importante é isso para si, pessoalmente?

É autopreservação. Só temos um planeta.

É uma grande parte do seu trabalho e tem sempre em mente?

Pessoalmente, sim. Por isso os PLP Labs foram criados. Se olhar para o nosso trabalho nos últimos 10 anos, há duas coisas: A primeira é a inovação. Por exemplo, no espaço residencial, olhamos para o primeiro edifício de “co-living” no Reino Unido. Outro exemplo é o maior telhado de madeira da Europa ou um edifício que concebemos nos Países Baixos chamado The Edge, que foi considerado o mais inteligente e mais verde do mundo. Por isso, tendemos a ser conhecidos pela inovação na tipologia, seja na habitação ou no escritório. O segundo aspeto é como integramos a sustentabilidade. Nos últimos 10 anos, os nossos principais projetos juntaram isso de forma bastante agradável.

Que tipo de coisas vamos utilizar para tornar os nossos ambientes mais ecológicos?

Um dos relatórios que acabámos de publicar para os escritórios do British Council, com alguns parceiros, é sobre a utilização de ‘wearables’ no local de trabalho. Há uma análise de como reagimos a certos ambientes, por isso fizemos algumas experiências em diferentes ambientes que criámos na PLP e medimos o impacto de trabalhar sozinho, de haver mais luz, de estar rodeado de espaços verdes, por isso penso que a tecnologia e os ‘wearables’ nos permitem medir com precisão essa ligação. Não apenas dizer que quero colocar uma parede verde porque é melhor, mas fazer essa ligação.

Inteligência artificial

Há também a inteligência artificial, realidade virtual, realidade aumentada, todo esse tipo de coisas. Como que toda essa nova tecnologia vai revolucionar o trabalho que se faz no futuro?

Uma das coisas é conceber ferramentas que ajudem a comunicar sobre o produto final ou como vai ser um espaço, muito cedo, aos clientes ou às comunidades, às autoridades locais. Seja óculos especiais que permitem experimentar um espaço, seja criar certo tipo de imagens.

A outra coisa que estamos a desenvolver são formas de conceber em 3D. Por isso, usamos óculos especiais, mas também podemos adicionar andares, remover andares e interagir com o modelo.

Os dias de rabiscar num pedaço de papel com um lápis já lá vão, não é verdade?

Não. Penso que é um pouco de ambos porque, por alguma razão, estamos sempre à volta da mesa com uma caneta. As pessoas fazem rabiscos e tentam encontrar soluções. É algo que vai e vem.

(Apesar da tecnologia) Os dias de rabiscar com papel e lápis não acabaram.
Hala El Akl
Arquiteta

A inteligência artificial está a ser utilizada em muitos setores diferentes, de muitas maneiras diferentes, neste momento…

Quando olhamos para uma cidade, tentamos analisar e compreender o que lá está. Com muitos dados disponíveis, é muito mais fácil obter essa informação e construir um modelo que possa absorvê-la e analisá-la. Portanto, esse é um dos aspetos. Depois, quando estamos a conceber certos detalhes num edifício onde existe um elemento de repetição, podemos ensinar as nossas máquinas a fazer essa repetição, seja qual for. Elas pegam nos parâmetros e dão o resultado.

Teme a tecnologia de alguma forma? Porque algumas pessoas pensam que os robôs estão a chegar…

Eu não me preocupo, mas penso no que colocamos em prática para evitar qualquer excesso. Na Europa, temos a sorte de ter uma grande política de proteção em termos de privacidade de dados, etc. Para mim, é um prazer porque me liberta do sistemático, repetitivo e permite-me usar o meu cérebro de forma mais estratégica.

Como todos nós esperamos agora emergir lentamente desta pandemia que está a engolir o mundo, qual é a sua maior motivação neste momento?

Temos estado a trabalhar em projetos em muitos lugares do mundo e não nos temos encontrado à volta da mesa com as pessoas com quem estamos a trabalhar, nem temos podido ir ao local ver esses lugares. Sinto falta dessa interação humana e da interação física com os espaços.

Portanto, mal podemos esperar para voltar à mesa com esses pequenos esboços...

Sim.

Hala El Akl, muito obrigado por se ter juntado a nós em Disrupted.

Muito obrigada. Foi um prazer.

Nome do jornalista • Ricardo Figueira