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Cirurgia às cataratas em Marte: cientistas testam implantes oculares no espaço

Astronauta da NASA e engenheira de voo da Expedição 72, Anne McClain surge junto de uma das principais matrizes solares da Estação Espacial Internacional
A astronauta da NASA e engenheira de voo da Expedição 72, Anne McClain, surge junto de um dos principais painéis solares da Estação Espacial Internacional. Direitos de autor  NASA
Direitos de autor NASA
De Roselyne Min
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Uma equipa de investigação enviou 135 lentes artificiais sem embalagem para a Estação Espacial Internacional, onde ficaram cerca de seis meses expostas às condições da órbita baixa da Terra antes de regressarem para análise.

Uma viagem a Marte pode demorar meses. E o que acontece se um astronauta desenvolver um problema ocular grave a meio do trajecto?

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Uma equipa de investigadores nos Estados Unidos enviou lentes artificiais usadas em cirurgias às cataratas para fora da Estação Espacial Internacional, para perceber se os implantes necessários em futuras operações conseguiriam sobreviver à viagem até destinos como Marte.

Os investigadores responsáveis pelo estudo acreditam que, ainda durante a sua vida, alguém vai precisar de uma cirurgia às cataratas em Marte.

“Uma viagem até Marte pode demorar quase um ano, e regressar à Terra por causa de uma catarata que limite a visão, de uma lesão ou de outro problema ocular cirúrgico pode não ser realista”, afirmou Morgan Micheletti, cirurgião oftalmologista e director de investigação no Berkeley Eye Center, nos Estados Unidos.

“Mais cedo ou mais tarde, o tratamento terá de ser feito onde o doente estiver.”

Forma-se uma catarata quando a lente natural do olho se torna opaca. Durante a cirurgia, os médicos removem essa lente e substituem-na por uma lente artificial transparente, chamada lente intraocular.

Fazer o mesmo a milhões de quilómetros da Terra exigiria alguém capaz de realizar a operação, bem como aparelhos, material esterilizado e implantes que resistam à viagem.

A ideia também nasceu da fascinação que Micheletti alimenta desde criança.

“Estou fascinado pelo espaço desde que me lembro”, disse.

“Quando me tornei cirurgião ocular, essa fascinação evoluiu para uma questão mais prática. Conseguiria fazer uma cirurgia no espaço?”

Que aconteceu às lentes no espaço?

No âmbito do projecto JAMES, a equipa enviou 135 lentes artificiais sem embalagem para a Estação Espacial Internacional.

Ficaram cerca de seis meses no exterior da estação, em três posições, expostas a condições diferentes: uma ficou voltada para oxigénio atómico altamente reactivo, outra recebeu radiação ultravioleta intensa do Sol e uma terceira ficou parcialmente protegida de ambos.

Outras 45 lentes, também sem embalagem, ficaram na Terra para comparação.

Depois do regresso das lentes enviadas ao espaço, uma equipa do Intermountain Ocular Research Center, da Universidade do Utah, examinou 61 delas, a par de 20 lentes que tinham permanecido na Terra.

A maioria das lentes expostas ao espaço, 42 em 61, não apresentou alterações relevantes.

Das outras 19, oito lentes de acrílico desenvolveram fissuras e rugosidade à superfície, compatíveis com erosão provocada por oxigénio atómico, enquanto cinco adquiriram descoloração amarelada e deixaram passar menos luz em determinados comprimentos de onda.

As seis lentes ajustáveis por luz, que podem ser afinadas com luz ultravioleta após a implantação, apresentaram um aspecto invulgar em “calçada” ou tipo “plástico de bolhas”. Os investigadores ainda não sabem porquê.

Isso não significa, alertam os investigadores, que implantes para cataratas fossem necessariamente danificados numa viagem a Marte.

As lentes foram deliberadamente deixadas sem embalagem e expostas directamente ao ambiente hostil no exterior da estação, para identificar de que forma poderiam falhar. Na prática, viajariam protegidas no interior de uma nave espacial.

O passo seguinte é perceber de quanta embalagem e protecção necessitam, sem acrescentar peso e volume desnecessários.

Quão realista é uma cirurgia às cataratas no espaço?

A cirurgia às cataratas para lá da Terra continua a ser uma perspectiva distante.

A experiência testou a forma como as lentes artificiais resistem às condições do espaço, não se a própria cirurgia pode ser realizada em segurança fora da Terra. Os investigadores também ainda não sabem se as alterações detectadas em algumas lentes afectariam a visão ou as tornariam inutilizáveis.

O passo seguinte para Micheletti é testar o aparelho usado na cirurgia às cataratas durante curtos períodos de microgravidade, em voos parabólicos.

O equipamento utiliza ultrassons e líquido para fragmentar e remover a lente natural turva do olho.

Se isso resultar, espera avançar para testes mais longos em microgravidade e, por fim, para uma experiência cirúrgica em órbita.

“A progressão tem de ser cuidadosa. Primeiro os materiais, depois o equipamento, a seguir o procedimento e, por último, a própria cirurgia”, sublinhou.

“O meu objectivo a longo prazo é ajudar a tornar possível a primeira cirurgia ocular para lá da Terra.”

Os resultados da experiência foram apresentados no domingo, em Londres, no congresso da Sociedade Europeia de Cirurgiões de Catarata e Cirurgia Refrativa.

Os investigadores acreditam que se trata da primeira experiência controlada em que vários tipos de lentes oculares artificiais modernas são expostos directamente ao ambiente exterior da Estação Espacial Internacional e depois devolvidos à Terra para análise laboratorial.

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