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Europa gasta valor recorde de 7,3 mil milhões de euros em gás russo do Ártico em apenas oito meses

Navio-tanque russo de GNL do Ártico Arc7 class Christophe de Margerie atracado durante a cerimónia de batismo no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, Rússia, em junho de 2017
Petroleiro russo de GNL ártico da classe Arc7 Christophe de Margerie atracado durante a cerimónia no Fórum Económico Internacional de São Petersburgo, em junho de 2017 Direitos de autor  AP Photo / Olga Maltseva
Direitos de autor AP Photo / Olga Maltseva
De Marta Pacheco
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Duas empresas europeias dominam a rede de transporte marítimo no Ártico: a Seapeak, da Escócia, e a Dynagas, ligada à Grécia. Em conjunto, os navios operados por estas duas empresas asseguraram 72% de todas as exportações de gás natural proveniente do projeto ártico Yamal.

Apesar das declarações públicas de que os laços económicos com a Rússia serão cortados, a Europa pagou, em pouco mais de oito meses deste ano, cerca de 7,28 mil milhões de euros por gás natural liquefeito (GNL) proveniente do projeto ártico Yamal, de Moscovo, ultrapassando já os 7,3 mil milhões gastos em todo o ano de 2025.

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Os números resultam de uma investigação da Urgewald, uma ONG que expõe as instituições financeiras e as empresas que apoiam projetos nocivos para o clima.

Nos primeiros oito meses de 2026, os portos europeus receberam 156 cargamentos de GNL de Yamal, com 11,39 milhões de toneladas, face a 142 cargamentos e 10,34 milhões de toneladas entre janeiro e agosto de 2025 – um aumento de 10,1% em termos homólogos, segundo a ONG alemã Urgewald.

Dados em tempo real da empresa de análise de mercados Kpler indicam que, entre 1 de janeiro e 5 de setembro deste ano, os portos europeus absorveram 88,9% das exportações globais de Yamal, acima dos 78,2% em 2025.

“Isto mostra que os compradores da UE estão a maximizar as importações antes da entrada em vigor da proibição em janeiro de 2027. A maior parte destes volumes resulta de contratos de longo prazo já existentes, uma vez que o GNL de contratos de curto prazo foi proibido em abril deste ano”, disse à Euronews Charles Costerrouse, analista de energia da Kpler.

Analistas de energia referem que a UE ultrapassou o total anual anterior em apenas oito meses e cinco dias, devido a uma combinação de preços mais elevados do gás na Europa e de maiores volumes de cargamentos, numa altura em que a guerra no Médio Oriente perturbou uma rota essencial do comércio energético através do estreito de Ormuz.

Duas empresas europeias dominam esta rede de transporte marítimo: a Seapeak, sediada em Glasgow, e a empresa de navegação Dynagas, ligada à Grécia. No total, navios associados a estas duas empresas europeias asseguraram 72% de todas as exportações de GNL de Yamal.

Seis petroleiros Arc7 ligados às operações da Seapeak em Glasgow transportaram 65 cargamentos e 4,73 milhões de toneladas a partir de Yamal entre janeiro e agosto. Navios da Dynagas, ligada à Grécia, transportaram outros 62 cargamentos e cerca de 4,5 milhões de toneladas.

“A Europa afirma que está a afastar-se da energia russa. Estes números mostram o contrário”, afirmou Alexander Kirk, responsável sénior de campanhas na ONG ambiental Urgewald. “A UE recebeu mais 10% de GNL de Yamal e quase 9 em cada 10 toneladas exportadas pelo projeto durante os primeiros oito meses do ano.”

Costerrouse acrescentou que entre os maiores importadores de GNL de Yamal na Europa estão a França (4,4 milhões de toneladas), a Bélgica (3 milhões de toneladas), Espanha (2,7 milhões de toneladas) e os Países Baixos (1,1 milhões de toneladas).

Líderes da UE reúnem-se no Árctico

Entretanto, este boom comercial surge numa altura particularmente sensível, com os líderes europeus a chegarem à Finlândia, a 13 de setembro, para a Cimeira Europeia do Árctico, enquanto diplomatas em Bruxelas elaboram o 22.º pacote de sanções da UE – com a Grécia a garantir uma exceção a uma proibição total do GNL russo.

De acordo com a investigação, a Europa não é apenas o principal cliente da Rússia, é também a espinha dorsal logística do comércio ártico, o que expõe uma grande vulnerabilidade para Moscovo.

Como as águas do Árctico congelam durante a maior parte do ano, a Rússia depende de 15 petroleiros especiais de classe de gelo Arc7 para abrir caminho através do gelo. Viagens curtas até portos europeus permitem a estes navios descarregar rapidamente o combustível e regressar à Sibéria. Se a Rússia tivesse de enviar estes mesmos navios até à Ásia durante o inverno, a viagem demoraria semanas e as exportações totais de gás cairiam drasticamente.

Em agosto de 2026, a Yamal dividiu as exportações quase exatamente em partes iguais. Sete cargamentos, com 497 945 toneladas, foram entregues a portos europeus, enquanto outros sete, com 493 855 toneladas, chegaram a destinos asiáticos.

No entanto, embora a abertura estival da Rota Marítima do Norte tenha permitido à Rússia repartir temporariamente as exportações de forma equilibrada entre a Europa e a Ásia em agosto, essa janela está a fechar-se. Em dezembro, a rota oriental congelada para a Ásia torna-se intransitável para expedições diretas, obrigando a Rússia a voltar a privilegiar as águas europeias.

Proibição das importações de GNL russo à vista

Mas a prova de fogo chegará em 1 de janeiro de 2027, quando a proibição oficial da UE às importações de GNL russo e aos serviços marítimos relacionados deverá entrar plenamente em vigor. Especialistas avisam que, sem acesso aos portos da UE, a capacidade da Rússia para manter as suas operações no Árctico enfrentará uma pressão sem precedentes.

À medida que os líderes europeus se reúnem em Rovaniemi, na Finlândia, para coordenar a segurança no Árctico face à expansão russa, ativistas argumentam que o cofre de guerra do Kremlin está a ser diretamente financiado pelas empresas de serviços públicos europeias.

“Não podem ignorar que o dinheiro, os portos e os serviços marítimos da UE estão a ajudar um dos projetos energéticos árticos emblemáticos de Putin a viver um ano excecional”, alertou Sebastian Rötters, especialista em sanções da Urgewald.

Com o 22.º pacote de sanções atualmente em negociação em Bruxelas, os ativistas exigem que os governos europeus fechem as lacunas existentes. Reclamam uma proibição imediata de prestar serviços à frota Arc7 e um embargo rigoroso à venda de petroleiros especializados em GNL a entidades russas.

Resta saber se os países da UE, ainda receosos de novos choques nos preços da energia no inverno, terão a vontade política para cortar este cordão de vários milhares de milhões de euros.

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