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Estados Unidos: derrota de Trump nas intercalares mexe com Europa e mercados

Participantes num evento democrata reagem durante a noite eleitoral num hotel em Capitol Hill, em Washington, quarta‑feira, 4 de novembro de 2026.
Participantes num evento democrata reagem durante a noite eleitoral num hotel em Capitol Hill, Washington, quarta-feira, 4 de novembro de 2026. -  Direitos de autor  J. Scott Applewhite/Copyright 2026 The AP. All rights reserved
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De Piero Cingari
Publicado a •Últimas notícias
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Democratas conquistam ambas as câmaras do Congresso dos EUA. Para a Europa, as grandes questões são tarifas e Ucrânia, onde Trump mantém grande parte do seu poder.

Donald Trump sofreu uma das maiores derrotas da sua carreira política, depois de os republicanos perderem o controlo de ambas as câmaras do Congresso para os democratas numa votação que se transformou num referendo ao seu mandato.

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Às 10h05 CET, os democratas tinham garantido 228 lugares na Câmara dos Representantes, mais dez do que os 218 necessários para a maioria, contra 139 dos republicanos, com dezenas de disputas ainda por apurar.

No Senado, conquistaram sete lugares aos republicanos, incluindo no Texas, Ohio, Kansas e Maine.

Os preços elevados pesaram muito sobre os eleitores. Cerca de dois terços disseram, num inquérito realizado no dia da votação, que as tarifas de Trump prejudicaram a economia.

O presidente afirmou que aceitaria os resultados, mas acrescentou: “Não vejo isto como um ataque contra mim.”

Deixou também claro que tencionava usar o seu veto para travar a agenda dos democratas, publicando uma fotografia de um boné vermelho com a palavra “VETO” bordada. Mas disse igualmente ao New York Times que estava disposto a trabalhar com os democratas.

Quanto poderá um Congresso dominado pelos democratas mudar, na prática, para a Europa e para os mercados?

Estados Unidos: Congresso democrata acaba com a ameaça de tarifas à Europa?

Provavelmente não, porque as tarifas de Trump já não dependem do Congresso.

Depois de o Supremo Tribunal ter anulado em fevereiro as suas tarifas de emergência, a administração passou‑as para a Secção 301 da legislação comercial norte‑americana. Esse mecanismo permite ao presidente agir sem votação dos congressistas.

Os democratas podem realizar audições e atrasar a confirmação dos seus nomeados, mas não conseguem retirar‑lhe esse poder com facilidade.

James Smith, economista de mercados desenvolvidos no banco holandês ING, considera que uma Washington dividida pode até levar o presidente a recorrer mais a esse instrumento.

“Tal como a política externa, o comércio é outro poder que o presidente pode exercer de forma unilateral, sem o Congresso”, escreveu Smith numa nota divulgada antes da votação.

Smith não excluiu novas tarifas dirigidas à Europa, que afirmou poderem ter grande impacto na inflação dos Estados Unidos e na Reserva Federal.

Estados Unidos: o que acontece ao apoio à Ucrânia?

Os democratas vão presidir às comissões do Senado e decidir quais dos nomeados de Trump serão confirmados quando o novo Congresso entrar em funções em janeiro. Muitos querem também aprovar novos fundos para a Ucrânia.

A parte mais difícil é garantir que esse dinheiro seja de facto gasto. Nos últimos dois anos, a Casa Branca tem cancelado verbas já aprovadas pelo Congresso, retendo‑as até ao final do ano fiscal, altura em que expiram.

“Na prática, isto significa que um Congresso democrata pode inscrever em lei verbas para a Ucrânia ou para ajuda ao desenvolvimento e o presidente pode optar por não as utilizar”, afirmou Nevada Joan Lee, investigadora de políticas no Conselho Europeu de Relações Externas, num comentário publicado no mês passado.

O conselho que dá aos governos europeus é que contem apenas com o dinheiro que efetivamente chega.

“Os europeus devem encarar as verbas consignadas como intenção, não como compromisso”, acrescentou Lee.

Mercados: como reagiram à derrota de Trump?

Após um início nervoso, as bolsas europeias inverteram a tendência e passaram a negociar em alta.

Às 10h00 CET, o Euro Stoxx 50 subia 0,8% e o DAX alemão 0,6%, enquanto o IBEX 35 espanhol avançava 1,6%. Os futuros sobre ações norte‑americanas também recuperaram, com os contratos sobre o S&P 500 a ganharem 0,2%.

As instituições financeiras lideraram os ganhos, à medida que os investidores voltaram a apostar em bancos centrados nos respetivos mercados domésticos. O Deutsche Bank subiu 3,6%, o Intesa Sanpaolo 3,3%, o Commerzbank e o Société Générale 3,1% cada, enquanto o Santander e o UniCredit avançaram 3%.

As empresas de energias limpas, penalizadas pelas políticas de Trump, também recuperaram. A dinamarquesa Ørsted, desenvolvedora de parques eólicos, disparou 7,3%, e o fabricante de turbinas Vestas ganhou 5,2%.

As ações do setor da defesa seguiram no sentido oposto. Os investidores receiam que um Congresso democrata possa travar a subida da despesa militar dos Estados Unidos, que Trump tem defendido, e muitos fabricantes europeus de armamento também fornecem as forças armadas norte‑americanas.

A BAE Systems recuou 5,2%, a Hensoldt 4,9%, a Thales 4,5%, a Saab 3,8%, a Rheinmetall 3,2%, a Dassault Aviation 2,8% e a Leonardo 2,7%.

Os metais preciosos estiveram entre os principais vencedores. O ouro avançou 2,7%, para 4 035 dólares por onça, regressando acima dos 4 000 dólares, e a prata valorizou 4%, para 51,76 dólares.

O euro apreciou‑se 0,5%, para 1,1247 dólares, à medida que o dólar se enfraquecia face às restantes grandes moedas.

As obrigações do Tesouro norte‑americano também valorizaram. A yield das Treasuries a 10 anos desceu 3,7 pontos base, para 4,93%, a das notas a 2 anos para 4,61% e a das obrigações a 30 anos para 5,30%. A taxa das Bunds alemãs a 10 anos pouco se alterou, situando‑se em 3,33%.

O bitcoin subiu 1,3%, para cerca de 78 300 dólares, e o Brent negociou perto dos 104 dólares por barril.

Estados Unidos: Washington dividida é boa para investidores?

Os mercados geralmente apreciam esse cenário. Quando a Casa Branca e o Congresso estão em desacordo, aprovam‑se menos grandes leis, o que significa menos surpresas.

A história também favorece os detentores de obrigações. Nos três meses após anteriores eleições intercalares, as yields das Treasuries a 10 anos caíram em média entre 20 e 25 pontos base, segundo Luca Bindelli, responsável de estratégia de investimento no banco privado suíço Lombard Odier.

“Consideramos que uma vitória alargada dos democratas seria neutra ou ligeiramente positiva para as perspetivas orçamentais. O Congresso poderia conter a agenda expansionista de Trump e, com ela, o défice”, afirmou Diego Barnuevo, analista de mercados na empresa de pagamentos Ebury, em comentários enviados por email.

Ed Yardeni, presidente da Yardeni Research, mostra‑se mais cauteloso.

“Wall Street tradicionalmente recebe bem o bloqueio político, porque reduz a probabilidade de o Congresso aprovar legislação extremista. Mas desta vez pode ser diferente”, escreveu Yardeni numa nota publicada na segunda‑feira.

A sua preocupação é o teto da dívida, o limite legal ao montante que o governo dos Estados Unidos pode contrair em empréstimos. Uma Washington dividida terá ainda assim de chegar a acordo para o aumentar, e uma disputa prolongada em torno desse tema poderá fazer subir, em vez de descer, os custos de financiamento. Barnuevo prevê que o limite se torne vinculativo em algum momento de 2027.

Zona euro: o que se segue para o euro?

Os analistas de divisas duvidam que estas eleições venham a alterar muito o quadro no longo prazo. Para o dólar, a Reserva Federal continua a ser mais determinante do que o Congresso.

“O dólar continua a reagir sobretudo à narrativa da Fed, que não deverá sofrer um impacto imediato e direto do resultado das intercalares”, escreveram Francesco Pesole, estratega de câmbio no ING, e colegas numa nota difundida na terça‑feira.

O euro enfrenta também problemas próprios. Os preços da energia permanecem elevados, em grande medida devido à guerra com o Irão, o ING espera que a inflação na zona euro se mantenha em torno dos 4%, e os investidores exigem um prémio maior para deter obrigações do Estado francês.

O novo Congresso toma posse em janeiro. Até lá, Trump mantém maiorias republicanas em ambas as câmaras e, mesmo depois disso, a sua caneta de veto continuará em cima da secretária.

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