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Crianças de cinco anos conseguem: recolha de água dos rios mapeia vida em 10% da Terra

Dimple Patel, CEO da NatureMetrics
Dimple Patel, CEO da NatureMetrics Direitos de autor  Denis Loctier/
Direitos de autor Denis Loctier/
De Denis Loktev
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Tecnologia de ADN ambiental transforma simples amostras de água e solo num mapa global da biodiversidade e ajuda a travar o declínio da vida selvagem

Mais de metade do PIB mundial depende da natureza, mas a vida selvagem está a desaparecer a um ritmo alarmante. As espécies de água doce são as mais afetadas, com uma diminuição de 85% das populações desde 1970.

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As consequências vão muito além da ecologia: a degradação dos solos ameaça as cadeias de abastecimento agrícola e a perda de barreiras naturais às cheias deixa mais comunidades em risco.

O problema agrava-se porque é muito difícil medir o que se está a perder. Os levantamentos tradicionais de biodiversidade dependem de equipas de ecologistas especializados que passam semanas ou meses no terreno a identificar espécies pela vista ou pelo som. Os resultados chegam tarde, custam caro e muitas vezes não são consistentes.

«Se eu e tu fôssemos ao mesmo rio, não faríamos a mesma lista de espécies», diz à Euronews Earth Dimple Patel, CEO da empresa de monitorização da biodiversidade NatureMetrics. «Isto torna muito difícil reunir conjuntos de dados que as pessoas consigam conciliar e normalizar à escala global.»

Dispositivo da NatureMetrics utilizado para recolher uma amostra de água de um rio
Dispositivo da NatureMetrics utilizado para recolher uma amostra de água de um rio The Earthshot Prize

Todas as espécies numa garrafa de água

A NatureMetrics baseia a sua abordagem no ADN ambiental, ou eDNA – o material genético libertado pelos organismos vivos para o meio envolvente através de células da pele, saliva e outros vestígios biológicos. Esse ADN permanece no ambiente durante dias ou semanas e basta uma simples amostra de água ou de solo para o recolher.

«Todos os organismos vivos libertam ADN para o ambiente», explica Patel à Euronews Earth. «A partir desse litro de água do rio conseguimos depois associar cada vestígio de ADN aos peixes, anfíbios, mamíferos e insetos de que provém.»

Queríamos garantir que o processo de recolha de amostras era simples o suficiente para uma criança de cinco anos, por isso testámo-lo numa criança de cinco anos.
Dimple Patel
CEO da NatureMetrics

O processo de recolha foi deliberadamente simplificado. A NatureMetrics envia kits de amostragem para qualquer parte do mundo, sem necessidade de conhecimentos especializados. «Queríamos garantir que o processo de recolha de amostras era simples o suficiente para uma criança de cinco anos, por isso testámo-lo numa criança de cinco anos», conta Patel. «Ela obteve resultados excelentes.»

Quando o filtro chega de volta ao laboratório, a tecnologia de sequenciação de ADN – semelhante, em princípio, à utilizada na ciência forense – identifica todas as espécies presentes na amostra. O método é não invasivo: não há captura, não há redes, não há perturbação do ecossistema. «Demora uma fração do tempo, custa uma fração do preço e fornece um conjunto de dados incrivelmente rigoroso e rico», diz Patel à Euronews Earth.

Kit de campo da NatureMetrics, concebido para ser utilizado por qualquer pessoa sem formação especializada. A empresa envia kits para clientes em 116 países.
Kit de campo da NatureMetrics, concebido para ser utilizado por qualquer pessoa sem formação especializada. A empresa envia kits para clientes em 116 países. The Earthshot Prize

Dados de biodiversidade ao serviço das indústrias

A empresa processa as amostras naquela que descreve como a maior rede comercial de laboratórios de eDNA do mundo, a operar em 116 países e a servir mais de 600 organizações. Este ano, a NatureMetrics atingiu um marco: já analisou ADN ambiental em 10% da superfície do planeta.

Os resultados alimentam uma plataforma que cartografa as espécies detetadas, acompanha ao longo do tempo o estado de saúde dos ecossistemas e compara locais, mostrando, por exemplo, se os trabalhos de recuperação numa floresta degradada estão a produzir melhorias mensuráveis.

«As pessoas passam a compreender os segredos escondidos desse ecossistema e podem direcionar de forma muito precisa a forma como o recuperam e apoiam», explica Patel.

A carteira de clientes da empresa vai de organizações de conservação, como a WWF, a indústrias de forte impacto, como a mineração e a energia, e inclui, cada vez mais, cadeias de abastecimento agrícola.

Patel destaca parcerias com grandes empresas de bens de consumo que procuram proteger as bactérias e os fungos do solo que sustentam a produção alimentar: «Como é que, a nível biológico, podemos ajudar a cuidar do solo que nos vai continuar a dar alimentos nos próximos 50 anos?», questiona.

«O objetivo», diz Patel à Euronews Earth, «é que os dados sobre biodiversidade estejam prontos para suportar decisões, para que empresas e organizações os possam usar para orientar o investimento, gerir operações e contabilizar o seu impacto na natureza. São camadas de dados que permitem estar a milhares de quilómetros de um local e, ainda assim, saber ao detalhe o que aí se passa e o que se pode fazer para o ajudar.»

A empresa já cartografou espécies vivas em 10% da superfície do planeta através de ADN ambiental.
A empresa já cartografou espécies vivas em 10% da superfície do planeta através de ADN ambiental. The Earthshot Prize

«Queremos que a natureza entre nos balanços»

O trabalho da NatureMetrics foi reconhecido com a seleção para a final do Prémio Earthshot, o galardão ambiental criado pelo príncipe de Gales. Para Patel, esse reconhecimento traduz-se sobretudo em credibilidade junto de setores que demoram a adotar novas tecnologias.

«Ter alguém como o Prémio Earthshot, em que sabemos que foi feita a devida diligência, e poder dizer que temos o seu apoio e que confiam na nossa tecnologia abre mesmo muitas portas», afirma à Euronews Earth.

A nomeação para o prémio mudou a conversa com potenciais parceiros, afastando o cepticismo e aproximando-a da ambição: «O que é que podemos alcançar em conjunto? O que nos dizem os dados? De que forma é que esses dados podem alterar a maneira como operamos?»

Para o futuro, a ambição de Patel é levar a biodiversidade do terreno para o centro das finanças.

«Queremos que a natureza entre nos balanços», diz à Euronews Earth. «Queremos que organizações e empresas avaliem de facto o impacto que têm sobre a natureza e o integrem na forma como gerem os seus negócios e tomam decisões.»

Os dados, defende, já existem para tornar isso possível. O próximo desafio é convencer quem dirige as empresas a agir com base neles. «Queremos garantir à natureza um lugar na sala do conselho de administração.»

Outras fontes • The Earthshot Prize

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