Tecnologia de ADN ambiental transforma simples amostras de água e solo num mapa global da biodiversidade e ajuda a travar o declínio da vida selvagem
Mais de metade do PIB mundial depende da natureza, mas a vida selvagem está a desaparecer a um ritmo alarmante. As espécies de água doce são as mais afetadas, com uma diminuição de 85% das populações desde 1970.
As consequências vão muito além da ecologia: a degradação dos solos ameaça as cadeias de abastecimento agrícola e a perda de barreiras naturais às cheias deixa mais comunidades em risco.
O problema agrava-se porque é muito difícil medir o que se está a perder. Os levantamentos tradicionais de biodiversidade dependem de equipas de ecologistas especializados que passam semanas ou meses no terreno a identificar espécies pela vista ou pelo som. Os resultados chegam tarde, custam caro e muitas vezes não são consistentes.
«Se eu e tu fôssemos ao mesmo rio, não faríamos a mesma lista de espécies», diz à Euronews Earth Dimple Patel, CEO da empresa de monitorização da biodiversidade NatureMetrics. «Isto torna muito difícil reunir conjuntos de dados que as pessoas consigam conciliar e normalizar à escala global.»
Todas as espécies numa garrafa de água
A NatureMetrics baseia a sua abordagem no ADN ambiental, ou eDNA – o material genético libertado pelos organismos vivos para o meio envolvente através de células da pele, saliva e outros vestígios biológicos. Esse ADN permanece no ambiente durante dias ou semanas e basta uma simples amostra de água ou de solo para o recolher.
«Todos os organismos vivos libertam ADN para o ambiente», explica Patel à Euronews Earth. «A partir desse litro de água do rio conseguimos depois associar cada vestígio de ADN aos peixes, anfíbios, mamíferos e insetos de que provém.»
O processo de recolha foi deliberadamente simplificado. A NatureMetrics envia kits de amostragem para qualquer parte do mundo, sem necessidade de conhecimentos especializados. «Queríamos garantir que o processo de recolha de amostras era simples o suficiente para uma criança de cinco anos, por isso testámo-lo numa criança de cinco anos», conta Patel. «Ela obteve resultados excelentes.»
Quando o filtro chega de volta ao laboratório, a tecnologia de sequenciação de ADN – semelhante, em princípio, à utilizada na ciência forense – identifica todas as espécies presentes na amostra. O método é não invasivo: não há captura, não há redes, não há perturbação do ecossistema. «Demora uma fração do tempo, custa uma fração do preço e fornece um conjunto de dados incrivelmente rigoroso e rico», diz Patel à Euronews Earth.
Dados de biodiversidade ao serviço das indústrias
A empresa processa as amostras naquela que descreve como a maior rede comercial de laboratórios de eDNA do mundo, a operar em 116 países e a servir mais de 600 organizações. Este ano, a NatureMetrics atingiu um marco: já analisou ADN ambiental em 10% da superfície do planeta.
Os resultados alimentam uma plataforma que cartografa as espécies detetadas, acompanha ao longo do tempo o estado de saúde dos ecossistemas e compara locais, mostrando, por exemplo, se os trabalhos de recuperação numa floresta degradada estão a produzir melhorias mensuráveis.
«As pessoas passam a compreender os segredos escondidos desse ecossistema e podem direcionar de forma muito precisa a forma como o recuperam e apoiam», explica Patel.
A carteira de clientes da empresa vai de organizações de conservação, como a WWF, a indústrias de forte impacto, como a mineração e a energia, e inclui, cada vez mais, cadeias de abastecimento agrícola.
Patel destaca parcerias com grandes empresas de bens de consumo que procuram proteger as bactérias e os fungos do solo que sustentam a produção alimentar: «Como é que, a nível biológico, podemos ajudar a cuidar do solo que nos vai continuar a dar alimentos nos próximos 50 anos?», questiona.
«O objetivo», diz Patel à Euronews Earth, «é que os dados sobre biodiversidade estejam prontos para suportar decisões, para que empresas e organizações os possam usar para orientar o investimento, gerir operações e contabilizar o seu impacto na natureza. São camadas de dados que permitem estar a milhares de quilómetros de um local e, ainda assim, saber ao detalhe o que aí se passa e o que se pode fazer para o ajudar.»
«Queremos que a natureza entre nos balanços»
O trabalho da NatureMetrics foi reconhecido com a seleção para a final do Prémio Earthshot, o galardão ambiental criado pelo príncipe de Gales. Para Patel, esse reconhecimento traduz-se sobretudo em credibilidade junto de setores que demoram a adotar novas tecnologias.
«Ter alguém como o Prémio Earthshot, em que sabemos que foi feita a devida diligência, e poder dizer que temos o seu apoio e que confiam na nossa tecnologia abre mesmo muitas portas», afirma à Euronews Earth.
A nomeação para o prémio mudou a conversa com potenciais parceiros, afastando o cepticismo e aproximando-a da ambição: «O que é que podemos alcançar em conjunto? O que nos dizem os dados? De que forma é que esses dados podem alterar a maneira como operamos?»
Para o futuro, a ambição de Patel é levar a biodiversidade do terreno para o centro das finanças.
«Queremos que a natureza entre nos balanços», diz à Euronews Earth. «Queremos que organizações e empresas avaliem de facto o impacto que têm sobre a natureza e o integrem na forma como gerem os seus negócios e tomam decisões.»
Os dados, defende, já existem para tornar isso possível. O próximo desafio é convencer quem dirige as empresas a agir com base neles. «Queremos garantir à natureza um lugar na sala do conselho de administração.»