Mais um português, um cidadão do sexo masculino , está dado como desaparecido, juntando-se assim à cidadã portuguesa, também com paradeiro desconhecido. Pelo menos 162 pessoas morreram após as cheias que deixaram ainda cerca de mil desaparecidos.
Pelo menos 162 pessoas morreram no Nepal e outras três no Tibete depois de cheias repentinas de grande intensidade numa zona fronteiriça entre o Nepal e a China terem varrido várias comunidades na quarta-feira. Os média estatais chineses alertaram que até mil pessoas continuam desaparecidas no Nepal e no Tibete devido ao desastre.
A agência noticiosa oficial chinesa, Xinhua, indicou esta quinta-feira que derrocadas de lama no Tibete, provocadas pelo colapso de um glaciar, causaram três mortos e 558 desaparecidos, enquanto a televisão estatal CCTV adiantou que cerca de 260 das 558 pessoas desaparecidas no Tibete são estrangeiros e que dois habitantes foram resgatados.
Segundo as autoridades, pelo menos três pessoas tinham morrido até à manhã de quinta-feira.
Imagens de drone no Nepal mostravam estradas destruídas e edifícios soterrados por água trovejante da cor de cimento húmido.
Nepal e Tibete: estrangeiros entre os desaparecidos
“Quando cheguei ao bazar de Dhunge, meia hora depois a enxurrada veio e destruiu todo o mercado. As pessoas estavam a preparar-se para ir para o trabalho nessa altura”, disse o residente Shoyam Rajbhandari. “Quantas pessoas estão desaparecidas ou morreram, não sabemos.”
Entre os desaparecidos encontram-se dois cidadãos de nacionalidade portuguesa. Numa nota enviada à agência Lusa, o Ministério dos Negócios Estrangeiros confirmou "a existência um segundo cidadão nacional, desta vez do sexo masculino, dado como desaparecido no seguimento do desastre no Nepal". "Continuamos a acompanhar a situação ao minuto", indica a mesma nota.
Este cidadão junta-se à portuguesa ontem dada como desaparecida. A RTP, que cita fonte diplomática, informou que a morte da mulher foi confirmada pelo marido mas a informação não foi corroborada pelas autoridades portuguesas.
Responsáveis no Nepal tinham indicado anteriormente que 403 pessoas, incluindo 341 estrangeiros, estavam dadas como desaparecidas. Sunil Sharma, porta-voz do conselho de turismo, afirmou que 133 eram da Índia e encontravam-se em peregrinação ao monte Kailash, no Tibete, um local sagrado para os hindus. Também estão desaparecidos 47 cidadãos dos Estados Unidos, 34 da Austrália, 33 do Reino Unido e 24 do Canadá, disse. O Departamento de Estado norte-americano referiu estar ciente de cidadãos americanos afetados.
A ministra dos Negócios Estrangeiros da Austrália, Penny Wong, disse aos jornalistas esta quinta-feira que pelo menos 34 australianos em peregrinações e viagens de trekking estão desaparecidos.
“Percebemos que estes australianos integravam diferentes grupos de peregrinos e de turistas”, afirmou Wong em Adelaide, na Austrália.
O governo do Nepal ainda não tinha pedido ajuda, mas a Austrália está a coordenar com o Nepal, as Nações Unidas, a Cruz Vermelha e outras organizações uma resposta humanitária, acrescentou.
De acordo com o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Malásia, 55 malaios em Katmandu estão agora incontactáveis devido a sérias perturbações nas infraestruturas, o que levou o ministério a aumentar na quinta-feira o número de desaparecidos. A pasta afirmou que está a trabalhar de perto com as autoridades para determinar a segurança e a localização dos cidadãos malaios afetados, mas ainda não há confirmação oficial da sua presença.
O Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS) comunicou inicialmente um terramoto de magnitude 4,4, ocorrido na madrugada de quarta-feira, a cerca de 66 quilómetros (41 milhas) a norte de Katmandu, perto da fronteira. Mais tarde, o USGS atualizou a sua análise para indicar que o fenómeno sísmico registado correspondia, na realidade, ao colapso de um glaciar de magnitude 5,2, que fez descer detritos ao longo do curso de água com impacto catastrófico nas comunidades. A agência explicou que esta conclusão se baseia em dados de estações sísmicas próximas, ondas sísmicas de longo período e imagens de satélite, e que não ocorreu qualquer terramoto.
Avalanche de glaciar provoca desastre
Especialistas em clima do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas, sediado em Katmandu, afirmaram que uma avalanche de um glaciar terá estado na origem das cheias repentinas de quarta-feira.
“As observações hidrológicas indicam a velocidade excecional e a magnitude da onda de cheia”, referiram em comunicado enviado por correio eletrónico, assinalando que, num ponto do rio Trishuli, o nível da água subiu até 9 metros em apenas meia hora.
Acrescentaram que o rio Lhende Khola, afluente do Bhotekoshi, registou a cheia máxima.
“O Lhende Khola inundou duas vezes em 14 meses, desta vez devido a uma avalanche de blocos de gelo proveniente de um glaciar no lado nepalês, que bloqueou o rio e libertou uma vaga súbita a jusante”, explicou Saswata Sanyal, especialista em redução do risco de catástrofes no grupo de investigação climática.
A catástrofe no Tibete e no Nepal não é um caso isolado. Em apenas 14 meses, o sistema fluvial do Lhende Khola inundou duas vezes e, numa das áreas mais densamente povoadas do planeta, populações, infraestruturas e reservas de água estão em risco devido ao sistema glaciário dos Himalaias, cada vez mais instável.
Os vales íngremes da região são vias vitais para a economia e corredores de circulação, mas revelam-se frágeis quando ocorre uma catástrofe. As imagens mostravam o que pareciam ser segundos andares de edifícios no distrito nepalês de Nuwakot, um dos mais atingidos, cobertos de lama após a passagem da torrente. Havia detritos pendurados nos ramos das árvores e nos cabos, veículos soterrados e alguns sobreviventes em choque completamente cobertos de lama. As cheias interromperam deslocações em várias zonas.
A região registou cheias repentinas semelhantes em agosto do ano passado, quando um lago glaciário no Tibete transbordou devido às temperaturas elevadas.
Nove pessoas morreram e infraestruturas críticas, incluindo uma ponte que liga o Nepal à China, ficaram danificadas.