As autoridades em Tallinn querem evitar perder mesmo o mais pequeno pedaço de território em caso de ataque russo. A nova estratégia prevê combater o inimigo logo na fronteira.
A Estónia está a reformular o seu sistema de defesa e prepara-se para a eventualidade de um conflito entre a NATO e a Rússia.
Em vez de assentar numa retirada gradual das tropas e na expectativa da chegada de reforços aliados, Tallinn quer travar o inimigo logo na fronteira.
Ao mesmo tempo, o país está a desenvolver capacidades que lhe permitem atacar alvos muito para lá das linhas inimigas. Os detalhes da nova estratégia são descritos pelo jornal “Financial Times”.
Responsáveis militares e dos serviços de informações estónios explicam ao diário britânico que não esperam uma guerra em grande escala da Rússia contra a NATO pelo menos nos próximos dois anos, mas consideram que Moscovo se está a preparar para a possibilidade de um conflito futuro.
As autoridades de Tallinn admitem que Moscovo poderá, no futuro, tentar testar a forma como os países da Aliança reagiriam a uma operação limitada dirigida contra um dos membros da Aliança Atlântica.
Particularmente preocupante é o cenário de ocupação de uma pequena zona da Estónia.
Na avaliação dos militares estónios, a Rússia poderia, desse modo, criar uma situação em que os países da NATO teriam de decidir se recorrem a ações militares para recuperar o território perdido.
Nova estratégia de defesa
Em maio, o governo estónio incluiu na sua Conceção de Segurança Nacional o conceito de “defesa ativa”.
A lógica é simples: as forças devem ser posicionadas de forma a poderem enfrentar diretamente as unidades russas desde o início de um eventual conflito.
Um dos principais elementos desta mudança é a transferência da 1.ª Brigada de Infantaria de Tapa para Jõhvi.
A nova base situa-se a cerca de 50 quilómetros da fronteira com a Rússia.
Estão a ser construídas novas infraestruturas militares em Narva. A cidade fica mesmo junto à fronteira russa e tem importância particular uma vez que uma parte dos habitantes é russófona.
A nova base poderá acolher até mil militares. Cerca de 200 deverão permanecer ali em permanência e, em caso de crise, a instalação poderá receber mais 800 soldados.
“Temos de começar na fronteira e vencer logo nos primeiros combates”, afirmou ao “Financial Times” o coronel Tarmo Kundla, comandante da 1.ª Brigada de Infantaria.
Narva como potencial ponto de conflito
É precisamente Narva que surge nas análises dos serviços de informações estónios como um dos locais mais expostos a uma agressão russa.
Segundo especialistas, forças russas poderiam ocupar a cidade de forma semelhante à anexação da Crimeia, enviando unidades não identificadas, os chamados “homenzinhos verdes”.
A Rússia poderia também enviar abertamente tropas ao abrigo de uma lei de maio de 2026, que prevê a proteção dos seus cidadãos e de pessoas de língua russa no estrangeiro.
Esse documento aumenta drasticamente os poderes do presidente Vladimir Putin, conferindo-lhe legitimidade jurídica para usar forças armadas fora das fronteiras do país sob o pretexto de defender cidadãos russos.
De acordo com os cenários considerados pelos serviços estónios, ações limitadas em Narva poderiam ser usadas por Moscovo para testar a credibilidade da NATO.
Os militares reconhecem que responder a um ataque deste tipo seria um desafio sério para a Aliança.
Ucrânia altera cálculos estónios
A estratégia atual resulta em grande medida da experiência da guerra na Ucrânia.
Após a anexação russa da Crimeia, a Estónia desenvolveu uma estratégia segundo a qual, em caso de invasão, os seus militares deveriam conduzir uma defesa móvel, tirando partido do conhecimento do próprio território.
As forças deveriam operar em florestas e zonas alagadiças, dificultar o avanço do inimigo e infligir-lhe perdas até à chegada de contingentes mais numerosos da NATO.
A observação da guerra russa contra a Ucrânia levou, porém, a rever estes pressupostos.
Comandantes estónios concluíram que o exército russo está disposto a suportar perdas muito elevadas para atingir os seus objetivos.
Notaram também que as forças russas conseguem manter áreas conquistadas mesmo quando têm pouca relevância estratégica e quando os combates levam quase à destruição total da infraestrutura.
Para a Estónia, isto significa a necessidade de impedir a perda de território logo no início de qualquer conflito.
Mísseis podem atingir São Petersburgo
A mudança de abordagem reflete-se também nas aquisições militares. Este ano, o orçamento da defesa aumentou 42%, para 2,4 mil milhões de euros, o equivalente a 5,4% do PIB.
A Estónia encomendou nove sistemas norte-americanos HIMARS e nove lançadores sul-coreanos Chunmoo. O seu armamento pode atingir alvos a cerca de 300 quilómetros.
Trata-se de uma alteração significativa nas capacidades das forças armadas estónias.
São Petersburgo fica a cerca de 260 quilómetros da Estónia. Significa isso que, com os novos sistemas, Tallinn passa a ter capacidade de atacar alvos localizados bem no interior do território russo.
O país continua, no entanto, a dispor de um exército profissional relativamente pequeno: cerca de 4200 militares em serviço permanente.
Muito maior é o potencial representado pelos reservistas. A Estónia conta com cerca de 230 mil pessoas treinadas, das quais perto de 40 mil integram o sistema de elevada prontidão.
Reino Unido aumenta presença
Tallinn conta também com o apoio dos aliados. O Reino Unido anunciou o aumento do número de militares destacados na Estónia, de cerca de 800 para 1200.
O reforço estónio não significa que Tallinn espere uma ofensiva russa num futuro imediato. Segundo os serviços locais, a situação depende em grande parte da evolução da guerra na Ucrânia.
Enquanto as forças russas permanecerem empenhadas na frente ucraniana, a capacidade de Moscovo para desencadear outro grande conflito estará limitada.
O fim da guerra poderia, porém, levar ao regresso à Rússia de dezenas de milhares de militares com experiência de combate.
“Temíamos a guerra na Ucrânia e agora tememos que acabe”, afirmou em declarações ao “FT” um alto responsável dos serviços de informações estónios.
Tallinn procura assim aproveitar o momento para reforçar o exército, alterar a disposição das forças e criar capacidades para atuar tanto junto à fronteira como bem para lá dela.