Mais de 8 500 contas do X foram identificadas como suspeitas na véspera das eleições gerais na Suécia, nas quais a oposição de centro-esquerda conseguiu uma vantagem preliminar estreita.
À primeira vista, esta conta do X abaixo parece pertencer a uma mulher sueca chamada Ingrid Karlsson.
No entanto, segundo os investigadores, o perfil utiliza uma fotografia roubada, raramente publica conteúdo próprio e está, na verdade, registado pela plataforma de redes sociais como estando sediado no Benim, na África Ocidental.
Trata-se de uma das mais de 8 500 contas identificadas pela empresa de análise holandesa Trollrensics e pela organização sem fins lucrativos Alliance4Europe, em colaboração com a emissora sueca SVT.
Os investigadores afirmam que os perfis apresentam sinais de comportamento coordenado, incluindo identidades semelhantes, fotografias reutilizadas e padrões que se sobrepõem nas contas políticas suecas que seguem.
Em vez de terem origem na Suécia, estas contas estão registadas no X como estando sediadas na Nigéria, no Gana e em partes da Ásia.
Surgiram na véspera das eleições gerais da Suécia, realizadas no domingo. Os resultados preliminares da votação colocam o bloco da oposição, liderado pelos Social-Democratas da ex-primeira-ministra Magdalena Andersson, ligeiramente à frente da aliança de direita no poder.
Com 95% dos distritos apurados, previa-se que os partidos da oposição conquistassem 176 dos 349 assentos do parlamento, em comparação com 173 para o bloco liderado pelo atual líder Ulf Kristersson, do Partido Moderado, de centro-direita.
Os resultados continuam a ser provisórios, sendo que o resultado final é esperado uma semana após o dia das eleições, de acordo com a Autoridade Eleitoral sueca.
Como foram identificadas estas contas
O cofundador da Trollrensics, Robert van der Noordaa, explicou ao "Cubo", a equipa de verificação de factos da Euronews, que a empresa usa 26 indicadores para avaliar se um conjunto de perfis constitui uma rede coordenada.
Entre eles contam-se picos invulgares de criação de contas num determinado dia, fotografias roubadas e perfis que publicam em simultâneo mensagens idênticas.
As contas suecas estudadas publicavam em geral pouco ou nenhum conteúdo original. Em vez disso, seguiam um grande número de contas suecas genuínas envolvidas no debate político na reta final para as eleições.
Van der Noordaa afirmou que alguns perfis com milhares de seguidores pareciam obter até 30% da sua base de seguidores a partir de contas suspeitas registadas na Nigéria, no Benim e em partes da Ásia.
As contas seguiam pessoas de diferentes áreas do espectro político, com maior concentração em vozes da direita e perfis associados ao Partido Moderado.
Os investigadores sublinham que seguir em massa outros perfis pode inflacionar a popularidade de uma conta, bem como amplificar publicações através de gostos e republicações coordenados.
Quem está por detrás da rede
A Trollrensics afirma que contas com características semelhantes foram detetadas em eleições por toda a Europa, incluindo nos Países Baixos e na Hungria. Algumas chegaram a mudar de identidade ao passarem de um debate político nacional para outro.
“Têm um nome alemão, uma biografia em alemão e, a certa altura, são de certa forma reutilizadas”, afirmou van der Noordaa. “Encontrámos também contas na Suécia que seguem muitos suecos e que começaram por ser contas neerlandesas.”
Van der Noordaa acredita que estas contas fazem parte de uma operação comercial de "guns for hire" que pode ser acionada para diferentes clientes.
A maioria das pessoas contratadas para gerar estas contas de trolls é oriunda de África ou dos Estados Unidos, segundo van der Noordaa.
Darren Linvill, codiretor do Media Forensics Hub da Universidade de Clemson, analisou de forma independente uma amostra dessas contas. Disse ao The Cube que o seu comportamento parecia consistente com serviços pagos de amplificação, cada vez mais utilizados por atores políticos e ligados ao Estado.
Segundo Linvill, estas operações podem envolver pequenas empresas de marketing ou prestadores de serviços independentes que gerem contas e bots automatizados, cujos serviços são depois vendidos através de empresas maiores ou plataformas de comércio online.
Entre estes serviços contam-se seguidores pagos, comentários, gostos, republicações e bots automatizados.
“Estavam a fornecer seguidores às contas para que estas parecessem mais legítimas, parecessem ter uma participação maior na conversa”, referiu Linvill. “Dão a impressão de representar uma comunidade maior do que aquela que existe na realidade.”
De acordo com Linvill, esta atividade replica métodos de amplificação vistos em operações de influência russas, que também usam redes de contas descartáveis para promover conteúdos falsos.
Preocupações mais amplas com a segurança eleitoral
As conclusões surgem numa eleição realizada num contexto de maior preocupação com interferências externas.
As autoridades suecas afirmaram, antes da votação, que o país não era considerado um alvo prioritário para a influência russa. Ainda assim, alertaram que as eleições decorriam num quadro de segurança delicado e que atores hostis poderiam tentar aprofundar divisões existentes ou minar a confiança no processo eleitoral.
Foi detetada uma atividade pró-russa distinta antes da votação, com a Alliance4Europe a reportar que a operação de influência pró-russa conhecida como Matryoshka difundiu vídeos fabricados dirigidos à coligação no poder e a refugiados ucranianos.
Durante as eleições, circularam alegações não comprovadas de fraude eleitoral generalizada após um erro técnico ter afetado o registo de cerca de 500 eleitores antecipados. Outras publicações alegavam, de forma falsa, que um alto responsável da Autoridade Eleitoral tinha ligações aos Sociais-Democratas, e insinuavam igualmente, sem fundamento, que cidadãos suecos sem documento de identificação poderiam votar várias vezes.
A Agência de Defesa Psicológica da Suécia afirmou que as autoridades tinham feito uma preparação extensa para proteger o público da desinformação, da propaganda e de tentativas de manipulação do debate público.