A semana atribulada de Ed Sheeran continua: uma grande rádio irlandesa retirou as suas músicas, seguidores abandonam o Instagram e a ministra da Cultura britânica diz que o cantor foi colocado “numa situação impossível”.
Ed Sheeran tornou-se um alvo de polémica política numa controvérsia em crescendo que não dá sinais de abrandar.
A imagem, antes irrepreensível, do cantor britânico sofreu uma queda abrupta depois da expulsão de Macklemore da digressão pelos EUA, na sequência da oposição de várias salas ao apoio vincado do rapper à Palestina.
Após um comunicado de relações públicas muito infeliz – que terá prejudicado mais a marca Sheeran do que qualquer outra coisa – e depois de todos os artistas de abertura terem abandonado a digressão em solidariedade com Macklemore, Ed enfrenta uma vaga de críticas que mancha a sua reputação. Entre elas, apelos a boicotes e críticas de figuras de peso no mundo da música e fora dele.
Num longo texto publicado no Instagram no início da semana, Sheeran respondeu à polémica, afirmando que era “importante apresentar alguns factos”.
“Estou horrorizado com o conflito entre Israel e a Palestina. O sofrimento e a dor causados em ambos os lados são uma tragédia humana. Há demasiadas guerras no mundo a causar uma dor incalculável, nenhuma delas deveria ser tolerada”, escreveu, acrescentando que a decisão de afastar Macklemore foi “do promotor” e “não minha”.
Comentadores chamaram ao cantor “sem coluna vertebral” e “cobarde desprezível”; o antigo membro dos Pink Floyd Roger Waters classificou-o como “idiota”; e os Massive Attack lembraram Sheeran de que “a ‘neutralidade’ perante o massacre de mais de 20 000 crianças nunca pode ser neutralidade”.
Seguiu-se a congressista nova-iorquina Alexandria Ocasio-Cortez, que defendeu que a polémica era maior do que qualquer um dos artistas e a apresentou como exemplo de interesses poderosos que, alegadamente, conseguem silenciar músicos que se pronunciam sobre política. Ainda assim, admitiu ao site TMZ que mudaria de estação de rádio se uma canção de Sheeran começasse a tocar... E uma estação em particular já não será problema...
Uma das maiores redes de rádio comercial da Irlanda anunciou que vai retirar a música de Sheeran das suas listas de reprodução, poucas horas antes de o cantor voltar ao palco em Filadélfia, naquele que será o primeiro concerto desde que ficou sem “A Team”.
A estação Classic Hits Radio anunciou que deixará de passar temas de Sheeran, na sequência do feedback dos ouvintes.
“A nossa decisão de remover a música de Ed Sheeran da playlist da Classic Hits Radio foi cuidadosamente ponderada”, afirmou Dave Kelly, diretor de programação do grupo Bay Broadcasting, que detém a estação. “Não se trata de um juízo pessoal sobre Ed Sheeran e reconhecemos a sua própria explicação das circunstâncias em torno dos acontecimentos recentes.”
A estação afirmou ter tido igualmente em conta as decisões dos artistas irlandeses Aaron Rowe e Beoga, que se retiraram da digressão de Sheeran.
“Sendo uma estação de rádio independente, detida por interesses irlandeses, acreditamos, no entanto, que é importante ouvir o nosso público e ficar ao lado dos artistas irlandeses que tomaram, com base nas suas convicções, uma decisão profissional indiscutivelmente significativa”, afirmou Kelly.
“Em última análise, a nossa posição é simples. Acreditamos na paz, na humanidade e no respeito, e no direito das pessoas e dos artistas a exprimirem e a agirem de acordo com as suas convicções sinceras.”
Embora Sheeran tenha nascido e crescido em Inglaterra, mantém fortes ligações familiares à Irlanda através do pai e dos avós, e já falou publicamente sobre a sua herança irlandesa.
Antes disso, Rowe afirmou que Sheeran tinha sido seu amigo, “mas, como irlandeses, sabemos demasiado bem o que são genocídio, fome forçada e ocupação violenta”.
“Não posso ficar de braços cruzados e permitir que multimilionários usem a sua posição de poder para silenciar as vozes legítimas de quem se ergue contra o genocídio perpetrado por Israel e denuncia o assassinato bárbaro de crianças. Perderia todo o respeito por mim próprio se continuasse como se nada fosse.”
Os Beoga escreveram no Instagram que deixariam de fazer parte da banda de Sheeran “na sequência do silenciamento de Macklemore por lóbis sionistas”. Acrescentaram que, embora sejam amigos de Sheeran há mais de dez anos e o continuem a ser, “tocar em salas que silenciam quem defende a Palestina livre simplesmente não é uma opção para nós”.
Também o Israeli-American Council criticou Sheeran pela situação, afirmando à Jewish Telegraphic Agency que era “tempo de assumir a responsabilidade por dar palco a mensagens antissemitas”.
“Isto não é apenas ‘crítica a Israel’. É uma mensagem que ultrapassa a fronteira entre a crítica política legítima e o antissemitismo. Este é o palco de Ed Sheeran, é a digressão que leva o seu nome e, por isso, a responsabilidade pelo que aí acontece também é dele”, disse a organização à publicação.
Num comunicado separado, publicado no Facebook, o conselho elogiou ainda o proprietário dos New England Patriots, Robert Kraft, pelaquilo que descreveu como a sua “liderança moral ao expulsar o rapper Macklemore do palco em vez de lhe permitir promover o antissemitismo”.
Lisa Nandy, ministra da Cultura do Reino Unido, afirmou à rádio LBC, no início da semana, que tinha “enorme simpatia” por Sheeran e que o cantor tinha sido colocado numa “situação impossível”.
“Sinto mesmo por Ed Sheeran, em toda esta história”, disse. “Tem bandas de abertura a quem quer dar visibilidade e palco. E tem promotores a dizer-lhe que não o farão quando a política é levada para dentro do estádio.”
Entretanto, o efeito de arrastamento chegou também às contas de Sheeran nas redes sociais, com o número de seguidores no Instagram a cair em flecha.
Segundo a empresa de análise de redes sociais Social Blade, Sheeran perdeu 149 636 seguidores no Instagram no dia seguinte ao afastamento de Macklemore, enquanto o rapper ganhou 750 098 seguidores no mesmo período.
No espaço de três dias, Sheeran perdeu mais de 260 000 seguidores, enquanto Macklemore e os artistas que abandonaram a sua digressão ganharam, em conjunto, 1,638 milhões.
Sheeran tem atuação marcada para sábado no estádio Lincoln Financial Field, em Filadélfia, naquela que será a primeira vez que volta ao palco desde que a polémica se agravou. À hora de escrita deste artigo, não havia informação sobre se o cantor terá novos artistas de abertura ou se atuará sozinho.