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Rede de vídeos políticos alemã recorre a "especialistas" gerados por IA

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ARQUIVO - Ícone da aplicação ChatGPT visível no ecrã de um smartphone, a 4 de agosto de 2025, em Chicago.
ARQUIVO - Ícone da aplicação ChatGPT visível no ecrã de um smartphone, a 4 de agosto de 2025, em Chicago. -  Direitos de autor  AP Photo/Kiichiro Sato, Arquivo
Direitos de autor AP Photo/Kiichiro Sato, Arquivo
De Tamsin Paternoster
Publicado a •Últimas notícias
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Investigadores identificaram 47 canais no YouTube que recorrem a apresentadores artificiais para abordar conflitos, geopolítica e política alemã, com vídeos que somam mais de 7,5 milhões de visualizações.

À primeira vista, um apresentador num vídeo partilhado em contas das redes sociais em língua alemã parece ser um verdadeiro especialista em geopolítica, ao abordar a guerra no Irão e o papel da China no conflito.

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Noutro vídeo, um suposto especialista explica as mudanças na ordem global.

No entanto, estes apresentadores não são reais, mas sim gerados através de inteligência artificial. Aparecem numa série de canais do YouTube em língua alemã investigados pelo Centro de Monitorização, Análise e Estratégia (CeMAS), uma organização sem fins lucrativos.

Embora alguns apresentadores pareçam ser personagens inteiramente sintéticas, o CeMAS também documentou vídeos que utilizam "deepfakes" de pessoas reais. Uma jornalista revelou posteriormente à Euronews que um dos avatares se baseava na sua imagem, sem o seu conhecimento ou consentimento.

A organização identificou 47 canais que recorrem a apresentadores gerados por IA para abordar questões políticas e geopolíticas. Os investigadores conseguiram analisar 38 desses canais, registando 1.876 vídeos relevantes publicados entre dezembro de 2025 e agosto de 2026.

No conjunto, os canais somaram mais de 66.000 subscritores; os vídeos reuniram cerca de 7,55 milhões de visualizações e perto de 30.000 comentários, ainda que sejam fictícios.

Parte das conversas nas secções de comentários mostra que utilizadores reais se envolvem com estes conteúdos, e alguns acreditam que são autênticos.

“Há repetidamente pessoas a dizer: ‘Isto é IA, pessoal, não veem?’”, explicou Lea Frühwirth, investigadora sénior em desinformação no CeMAS, à equipa de verificação de factos da Euronews, o Cubo. “E depois há outros que respondem: ‘Não quero saber’.”

Rede coordenada?

Vários indícios sugerem que as contas fizeram parte de uma campanha concertada, segundo o CeMAS.

“Temos vários sinais de coordenação nesta atividade”, disse Frühwirth. “Há semelhanças nos temas de que falam, na forma como os apresentam, nas datas de criação das contas e no período, em meses, em que se concentra a maior parte da atividade.”

“Há contas que vão mudando de avatar ao longo do tempo”, acrescentou. “Há contas que mantêm o mesmo avatar, mas mudam a voz, e há avatares que surgem em vários canais.”

A política interna alemã foi tema em 795 dos vídeos analisados. Segundo o CeMAS, esses conteúdos retratam a Alemanha como um país em profunda crise política e económica e criticam o governo do chanceler Friedrich Merz.

Tudo isso coincidiu com eleições regionais e locais muito aguardadas na Alemanha, em que a Alternativa para a Alemanha (AfD) venceu no estado oriental de Saxónia‑Anhalt e prevê-se que vença por uma margem estreita no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Pelo contrário, a União Democrata‑Cristã (CDU) de Merz deverá ficar ligeiramente abaixo dos 5% necessários para manter representação no parlamento regional daquele estado. Já o Die Linke (A Esquerda) surgiu como força mais votada em Berlim.

Apesar desta coincidência temporal, “não esperaria que se tratasse de uma campanha dirigida especificamente às eleições”, afirmou Frühwirth. Ainda assim, acrescentou que as narrativas que atacam o governo federal continuam a ser relevantes no debate mais amplo em torno das votações.

Uma investigação separada da empresa de análise de redes sociais Graphika identificou um padrão semelhante, com apresentadores artificiais a comentar assuntos internacionais em inglês, francês, coreano, português e espanhol.

A Graphika não conseguiu identificar os operadores nem confirmar que todas as contas pertencem à mesma rede. Encontrou, porém, sinais de que provavelmente partilham formas de produzir conteúdos e de os amplificar.

O CeMAS considera que os canais em alemão podem integrar esse padrão mais amplo, embora ainda não tenha sido estabelecida uma ligação direta.

Mais difícil de identificar

Muitos dos vídeos no YouTube incluem uma nota a indicar que o conteúdo foi alterado ou gerado de forma sintética.

Segundo Frühwirth, essa indicação é discreta e não deixa claro se a IA foi usada apenas para um elemento do vídeo ou para gerar todo o apresentador.

“Não está pensada de forma a garantir que quem vê o vídeo fica informado de que se trata totalmente de um produto gerado por IA”, disse.

Numa análise mais atenta, os próprios vídeos revelam indícios de geração por IA. Os investigadores encontraram erros de tradução, vozes que mudam e miniaturas com um avatar diferente do que aparece no vídeo.

Mas estes sinais estão a tornar‑se cada vez mais difíceis de detetar.

“O problema do conteúdo gerado por IA é que melhora de minuto a minuto”, afirmou. “Se voltássemos a falar daqui a três meses, estaríamos a lidar com um nível de qualidade totalmente novo.”

O YouTube não respondeu de imediato a um pedido de comentário.

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