Esta terça-feira, Portugal acordou mais triste: morreu Jorge Palma aos 76 anos, vítima de paragem cardiorrespiratória. Morreu o artista, mas jamais morrerão as muitas canções que deixou. De Herman José a António Zambujo, a Euronews quis saber qual a favorita de cada um.
Jorge Palma, um dos cantores, autores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea, morreu esta segunda-feira aos 76 anos físicos, apesar de metaforicamente ter vivido mais de cem mil, como cantava em Encosta-te a mim, canção do álbum Voo Nocturno, de 2007. Para a história fica o videoclip em que Palma aparece rodeado pelos amigos de agora e de sempre. Palma pode ter-nos deixado, mas as suas canções farão parte da cultura e da alma portuguesas para sempre.
Em Estróina, faixa do seu último álbum, Vida (2023), canta assim: "seja lá quem for o meu cangalheiro, tenha atenção de me vestir a rigor". Não haverá melhor revestimento do que as muitas palavras de despedida que já lhe foram dedicadas e também as muitas que escreveu.
E, como continuava a cantar, "e já que a vida é pra ser vivida ao vivo e a cores, brindemos aos prazeres, sem falsos pudores". E é isso que faremos. A Euronews conversou com algumas pessoas próximas do cantor, da cultura portuguesa e admiradoras incondicionais do seu legado, para perceber o que fica depois da partida e que músicas jamais esquecerão.
Herman José - Ator e humorista
Para Herman José, que se cruzou diversas vezes, em diferentes ocasiões, com Jorge Palma, a sua partida "deixa um silêncio difícil de preencher".
Uma das memórias mais especiais que tem com o cantor remonta a 1974. "Fui seu músico, ao lado do grande Pedro Osório. É uma daquelas recordações que o tempo não apaga e que hoje regressa com uma força particular. Éramos todos muito mais novos, num Portugal também ele a começar uma vida nova, e já ali estava a extraordinária personalidade musical do Jorge — inquieta, livre, imprevisível, fascinante", destaca.
O humorista afirma que Jorge Palma era um "músico absolutamente singular", daqueles que "nunca precisaram de se parecer com ninguém para serem reconhecidos ao primeiro acorde, à primeira palavra, à primeira inflexão daquela voz".
De toda a obra que Jorge Palma deixa, Herman José escolhe Deixa-me Rir (de O Lado Errado da Noite, 1985) "talvez porque nela encontro muito do Jorge: a inteligência, a ironia, a desconfiança perante as certezas, uma certa melancolia escondida atrás do sorriso. E aquela capacidade rara de dizer coisas sérias sem nunca perder a irreverência", conclui.
António Zambujo - Cantor e compositor
Para o cantor bejense, escolher uma música de Jorge Palma é "injusto" porque "toda a obra é riquíssima". Contudo, aceitou o desafio da Euronews e nomeou a canção O Meu amor Existe, do álbum "voz e piano" Só, de 1991.
"Considero este disco o melhor da história da música portuguesa, e tudo o que pudesse dizer do Jorge Palma, nada seria suficiente dada a dimensão que eu considero que ele tem", disse.
Gabriel Gomes - Músico e Compositor
"Perdi um amigo, um herói", começa por nos dizer Gabriel Gomes, acordeonista ex-membro dos Madredeus e Sétima Legião. Para logo dizer que "ganhei muito com a presença dele na minha vida".
Ainda este ano, partilhou o palco com Jorge Palma e no Festival Artes à Vila, no Mosteiro da Batalha, apresentou o seu primeiro trabalho a solo.
"O vazio dói, mas a memória e a obra dele hão de preenchê-lo. Foi rápido, como ele merecia", remata.
Gabriel Gomes escolheu a canção Passos em Volta, do álbum Bairro do Amor, que tantas vezes tocaram juntos em palco e, tal como na letra, Jorge Palma “abriu a janela e voou”.
Tiago Cação - agente artístico
Com uma longa carreira na indústria da música, do espetáculo e do agenciamento artístico, confessou-nos que nunca quis conhecer Jorge Palma.
"Nunca quis conhecer o Jorge. Nunca quis aproximar-me dele. Sempre quis deixar o Jorge num lugar intangível onde figuram os grandes poetas, os grandes músicos, que sempre admirei. Na sexta-feira, o meu pai (muito mais novo do que o Jorge), que eu julgara não saber nada sobre música, disse: 'Não gostava de morrer sem ver um concerto do Jorge Palma. Porque artistas como o Jorge, nós pensamos sempre que não morrem. E não'", partilhou.
Para Tiago, a música que não esquecerá é Sonhadores inatos. "Identifico-me com a ideia simples de nunca deixar de sonhar, apesar das inevitabilidades que implica estar na vida.."
Fernando Vendrell - Realizador
O cineasta desabafou que hoje só é possível recordar Frágil (Bairro do Amor, 1989). "Esta noite estou tão frágil", parafraseia.
Realizador de filmes como "Aparição" ou "Sombras Brancas", Fernando Vendrell recorda Jorge Palma como "um extraordinário escritor de canções".
"A meu ver, são das canções mais perfeitas de Portugal. O seu olhar e escrita eram ágeis, as suas melodias graciosas e únicas. Traziam um mundo a que pertencíamos ou de que queríamos fazer parte", diz.
Ana Margarida de Carvalho - Jornalista e escritora
Quando recebeu a notícia da morte do cantor, veio-lhe à cabeça Na Terra dos Sonhos, pela melodia, por ser escrita por um "otimista cético".
Ana Margarida de Carvalho confessa conhecer todos os álbuns, músicas, versões acústicas e ao vivo, onde o "seu virtuosismo no piano, na viola ou na guitarra elétrica" se destacaram: "Tinha uma enorme versatilidade, uma voz poderosa que resistiu ao tempo", recorda, referindo-se aos muitos concertos a que assistiu. A voz de Jorge Palma também prevaleceu no seu dia a dia. "Está sempre na minha playlist do carro...", diz.
Das muitas músicas de Jorge Palma, a jornalista destaca também Portugal, Portugal, que considera "um hino", ou Estrela do Mar, com os acordes "que parecem ondas, ou o quarteto de cordas, em que faz uma homenagem ao quarteto de Alexandria, de Durrell".
Contudo, à Euronews disse escolher Eu Fui um Lobo Malvado (Acto Contínuo, 1982). "Com uma letra ingénua, mas que é, na minha perspetiva, uma canção que dá a volta a si mesma e torna-se a mais bela declaração de boas-vindas, uma canção sobre a amizade e a reconciliação, enfim, e sei-a de cor e os meus filhos também."
"Ainda não manejei nenhuma arma que não desse ricochete/ e a cicatriz sobrevive sempre à mais perfeita ligadura/ mas quando quiseres és bem-vinda ao meu castelo/ que talvez por ser velho e enrugado / não precisa de pintura", cita-a.
Luiz Carvalho - Fotógrafo
O autor da foto de capa deste artigo (que cedeu gentilmente para publicação) recorda o seu primeiro encontro com o cantor: "Conheço-te desde aquela tarde em 1980 em Paris, que te fotografei a cantar no Metro de Saint-Michel. Depois fomos tomar um copo, acho que era a Graça Lamy que também estava. O raio do negativo existe mas não o consigo encontrar. Adoro a tua obra e, sobretudo, a tua atitude de vida: livre, inconformado, educado, um músico com raízes eruditas ,por vezes demasiado louco para o corpo conseguir pagar. Gostaria de ter feito um documentário sobre ti, uma coisa viva, câmera ao ombro, som direto... continuarás sempre no meu coração e a ouvir-te, enquanto eu tiver estrada pela frente".
A canção escolhida é O Lado Errado da Noite, "uma melodia impactante, que tem muito a ver com parte do seu caminho".
Finalmente... as escolhas dos autores deste texto
Ana Filipa Palma: A Gente Vai Continuar não é apenas uma das suas melhores canções, é também uma das mais ouvidas hoje e, sobretudo, uma garantia de que a sua voz permanecerá "enquanto houver ventos e mar".
A homenagem a Palma, na última edição dos prémios Play, terminou com toda a plateia a cantar A Gente Vai Continuar.
Ricardo Figueira: Escolho Bairro do Amor porque é bom acreditar que existe um lugar feito a lápis de cor por gente que sofreu por não ter ninguém, um país onde não há prisões nem hospitais, onde o sol parece maior e há ondas de ternura em cada olhar. Mesmo se esse lugar só existe nas cantigas.