As receitas da Bending Spoons mais do que triplicaram em dois anos, ao comprar marcas como Evernote, WeTransfer e Vimeo. A Euronews Next analisa como cresceu tão depressa e se conseguirá manter o ritmo.
Numa altura em que a Europa procura formas de reter talento tecnológico e criar negócios globais, uma empresa italiana transformou‑se discretamente num dos maiores casos de sucesso tecnológico do continente.
Talvez o nome da empresa não lhe diga muito, mas é provável que já tenha usado um dos seus produtos.
Fundada em Milão em 2013, a Bending Spoons foi adquirindo, nos últimos anos, uma série de marcas digitais bem conhecidas, incluindo Evernote, WeTransfer, Vimeo e Eventbrite.
As suas receitas anuais subiram de 387 milhões de dólares (338 milhões de euros) em 2023 para 1,31 mil milhões de dólares (1,14 mil milhões de euros) em 2025.
Em julho, a empresa abriu o capital na bolsa Nasdaq, em Nova Iorque.
Como é que uma empresa de que muitos nunca ouviram falar passou a ser dona de tantas marcas familiares?
Como cresce a Bending Spoons tão depressa?
A maioria das empresas tecnológicas procura criar um produto de raiz e convencer as pessoas a usá‑lo. A Bending Spoons prefere reconfigurar um produto já estabelecido, com um nome reconhecido e clientes existentes, que acredita poder ter melhor desempenho sob nova gestão.
Depois de uma compra, pode reorganizar equipas, reescrever o software, redesenhar o produto e alterar o marketing ou os preços.
“Reinventamos a arquitetura da tecnologia, do produto e da própria organização, tudo pensado para acelerar a inovação, beneficiar os clientes e reforçar o desempenho do negócio”, disse à Euronews Next Nicolle Wasserman, responsável de People Operations na Bending Spoons.
A Bending Spoons continua a desenvolver os produtos que compra. Adquiriu, por exemplo, a aplicação de edição de vídeo Splice em 2018 e a aplicação de fotografia com IA Remini em 2021, às quais acrescentou novas funcionalidades.
A empresa refere (fonte em inglês) que dispõe de engenheiros de software e de ferramentas próprias para pagamentos, análise de dados e testes de produto, usadas em todas as empresas que adquire.
Despedimentos em larga escala têm também seguido, de forma repetida, as aquisições da Bending Spoons.
Depois de comprar a aplicação de notas Evernote no início de 2023, a empresa despediu, em julho, a maioria dos trabalhadores nos Estados Unidos e no Chile, ao transferir as operações para a Europa.
Em 2024, anunciou igualmente que planeava cortar cerca de 75% do efetivo no serviço de partilha de ficheiros WeTransfer, o que representa cerca de 260 dos seus 350 trabalhadores.
As subscrições são a principal fonte de receitas no portefólio da Bending Spoons, representando 84% do volume de negócios no primeiro trimestre de 2026, segundo documentos da empresa. Em março de 2026, os seus produtos chegavam a mais de 500 milhões de utilizadores ativos por mês.
Comprar mais empresas não é o mesmo que fazer crescer as que já fazem parte do grupo.
“O crescimento baseado em aquisições não deve ser confundido com crescimento orgânico”, afirmou Yoram Wijngaarde, fundador e diretor‑executivo da empresa global de dados sobre tecnologia Dealroom, à Euronews Next.
De acordo com uma análise (fonte em inglês) da Dealroom, as aquisições explicam a maior parte do forte aumento das receitas da Bending Spoons, embora os negócios já detidos anteriormente também tenham crescido.
Expansão na Europa
A Bending Spoons está também a reforçar as equipas por detrás dos seus produtos. Esta semana abriu um escritório em Varsóvia, que se junta à sede em Milão e aos escritórios em Londres e Madrid.
A empresa afirmou ter recebido, só este ano, 50 000 candidaturas de profissionais na Polónia e planeia recrutar localmente para trabalhar em todas as suas áreas de negócio.
A abertura em Varsóvia dá uma dimensão europeia mais concreta a uma empresa cujos produtos e clientes se espalham pelo mundo. Mas o significado mais amplo, sugeriu Wijngaarde, está no tipo de negócio que conseguiu construir a partir da Europa.
“A Europa pode ser compradora e gestora de empresas globais de software, e não apenas o local onde as empresas são criadas antes de serem adquiridas do estrangeiro”, afirmou. “A contribuição passa por know-how operacional e talento na Europa, não simplesmente por ativos comprados. Isto complementa, em vez de substituir, a criação de novas empresas.”
Isto não significa que outras empresas europeias consigam reproduzir estes resultados apenas comprando empresas de software.
“Outros podem seguir o exemplo, mas o capital, por si só, é insuficiente”, disse Wijngaarde. “A parte difícil é melhorar repetidamente os produtos e os indicadores económicos, mantendo os utilizadores durante mudanças profundas.”
Consegue continuar a crescer?
Manter a atual estratégia pode tornar‑se mais difícil à medida que a Bending Spoons compra empresas maiores e mais diversas.
Segundo Wijngaarde, a estratégia pode falhar se a Bending Spoons pagar demasiado pelas aquisições, assumir dívida em excesso ou comprar negócios para os quais esteja menos preparada.
“As poupanças de custos são finitas; em última análise, os clientes têm de continuar a considerar que os produtos valem o que pagam por eles”, afirmou.
A capacidade de continuar a crescer dependerá de os utilizadores acharem que vale a pena manter‑se nesses produtos depois das mudanças.
Preços mais altos ou menor acesso gratuito podem levá‑los a sair, embora Wijngaarde sublinhe que os efeitos têm de ser avaliados produto a produto.
Segundo o próprio, os cortes significativos de pessoal não significam necessariamente que os produtos deixem de melhorar. Os indicadores a observar, disse, são “a qualidade do produto, a utilidade das funcionalidades e a retenção, e não apenas o número de trabalhadores ou as margens”.