A Comissão Europeia afirmou que vai trabalhar com Washington para garantir que as novas tarifas sobre a energia russa anunciadas por Donald Trump causem o mínimo de perturbação possível.
A União Europeia enfrenta a perspetiva de uma nova pressão sobre os seus fornecimentos de gás natural liquefeito (GNL), já que as mais recentes sanções do presidente norte-americano Donald Trump contra a Rússia podem perturbar os fluxos de GNL de que o bloco ainda depende.
Trump assinou recentemente a Lei de Sanções Lindsey Graham, que lhe permite aplicar taxas aduaneiras de até 100% a países que continuem a comprar petróleo ou gás natural russos, em especial os acusados de ajudar Moscovo a contornar as sanções, com a China e a Índia à cabeça.
Embora a lei não preveja automaticamente taxas sobre a UE, a forma como será aplicada continua incerta e cria um novo risco para governos e empresas europeias ainda expostos ao gás russo.
As novas sanções de Trump, embora amplamente acolhidas na UE como instrumento para enfraquecer a máquina de guerra de Moscovo, surgem numa altura crítica. A União enfrenta dificuldades para repor as reservas em, pelo menos, 80% até novembro, segundo a plataforma de dados em tempo real Global Energy Flow, com os armazéns de gás para o inverno no nível mais baixo para esta altura do ano desde o início dos registos, em 2011. A forte concorrência de compradores asiáticos também está a deixar a Europa para trás.
Questionada sobre se a lei Lindsey Graham poderia prejudicar os parceiros europeus, a chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, afirmou que “não pensou” nisso e acrescentou que espera que não seja o caso. As declarações foram feitas à margem da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em 22 de setembro.
Entretanto, um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que a União tem “expectativas claras” de que a lei Graham “não venha a introduzir novas barreiras comerciais na relação bilateral UE-EUA”.
“Vamos dialogar com os Estados Unidos para garantir esse resultado”, disse o porta-voz da Comissão à Euronews, na quarta-feira.
Desde que os Estados Unidos e Israel bombardearam o Irão, em 28 de fevereiro, a escalada no Médio Oriente levou ao encerramento do estreito de Ormuz e a danos num oleoduto saudita vital, perturbando em última análise o trânsito de GNL.
Ao mesmo tempo, a UE está a afastar-se do GNL russo, embora as importações de gás de Moscovo tenham subido para 17%, depois de terem sido concedidas derrogações a países sem acesso ao mar e a Estados com contratos de longo prazo que receavam impugnações jurídicas por parte do gigante energético russo Gazprom. A proibição total das importações de GNL proveniente de Moscovo está prevista para 1 de janeiro de 2027.
Para agravar o sentimento de insegurança energética que paira sobre a UE, a decisão de Washington de punir os grandes compradores de energia russa com taxas até 100% pode criar atritos com países ainda expostos ao gás russo, como a França, Bélgica, Países Baixos e Espanha.
Ben McWilliams, investigador associado do think tank Bruegel, com sede em Bruxelas, considerou que as novas taxas de Trump “não deverão alterar muito” a situação, já que, depois da proibição de 2027, nenhum carregamento de GNL russo deverá entrar no bloco.
“Penso que a Rússia conseguirá encontrar mercados alternativos e não espero um impacto muito significativo no mercado. As empresas de serviços públicos e os negociantes tiveram bastante tempo para se preparar”, disse McWilliams à Euronews.
Além do GNL: serviços marítimos em risco
Mas, se Washington sancionar todos os navios-tanque que transportem GNL russo, as consequências podem ir para além das próprias embarcações, alerta a organização ambiental alemã sem fins lucrativos Urgewald.
“A nova lei norte-americana abrange navios estrangeiros considerados responsáveis por transportar deliberadamente GNL de origem russa, embora as designações não sejam automáticas e sejam admitidas isenções por interesse nacional”, lê-se no comunicado da Urgewald.
As novas sanções dos EUA, que serão revistas pelo Congresso em 18 de outubro, podem também visar o proprietário ou operador de um porto estrangeiro que permita a escala ou o acesso a serviços a um navio sancionado por Washington por apoiar a Rússia, incluindo portos europeus como o dinamarquês Odense Havn.
O estaleiro Fayard, um dos principais centros dinamarqueses de reparação naval, tem sido alvo de forte escrutínio e contestação política por prestar serviços a navios transportadores de GNL do Ártico ligados à Rússia.
O eurodeputado sueco Jonas Sjöstedt, do grupo da Esquerda, criticou a manutenção de um navio-tanque russo de GNL Arc7 que está atualmente a ser reparado no Fayard.
“Estas embarcações são um elemento crucial das exportações russas de GNL do Ártico, transportando gás no valor de milhares de milhões de euros. Isto tem de parar. As empresas europeias não podem continuar a manter viva a linha vital de combustíveis fósseis da Rússia. Cada reparação ajuda a sustentar a guerra ilegal de Putin contra a Ucrânia”, afirmou Sjöstedt.
Numa linha semelhante, a eurodeputada alemã Hannah Neumann, do grupo Verdes/Aliança Livre Europeia, apelou ao Fayard para que deixe de atuar como se nada se passasse.
“Ao colocar os interesses comerciais à frente da nossa responsabilidade coletiva de isolar a Rússia, o Fayard está a enfraquecer a pressão que tentamos construir”, afirmou.