Uma interrupção prolongada do abastecimento saudita pode obrigar refinarias europeias a procurar outros combustíveis, elevando custos ou reduzindo a produção. A falta de gasóleo encarece rapidamente transporte, agricultura, empresas e consumidores
Europa prepara-se para um possível choque no abastecimento de petróleo depois de a Arábia Saudita ter encerrado o seu oleoduto Este-Oeste, também conhecido como Petroline, na sequência de ataques com drones, no início do mês, por houthis e iraquianos apoiados pelo Irão.
O Ministério da Energia saudita anunciou uma suspensão preventiva a 10 de setembro, depois de ataques com drones contra o oleoduto nas regiões de Riade e Medina, no dia anterior.
Ataques neutralizaram uma das alternativas mais importantes do reino ao bloqueio do Estreito de Ormuz, via de passagem de 20% do petróleo e gás fornecidos ao mundo, desde que os Estados Unidos e Israel lançaram ataques militares contra o Irão, a 28 de fevereiro.
O oleoduto vinha recentemente a transportar cerca de 4 a 5 milhões de barris por dia, o equivalente a 4 a 5% da oferta mundial de petróleo, e a sua paralisação volta a evidenciar que a estratégia de diversificação energética da UE oferece apenas uma camada de segurança.
Arábia Saudita: o que aconteceu ao oleoduto de petróleo
Enquanto as conversações diplomáticas para pôr fim à guerra no Irão continuam bloqueadas, Teerão e os seus aliados regionais levam a cabo uma estratégia coordenada, visando as infraestruturas energéticas sauditas, na tentativa de bloquear totalmente as exportações de petróleo do reino pela sua frente oriental, através do mar Vermelho.
O ataque que paralisou o oleoduto Este-Oeste, de 1.200 quilómetros, interrompeu a rota que transporta crude dos campos petrolíferos orientais do reino até ao porto de Yanbu, no mar Vermelho, permitindo contornar o Estreito de Ormuz.
O oleoduto Este-Oeste da Arábia Saudita foi construído em 1981, após a Revolução Islâmica no Irão, para oferecer uma rota alternativa de exportação de crude que não passa pelo Estreito de Ormuz.
Ligando a região oriental produtora de petróleo ao porto de Yanbu, no mar Vermelho, permite que o petróleo saudita chegue aos mercados internacionais sem atravessar o ponto de estrangulamento de Ormuz.
Europa: quais são as implicações
Refinarias europeias foram obrigadas a repensar o seu abastecimento de crude desde que a Arábia Saudita começou a cancelar algumas cargas de petróleo a partir de Yanbu, após a paragem do oleoduto Este-Oeste do reino.
A agência de avaliação de preços de energia Argus informou, a 15 de setembro, que pelo menos três refinarias europeias tiveram carregamentos previstos para o final de setembro cancelados ou adiados, nalguns casos até novembro, citando fontes de mercado que não identificou.
A polaca Orlen, um dos maiores compradores, adquiriu 16 carregamentos adicionais provenientes da Noruega, Reino Unido, Argélia, Cazaquistão, Azerbaijão e das Américas, para manter as suas refinarias em funcionamento até outubro.
“Informamos que as entregas de petróleo à Polónia e às restantes refinarias do Grupo Orlen estão a ser realizadas de forma contínua e cobrem totalmente as necessidades”, lia-se num comunicado da refinadora energética polaca, publicado na rede X a 16 de setembro.
As refinarias são as instalações que transformam crude em gasóleo, gasolina, combustível de aviação e outros produtos utilizados em toda a economia. E não são máquinas intercambiáveis: cada refinaria está configurada para processar tipos específicos de crude.
Europa: por que precisa de petróleo saudita
A Europa depende em parte do crude saudita porque alguns tipos de petróleo do reino têm características que se adaptam à configuração das refinarias europeias, em especial a capacidade de processar crude médio e pesado, relativamente ácido.
Substituir esses barris é possível, mas encontrar tipos equivalentes em volumes suficientes pode ser caro e obrigar as refinarias a ajustarem as suas operações, um processo complexo numa altura em que o continente já enfrenta preços elevados da energia.
Sem petróleo saudita, as refinarias europeias podem ter de misturar vários tipos de crude para reproduzir as características dos barris sauditas que deixaram de receber.
“As refinarias europeias que dependem de crude árabe transportado pelo mar Vermelho têm de encontrar alternativas. Mas nem todos os crudes são iguais”, afirmou June Goh, analista sénior do mercado petrolífero na empresa de informação Sparta Commodities.
Preços do petróleo: por que vão voltar a subir
Os preços do petróleo são definidos nos mercados globais, pelo que perturbações no abastecimento podem repercutir-se nos preços muito para lá do país onde ocorrem.
Quando operadores e investidores antecipam um mercado mais apertado, sobretudo se a capacidade de reserva ou as existências forem limitadas, os preços podem subir mesmo antes de qualquer escassez física se materializar.
Antes dos danos no oleoduto saudita, este podia transportar vários milhões de barris por dia – cerca de 5,5 milhões – e tinha-se tornado particularmente importante com o Estreito de Ormuz praticamente bloqueado.
Agora, com analistas de energia a estimarem que entre 3,5 e 4 milhões de barris por dia estão em risco, essa lacuna levou a uma subida acentuada dos preços, com o Brent a negociar recentemente acima dos 113 dólares por barril, devido aos riscos crescentes para a oferta.
Vários países europeus procuram atenuar o impacto da subida do preço do gasóleo, já visível nas bombas de combustível, como consequência direta do encerramento do oleoduto saudita.
Crise energética: quão grave pode tornar-se
Tudo depende de se as infraestruturas energéticas se tornam ou não um novo alvo de ataques militares e da rapidez com que os sauditas conseguem repor o funcionamento normal do oleoduto.
Embora danos menores na infraestrutura já tenham sido reparados, a recuperação das estações de bombagem danificadas e da plena operação do oleoduto pode levar até seis semanas, segundo Homayoun Falakshahi, responsável pela análise de petróleo na empresa de inteligência de mercado Kpler.
Entretanto, como assinalou a Kpler a 14 de setembro, um oleoduto de desvio em torno da estação de bombagem danificada está a funcionar como solução temporária no curto prazo.
“As refinarias da costa oeste saudita reduziram o processamento e dependem cada vez mais das reservas, enquanto as exportações de Yanbu estão parcialmente perturbadas, incluindo os fluxos para norte”, indicou a Kpler.
A Kpler afirmou ter avaliado as reservas do terminal petrolífero de Yanbu em 9 mil barris de crude e as das outras refinarias da costa oeste em 16,5 mil barris.
“Pressupondo que não haja volumes adicionais transportados por oleoduto, estas reservas seriam suficientes para manter o ritmo atual de carregamentos e operações durante três e nove dias, respetivamente”, de acordo com a Kpler.
Entretanto, a Arábia Saudita afirmou, a 16 de setembro, esperar recuperar metade da capacidade do oleoduto nos próximos dias, o que levou os analistas a uma perspetiva mais positiva. Porém, as suas infraestruturas continuam sujeitas a possíveis novos ataques.
Se os danos no oleoduto não forem reparados em breve, a Europa poderá enfrentar preços mais elevados de crude e de combustíveis refinados, bem como nova pressão inflacionista.
Até que o oleoduto retome fluxos normais, o que seria um problema logístico regional pode transformar-se num estrangulamento para as refinarias europeias e em mais um teste à margem de manobra dos governos para proteger consumidores e indústria.