Líder houthi Abdul-Malik al-Houthi advertiu a Arábia Saudita horas antes de Riade anunciar uma nova coligação multinacional de defesa marítima, com 14 países, incluindo Paquistão, Turquia e Egito, a subscrever uma declaração fundadora para proteger o transporte no Mar Vermelho.
O líder houthi do Iémen, Abdul-Malik al-Houthi, ameaçou a Arábia Saudita com uma “escalada total”, poucas horas antes de Riade anunciar uma nova coligação de defesa marítima criada para travar a campanha crescente do grupo, apoiado pelo Irão, contra o transporte marítimo no Mar Vermelho.
“Os indicadores mostram que a parte saudita caminha para uma escalada total e nós responderemos à sua escalada total com uma escalada total”, afirmou al-Houthi num longo discurso televisivo esta quinta-feira.
O líder houthi advertiu ainda que os aviões vendidos pela Turquia à Arábia Saudita “se transformarão em material invendável assim que forem abatidos no Iémen”, lembrando que Riade já perdeu drones norte-americanos MQ-9 e aeronaves fornecidas pela China no conflito.
Al-Houthi acusou a Arábia Saudita de manter o Iémen num ciclo deliberado de crise económica e política, afirmando que aquilo que descreveu como “agressão EUA-Arábia Saudita” decorre desde que a coligação liderada pelos sauditas interveio na guerra, em 2015.
De acordo com al-Houthi, o período de desescalada surgiu apenas após “um claro fracasso saudita-americano” em quebrar a resistência iemenita.
Negou que o movimento, oficialmente conhecido como Ansar Allah, seja um intermediário do Irão ou de qualquer outra potência, afirmando que atua apenas em defesa da soberania e dos recursos iemenitas.
“O nosso povo não está em disputa com o regime saudita por nada que lhe pertença, mas sim pela nossa terra, pelos nossos recursos, pela nossa liberdade e pela nossa dignidade”, declarou.
Os houthis, que chegaram ao poder no final de 2014 depois de tomarem Sanaa e de ocuparem o palácio presidencial e posições militares chave, forçando o governo iemenita ao exílio, integram o chamado Eixo da Resistência de Teerão.
O Eixo é uma rede pouco estruturada de grupos armados em vários países da região, incluindo o Hezbollah no Líbano, o Hamas em Gaza e milícias no Iraque, apoiados, treinados e equipados, em diferentes graus, pela Guarda Revolucionária do Irão.
Arábia Saudita lança coligação marítima
A resposta da Arábia Saudita à campanha marítima dos Houthi ganhou forma institucional na quinta-feira, quando Riade acolheu representantes de 43 países, de um total de 51 convidados, e da UE para discutir a criação de uma nova Coligação Multinacional de Defesa Marítima.
E 14 países assinaram uma declaração fundadora, entre os quais o Paquistão, a Turquia, o Egito, a Jordânia e o Djibuti.
A coligação pretende proteger a liberdade de navegação e as rotas de abastecimento energético através do estreito de Bab al-Mandeb, do Mar Vermelho e do golfo de Aden.
A Arábia Saudita será o Estado fundador e líder e acolherá a sede permanente, o comando conjunto e o centro operacional da coligação.
O ministério da Defesa saudita afirmou que a porta permanece aberta a que outros países se juntem após concluírem os respetivos procedimentos nacionais.
A União Europeia, que já mantém no Mar Vermelho a missão naval de proteção Aspides, enviou uma delegação, mas não assinou o acordo. Não é ainda claro como a nova coligação liderada pela Arábia Saudita irá articular-se com a missão europeia já existente.
Bloqueio e ataque a navio-tanque
Os houthis anunciaram na semana passada um bloqueio naval contra a Arábia Saudita a partir de 20 de julho. Entretanto, o movimento reivindicou um ataque contra um navio-tanque saudita ao largo do porto de Jazan, na costa sul do reino no Mar Vermelho.
Desde então, Riade lançou ataques aéreos contra posições militares e infraestruturas houthi em Hodeida, o principal porto do Iémen no Mar Vermelho.
Quanto ao ataque com drone contra o terminal de GNL de propriedade norte-americana no porto egípcio de Damietta, na quarta-feira, os houthis negaram-no categoricamente.
A agência noticiosa Saba, ligada ao grupo, citou um responsável que afirmou que as notícias sobre o ataque eram “incorretas” e que as operações do movimento estavam “limitadas a atacar a Arábia Saudita em resposta ao cerco e à agressão contínua contra o povo iemenita”.
O governo egípcio confirmou na manhã de quinta-feira que as investigações preliminares concluíram que um drone provocou o incêndio. Nenhum grupo reivindicou a autoria.
O estreito de Bab al-Mandeb, que liga o sul do Mar Vermelho ao golfo de Aden e ao oceano Índico, concentra cerca de 12% do comércio marítimo mundial.
Os houthis perturbaram gravemente essa rota com a sua campanha contra navios ligados a Israel durante a guerra entre Israel e o Hamas em Gaza, alegando tratar-se de um gesto de apoio aos palestinianos.
Esta campanha em Bab al-Mandeb surge numa altura em que o estreito de Ormuz, outro ponto de estrangulamento crítico no Golfo, se mantém sob bloqueio, depois de a guerra entre os Estados Unidos e o Irão ter continuado na sequência do colapso do acordo interino entre as duas partes.