Terá terminado a era pós-Guerra Fria? Como mudam as relações dos Estados Unidos com a Europa e poderá a guerra na Ucrânia acabar no segundo mandato de Trump? Agata Todorow entrevistou Nick Adams, publicista e enviado especial de Donald Trump para o turismo, excecionalismo e valores americanos
A conversa teve lugar durante o XXXV Fórum Económico em Karpacz, Polónia, realizado em 2026 sob o lema “Arquitetura da nova ordem – estabilidade em tempos de mudança”, com Nick Adams como convidado especial.
O Embaixador Honorário apresentou uma visão bem definida do atual equilíbrio de poder no mundo. Sublinhou que o período após o fim da Guerra Fria não durou tanto tempo como habitualmente se supõe. Considera que terminou de facto entre 1991 e 2001. Depois, defendeu, o mundo entrou numa nova fase e encontra-se hoje num período de rivalidade estratégica entre os Estados Unidos e a China.
“Vemos duas potências”
Para Adams, a Rússia continua a ser um Estado importante e pode representar uma séria ameaça para os seus vizinhos, mas, na sua avaliação, não é um dos dois principais centros da rivalidade global.
“Em última análise, quando olhamos para o mundo, penso que na realidade vemos duas potências: os Estados Unidos e a China”, afirmou em entrevista à Euronews.
Como assinalou, existem também potências regionais capazes de influenciar acontecimentos e moldar a situação nas suas partes do mundo. Ainda assim, considera que isso não altera a característica fundamental do atual quadro geopolítico.
A sua análise insere-se num debate mais amplo sobre a mudança do equilíbrio global de poder, em que ganha peso a rivalidade entre Washington e Pequim. No caso da Europa, Adams aponta sobretudo para a necessidade de definir a posição própria face a um mundo em transformação.
Relações transatlânticas sensíveis
Um dos principais temas da conversa prendeu-se com as relações entre os Estados Unidos e a Europa. Adams discordou da ideia de que Donald Trump está a mudar de forma fundamental as relações transatlânticas. Na sua opinião, o presidente norte-americano evidencia sobretudo problemas que já existiam.
“Não creio que esteja a alterar de forma fundamental as relações com a Europa. Penso que está a sublinhar o que a Europa tem de fazer para se tornar um parceiro tão forte e tão bom para os Estados Unidos quanto possível”, afirmou.
Ao mesmo tempo, Adams insistiu na importância dos laços entre a América e a Europa. Descreveu europeus e norte-americanos como primos, apontando raízes e valores comuns. Na sua opinião, o futuro das relações transatlânticas depende também do caminho que os países europeus escolherem.
“Sou um otimista americano”, disse, acrescentando que acredita que as relações entre a Europa e os Estados Unidos podem evoluir numa direção positiva.
Nas suas intervenções, a Polónia ocupou um lugar de destaque. Adams descreveu o país como um Estado que, na sua opinião, se distingue dos restantes países europeus. Destacou a importância do patriotismo, da proteção das fronteiras e da preservação da identidade cultural.
“A Polónia é forte. A Polónia confia em si própria”, afirmou, acrescentando que, na sua opinião, a Europa pode inspirar-se na experiência polaca.
Adams defendeu também que uma Europa forte é do interesse dos Estados Unidos. “Uma Europa forte é algo muito positivo para o mundo e muito positivo para os Estados Unidos”, disse.
A sua avaliação das relações transatlânticas está, no entanto, estreitamente ligada à sua visão mais ampla do Ocidente. Adams considera que a Europa enfrenta um conjunto de questões fundamentais sobre o futuro das suas sociedades, a segurança das fronteiras, a migração e a proteção da cultura e da identidade.
Na conversa, referiu-se também à situação migratória na Europa. Ao falar de Ceuta, descreveu o que aí se observa como muito inquietante. Ao mesmo tempo, sublinhou que cada Estado tem o direito de proteger as suas fronteiras, a sua língua, as suas tradições e a sua cultura.
“O presidente Trump acredita, mais do que qualquer outra pessoa, que cada país é soberano, que cada país tem fronteiras, que cada país tem uma cultura”, afirmou o enviado especial de Donald Trump.
Ucrânia: “Estou convencido de que esta guerra vai terminar”
Na conversa não faltou também o tema da guerra na Ucrânia – um assunto particularmente importante para a Polónia, que faz fronteira com a Ucrânia e, desde o início da invasão russa em grande escala, se encontra no centro do debate europeu sobre segurança.
Adams sublinhou que, durante a campanha presidencial de 2024, Donald Trump prometeu pôr fim à guerra. Ele próprio manifestou a convicção de que o conflito terminará antes do fim do mandato atual de Trump.
“Estou muito convencido de que, antes de deixar o cargo, a guerra terá acabado”, afirmou.
Adams descreveu Trump como “presidente da paz” e defendeu que quer o fim do conflito. Ao mesmo tempo, apelou para a paciência, mencionando as ações em curso da administração norte-americana.
“Sei que está a fazer tudo o que pode para pôr fim a esta guerra”, disse.
O Embaixador Honorário não apresentou, na conversa, qualquer calendário concreto nem detalhes de um eventual acordo.
Estados Unidos–Polónia: “Amamos os polacos” e o papel do turismo
A questão da segurança levou também às relações polaco-americanas. Adams sublinhou que, na sua opinião, os laços entre os dois países são especialmente fortes. Descreveu a Polónia como “grande amiga dos Estados Unidos” e os polacos como uma sociedade particularmente próxima da América.
“Amamos os polacos. Os polacos são os cidadãos mais pró-americanos de toda a Europa”, afirmou.
Ao mesmo tempo, chamou a atenção para o papel do turismo na construção das relações entre sociedades. A promoção dos Estados Unidos como destino turístico é um dos principais elementos das suas atuais funções. Trump nomeou Adams, em março de 2026, para o cargo de enviado especial para o turismo, a excecionalidade americana e os valores.
Durante a conversa com a Euronews, Adams incentivou os polacos a visitarem os Estados Unidos.
“Convido todos os polacos a visitar os Estados Unidos da América”, afirmou.
Adams recordou também a sua primeira visita à Polónia. Disse que nessa viagem experimentou pratos polacos e anunciou que quer regressar ao país. Salientou ainda a importância da grande comunidade polaco-americana, em particular em Chicago.
Na sua opinião, os contactos diretos entre pessoas podem reforçar as relações entre Estados. Um tema semelhante surgiu igualmente no discurso de Adams durante o Fórum Económico em Karpacz, onde falou do turismo como instrumento de construção de laços internacionais e de conhecimento mútuo entre sociedades.