Reforça-se atenção italiana à presença militar russa na Líbia: Tobruk e bases de Moscovo no flanco sul do Mediterrâneo sob maior vigilância
Há muito que o flanco oriental da NATO está sob os holofotes devido à presença e às atividades militares russas. Mas, para Itália, há outra frente a acompanhar, muito mais próxima: a meridional, com a Líbia em primeiro plano. A coluna naval russa chegada a Tobruk, no leste do país, depois de atravessar o Mediterrâneo central, reacende a atenção sobre a atividade de Moscovo a poucas centenas de quilómetros das costas italianas.
Segundo imagens de satélite (fonte em italiano) analisadas por grupos de inteligência de fonte aberta, as unidades, seguidas durante a travessia pelas forças italianas, transportariam meios blindados e viaturas logísticas.
A rota desta coluna naval acrescenta assim mais um elemento à crescente atenção de Roma às atividades militares russas no Mediterrâneo e, sobretudo, ao reforço da presença de Moscovo na Líbia, um país estratégico para Itália em matéria de segurança, energia e fluxos migratórios.
A passagem da coluna ocorreu precisamente nos dias em que o chefe do Estado-Maior da Defesa, general Luciano Portolano, esteve em Tripoli (fonte em italiano) para discutir com a hierarquia militar líbia o reforço da cooperação entre os dois países.
Navios russos seguidos por Itália no Mediterrâneo
O grupo chegado a Tobruk era composto por três unidades: os cargueiros Anastasiia e Yuriy Arshenevskiy, e o navio de desembarque Aleksandr Shabalin, da classe Ropucha.
Em 10 de setembro, a coluna foi identificada no Mediterrâneo central por um P-72A da Aeronáutica militar italiana, aeronave de patrulhamento marítimo concebida precisamente para detetar, classificar e seguir contactos navais.
Os três navios tinham, além disso, deixado de transmitir publicamente os dados do sistema AIS, utilizado pelas embarcações para comunicar identidade, posição, velocidade e direção.
O destino permaneceu incerto até às imagens de satélite de 13 de setembro. As imagens Sentinel-2 mostraram o Anastasiia dentro do porto de Tobruk, o Yuriy Arshenevskiy à entrada e o Aleksandr Shabalin mais ao largo.
Em 14 de setembro, um Bombardier Challenger 650 Artemis II utilizado pelos Estados Unidos em missões de informação, vigilância e reconhecimento sobrevoou durante longo tempo o troço de mar em frente a Tobruk, realizando várias passagens na área. A aeronave, identificável pelo indicativo de rádio “BRIO66” e pela matrícula N159L, partira da Roménia e voltou depois a dirigir-se para Constança.
Meios blindados enviados para Tobruk
Como explicou a agência Nova (fonte em italiano), a natureza da carga foi reconstituída através de imagens de satélite anteriores, captadas em 13 de agosto na base naval russa de Baltiysk, na região de Kaliningrad.
As imagens mostram camiões logísticos Ural no convés do Anastasiia e vários meios blindados nas proximidades do Yuriy Arshenevskiy. Os analistas identificaram-nos como APC, “Armoured Personnel Carrier”, veículos blindados para transporte de tropas, e MRAP, “Mine-Resistant Ambush Protected”, meios concebidos para resistir a minas e proteger os ocupantes de emboscadas.
Não há, porém, comunicações oficiais russas ou líbias sobre o conteúdo da expedição, nem sobre o seu destino final após Tobruk. O porto situa-se na parte oriental da Líbia, sob controlo das forças do general Khalifa Haftar.
A chegada da colunaconfirma, de qualquer modo, que Tobruk se tornou um ponto importante para a logística militar russa. Já em abril de 2024, navios russos tinham descarregado no porto peças de artilharia, veículos blindados, camiões e sistemas de lançamento de foguetões.
Rússia reforça bases militares na Líbia
O ponto que mais interessa a Itália vai, porém, para além desta carga específica.
A Rússia tem reforçado progressivamente a sua presença militar na Líbia oriental e meridional através do Afrikanskij Korpus, o Africa Corps russo, estrutura colocada sob controlo do ministério da Defesa russo que reuniu parte das atividades anteriormente associadas ao grupo Wagner.
Segundo análises baseadas em imagens de satélite, a presença russa abrange pelo menos seis bases aéreas líbias: al-Khadim, al-Jufra, al-Qardabiya, Tamanhint, Brak al-Shati e Maaten al-Sarra. Em várias instalações foram observados trabalhos de ampliação de pistas, hangares, áreas de apoio e alojamentos.
A posição da Líbia torna esta rede particularmente relevante. As bases permitem a Moscovo manter um ponto de apoio no Mediterrâneo e, ao mesmo tempo, sustentar as atividades no Sahel e noutras zonas de África.
Tobruk acrescenta a esta rede uma importante saída para o Mediterrâneo. E a sua localização torna a questão particularmente sensível para Itália.
Líbia: por que é tão importante para Itália
A distância geográfica é apenas uma parte da história. Itália e Líbia mantêm relações económicas, energéticas e de segurança consolidadas e Roma considera a estabilidade do país norte-africano diretamente ligada aos seus interesses nacionais.
O próprio Portolano sublinhou-o durante a visita a Tripoli de 10 de setembro. “A Líbia continua a ser um país crucial para a proteção dos interesses vitais e estratégicos de Itália”, afirmou o chefe do Estado-Maior da Defesa, apontando entre as prioridades o combate ao terrorismo, aos tráficos ilícitos e à imigração irregular.
Portolano referiu ainda a proteção das infraestruturas energéticas e a continuidade dos fornecimentos de gás e petróleo provenientes da Líbia como objetivos estratégicos para a segurança energética italiana. No mesmo encontro, Itália e Líbia acordaram reforçar a cooperação militar, desde a formação ao treino, incluindo o setor cibernético e as Forças especiais.
Itália está também presente no país com a missão bilateral MIASIT, dedicada à assistência e à formação das forças líbias, e participa na operação europeia EUNAVFOR MED IRINI, centrada sobretudo no controlo do embargo de armas das Nações Unidas imposto à Líbia.
É neste quadro que a presença russa ganha um significado particular para Roma: não porque os navios russos constituam, por si só, uma ameaça direta ao território italiano, mas porque Moscovo está a consolidar uma rede militar na vertente meridional do Mediterrâneo, precisamente num país que Itália considera um interesse estratégico.
Líbia e Síria: Moscovo procura novas rotas no Mediterrâneo
O reforço da presença russa na Líbia deve também ser lido à luz da situação na Síria.
Outra coluna russa, composta por quatro navios, chegou no início de setembro ao porto sírio de Tartus, onde Moscovo mantém uma presença militar no âmbito do novo acordo com Damasco. A agência Reuters confirmou a chegada dos navios em 7 de setembro e o subsequente descarregamento de abastecimentos.
A Líbia pode, assim, assumir uma importância crescente na rede logística russa no Mediterrâneo, sobretudo numa altura em que Moscovo reorganiza a sua presença após a queda do regime de Bashar al-Assad.
Para Itália, isto significa manter sob observação não apenas o tráfego de navios russos em frente às suas costas, mas também o que acontece na margem sul do Mediterrâneo.
A Marinha militar italiana já descreveu o controlo das unidades russas e dos navios da chamada frota sombra como parte das atividades de vigilância no Mediterrâneo. E, nos últimos meses, o chefe do Estado-Maior da Marinha, almirante Giuseppe Berutti Bergotto, explicou que os navios e submarinos russos presentes no Mediterrâneo são monitorizados. “Sabemos onde estão e, em geral, o que fazem. O Mediterrâneo está dividido em áreas de competência da NATO. Todos os navios russos e todos os submarinos russos que se encontram no Mediterrâneo são controlados”, declarou Berutti Bergotto ao Corriere della Sera em janeiro de 2026.
A coluna que chegou a Tobruk torna assim mais concreto um elemento que Roma tem há muito no radar: a competição estratégica no Mediterrâneo não se desenrola apenas a norte e a leste, mas também a poucas centenas de quilómetros das costas italianas.