O que é, afinal, o grupo Wagner?

Grupo é liderado por Yevgeny Prigozhin
Grupo é liderado por Yevgeny Prigozhin Direitos de autor AP/PRIGOZHIN PRESS SERVICE
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Qual a origem do grupo paramilitar e as reais capacidades do mesmo?

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“Trata-se de um grupo de mercenários criminosos - assim se chama objetivamente - que é o seguro de vida dos regimes falhados ou golpistas, cujo papel e finalidade é proteger esses regimes.”

Foi desta forma que o presidente francês, Emmanuel Macron, respondeu quando lhe fizeram uma pergunta sobre o grupo paramilitar Wagner, durante uma conferência de imprensa em fevereiro.

"O Sr. Prigozhin, que está a liderar o grupo, é, na minha opinião, um criminoso de guerra", acrescentou Merrick Garland, procurador-geral dos EUA num Comité Judiciário do Senado a 1 de março. “Talvez seja inapropriado para mim dizer isto como juiz antes de ter todas as evidências, mas penso que neste momento temos provas mais do que suficientes para que possa emitir essa opinião."

Mas o que é, afinal, o grupo Wagner, quem está por detrás e qual é a relação com o Kremlin? A Euronews colocou estas perguntas a Samuel Ramani, investigador do Royal United Services Institute (RUSI).

Mais de 80% dos membros do grupo foram condenados

Fundado na Rússia em 2013, o grupo Wagner é, alegadamente, uma empresa militar privada, "mas na realidade é uma extensão, de facto, dos órgãos e aparelhos de segurança russos, em particular da principal diretoria de inteligência", diz Ramani.

Mais de 80% dos membros do grupo são pessoas que foram condenadas, recrutadas em prisões, e o resto são mercenários. Os especialistas da ONU denunciam o uso de táticas de pressão pelos recrutadores do grupo paramilitar.

"O centro de treino fica muito próximo da base do GRU (serviço de inteligência militar russo)", refere Samuel Ramani. "Isso é muito interessante, porque talvez mostre as ligações entre os serviços de inteligência da Rússia e o grupo Wagner."

"Uma extensão, de facto, dos órgãos e aparelhos de segurança russos"

Os soldados do grupo Wagner estão posicionados em várias regiões e países onde há interesses da Rússia.

"Começando no Donbas, passando pela Síria e Líbia", lista Ramani, a par “de muitas zonas de conflito na África subsaariana como Moçambique, o Mali e a República Centro Africana."

A primeira vez que a intervenção do grupo veio à tona foi na Crimeia.

Os EUA estimam que conte com cerca de 50 mil soldados a combater na Ucrânia.

"Mas as pesadas baixas em Bahkmut, bem como a escassez de recrutamento de prisioneiros e o sucesso incerto de outros esforços de recrutamento provavelmente diminuíram o número", estima Samuel Ramani.

Após anos de negação, Yevgeny Prigozhin admitiu estar por detrás do grupo e parece estar a participar ativamente, como se pode ver em vídeos dos combates na Ucrânia.

O líder do grupo Wagner: da prisão ao Kremlin

Prigozhin é um oligarca de São Petersburgo com uma história de sucesso invulgar.

Na década de 1980, foi preso numa cadeia soviética após ser detido por assalto à mão armada. Na década de 1990, era responsável pelo serviço de catering do Kremlin. Como chegou a esse cargo é outra reviravolta improvável na história.

Após sair da prisão, começou a trabalhar com o padrasto como vendedor ambulante de “cachorros-quentes”, um negócio que transformou em serviço de catering e em São Petersburgo, e num restaurante chamado New Island que passou a ser frequentado pelas elites da cidade, incluindo o presidente russo Vladimir Putin, na altura o braço direito do autarca da cidade.

Hoje, o homem conhecido como o "chef de Putin" é dono de empresas nos setores do audiovisual, mineração, consultoria e militar. Uma ascensão meteórica.

Ramani diz que o poder está "inextricavelmente ligado ao seu longo relacionamento com Vladimir Putin. Prigozhin controla ativos de mineração em África que são bastante lucrativos - ouro e diamantes - mas ele não controla o tipo de empresas estatais formalmente reconhecidas que a maioria dos outros oligarcas têm."

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Inimigos em altos círculos militares

Mas nem tudo são rosas para Prigozhin. Soma inimigos entre os altos escalões militares da Rússia, como Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior das Forças Armadas russas e arquiteto da guerra na Ucrânia.

"Prigozhin gosta de afirmar que dirige com muita eficácia um exército dentro de um exército. Tem caças, tem defesas contra mísseis, tem munições e vários tipos de artilharia", ressalta Samuel Ramani. "Mas, na verdade, está cada vez mais dependente do fornecimento externo."

Acrescenta: “por isso, não acho que Prigozhin tenha muito destaque em termos de estratégia de linha de frente na tomada de decisões fora do contexto de Donetsk."

Depois, há a questão do financiamento. O Pentágono estima que Prigozhin gasta 100 milhões de dólares (cerca de 90 milhões de euros) por mês na manutenção da força mercenária.

Um segredo aberto na Rússia

Até ao ano passado, grande parte da sociedade russa tinha ouvido falar muito pouco sobre o grupo paramilitar. Ramani explica que isso se deve, em parte, à censura nos meios de comunicação do país. Mas a situação está a mudar.

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“Penso que entre os firmes defensores da guerra, a opinião deles é que uma organização patriótica e revoluções ou qualquer cruzada contra os oligarcas é vista de maneira bastante favorável porque os oligarcas são muito impopulares entre a grande maioria da população", observa Ramani.

Os soldados do grupo Wagner foram acusados de crimes de guerra, como tortura ou violação, nas áreas onde se implantaram.

"Mas aqueles que escolhem viver na Rússia e permanecer no país permanentemente provavelmente não serão facilmente processados a nível individual porque a Rússia não faz parte do Tribunal Penal Internacional (TPI)", ressalva Ramani, "e tem uma política de não extraditar os seus cidadãos para esses órgãos internacionais ou para tribunais ucranianos ou ocidentais".

Embora Putin não apoie oficialmente o grupo de Wagner, a Duma (câmara baixa do parlamento) aprovou, recentemente, um projeto de lei para penalizar, com até 15 anos de prisão, qualquer pessoa que "desacredite" grupos de voluntários que lutam na Ucrânia.

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