Lula da Silva e Flávio Bolsonaro voltam a enfrentar-se na corrida à presidência em 25 de outubro, mas há uma “promessa” que já começou a ganhar forma neste domingo: a eleição de um Congresso com maioria conservadora favorável a conceder uma amnistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro.
A primeira volta das eleições brasileiras não decidiu o próximo presidente do Brasil, mas o dia foi de glória para o clã Bolsonaro, que reivindicou vitória nas disputas em que participou.
Oito membros com o nome Bolsonaro concorreram a estas eleições. Quatro foram diretamente eleitos para o Congresso, um avançou para a segunda volta das presidenciais e outros três não conseguiram mandato direto, mas ficaram como suplentes no Senado.
Flávio Bolsonaro foi o escolhido pelo pai para dar continuidade ao projeto político da família, depois de Jair Bolsonaro ter sido condenado por conspirar para um golpe de Estado e impedido de se candidatar a cargos públicos até 2030.
Aos 45 anos, o senador Flávio Bolsonaro (47%) não obteve maioria para ocupar a cadeira do Planalto à primeira, mas superou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (45%), ao contrário de todas as sondagens. A vantagem é mínima (2%), mas, segundo a superstição de 1989, quem fica em primeiro lugar na primeira volta vence na segunda.
Se o senador vai ter de esperar pelo 25 de outubro, os outros membros do clã Bolsonaro já têm motivos para celebrar depois de terem alcançado a eleição para o Congresso e Senado.
A esposa de Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro, que os analistas apontam como presidenciável em 2030, obteve mais votos do que qualquer outro candidato na sua senda ao Senado pelo Distrito Federal da capital, em Brasília. Michelle tem 44 anos e reúne uma enorme avalanche de seguidores.
O segundo filho do ex-presidente, Carlos Bolsonaro, de 43 anos, transferiu a sua morada fiscal do Rio de Janeiro para São José, em Santa Catarina, para se candidatar ao Senado. O “forasteiro”, como ficou conhecido, foi o segundo candidato mais votado com 2.041.840 votos (25,35%). No mesmo estado em que o seu irmão, Eduardo Bolsonaro (terceiro filho do ex-presidente), de 42 anos, renunciou quando se mudou para os Estados Unidos no ano passado.
Já Jair Renan, de 28 anos, o mais novo da família Bolsonaro, também foi eleito deputado federal no mesmo estado. E o irmão de Jair Bolsonaro, Renato, de 62 anos, também foi eleito deputado federal por São Paulo.
Dos não eleitos, mas pertencentes à dinastia bolsonarista, está a ex-mulher do antigo presidente, Rogéria Nantes Bolsonaro, que fica como suplente a deputada federal do Rio de Janeiro. Valéria Bolsonaro, irmã do ex-líder, também fica como suplente não eleita, mas por São Paulo. E, por último, Marcelo Bolsonaro, outro irmão de Jair, também pelo ciclo de São Paulo, mas não eleito, fica de fora das vagas e da suplência imediata.
"O fim da era do Partido dos Trabalhadores de Lula", declarou Bolsonaro
Embalado pelo triunfo alcançado na primeira volta, Flávio Bolsonaro apressou-se a afirmar que os resultados significam o "fim da era do Partido dos Trabalhadores de Lula", colocando, assim, este país gigante sul-americano na trajetória das políticas da Administração Trump.
A América Latina está novamente a virar à direita mais radical, e o clã Bolsonaro está a aproveitar esta onda ao tornar o Partido Liberal a maior força no Senado, que, apesar de não ter maioria absoluta, ganhou 19 dos 54 lugares em disputa, perfazendo um total de 28 lugares em 81 para o próximo mandato de oito anos. O partido também terá a maior representação na Câmara dos Deputados (121 de 513 lugares) no mandato de quatro anos.
Ou seja, tanto os Bolsonaros como o seu Partido Liberal ganham aqui uma plataforma parlamentar relevante para avancar com um processo de amnistia ao ex-presidente e um impeachment ao juiz do Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou Jair Bolsonaro, Alexandre de Moraes, e que fica mais evidente após a declaração de Flávio no domingo quando afirmou que se for presidente, terá a possibilidade de nomear quatro juízes para o STF que condenou o seu pai e assim descartar a avaliação do STF que em novembro de 2025 considerou que "crime contra democracia não pode ser perdoado".
Contudo, caso Flávio Bolsonaro se torne presidente da República, poderá contar com dois senadores e dois deputados federais da família na tentativa de cumprir a promessa de campanha feita ao pai, que cumpre pena de prisão domiciliar de 27 anos.
Tal medida exigirá também uma votação em ambas as câmaras do Congresso e aí Flávio contará com o Partido Liberal, que, sem dificuldade, encontrará alianças com os partidos de centro-direita, o chamado Centrão, e poderá formar a maioria necessária para avançar.
Com 121 deputados federais eleitos e 28 senadores, a extrema-direita terá a maior bancada nas duas casas legislativas federais desde o fim da ditadura militar.
Por outro lado, se Lula da Silva for reeleito, a promessa de Flávio enfrentará mais obstáculos, já que o Presidente da República tem o poder de veto e, aí, só com maioria absoluta o Congresso pode derrubar o veto. Será um mandato muito difícil para Lula, pois terá dificuldades para fazer aprovar políticas em câmaras dominadas por legisladores conservadores.