Vídeos alegaram falsamente que o partido anti-imigração Alternativa para a Alemanha (AfD) foi omitido dos boletins de voto por correio ou que votos foram destruídos, repetindo táticas antes usadas pela rede de influência pró-russa Storm-1516.
Vídeos falsos que alegam fraude eleitoral generalizada na Alemanha estão, afinal, ligados a uma rede de influência pró-russa, que divulgou publicações online antes de duas eleições importantes em Berlim e em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.
As imagens alegadamente mostravam boletins de voto por correspondência assinalados no AfD a serem destruídos ou a eliminação completa do partido dos boletins de voto.
Mas os vídeos, que somaram centenas de milhares de visualizações na plataforma X, diferiam claramente do material de voto oficial.
Alguns foram amplificados por contas conhecidas por difundirem narrativas pró-russas e eram semelhantes a conteúdos falsos sobre fraude eleitoral anteriormente associados à Storm-1516, uma rede de influência atribuída à Rússia pelos serviços de informações alemães.
Votos por correspondência falsos em Berlim
Num dos vídeos vê-se um homem a abrir documentos de voto por correspondência em Berlim e a recortar boletins assinalados no AfD.
O vídeo foi partilhado por Alina Lipp, uma bloguer alemã pró-russa alvo de sanções da UE desde maio de 2025. Bruxelas acusa-a de difundir desinformação sobre a guerra da Rússia contra a Ucrânia e de participar em operações coordenadas de manipulação de informação em apoio do Kremlin.
Na plataforma X, garantiu que não havia provas de que o vídeo fosse falso. A publicação ultrapassou as 630 mil visualizações.
Mas o site alemão de monitorização eleitoral Wahlrecht.de encontrou indícios de que os três alegados envelopes de voto por correspondência eram fraudulentos.
Desde logo, não continham o cartão de eleitor que os cidadãos têm de devolver juntamente com o boletim. Além disso, nem os envelopes exteriores nem os envelopes interiores para os boletins estavam selados.
Segundo o Wahlrecht, faltavam ainda os boletins separados usados para eleger os conselhos de distrito de Berlim e os boletins para a Câmara de Representantes de Berlim estavam dobrados de forma diferente dos documentos autênticos, o que indicia que não eram verdadeiros.
AfD retirado de boletins falsificados
Um segundo vídeo, difundido por várias contas, afirma mostrar boletins de voto por correspondência no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental sem o AfD.
Numa das gravações, um narrador masculino diz ser um reformado de Rostock que recebeu um boletim suspeito em que o partido não figurava na lista de opções.
As imagens foram depois partilhadas por várias contas no X, algumas descrevendo-as explicitamente como fraude eleitoral. Publicações semelhantes alegavam mostrar boletins de três círculos eleitorais diferentes: 9, 11 e 33.
Os nomes dos restantes candidatos no suposto boletim do círculo 11 coincidem com os do modelo oficial de boletim. No entanto, a linha onde surgia o AfD foi eliminada na versão exibida no vídeo.
O responsável máximo pelas eleições em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, Christian Boden, confirmou à agência alemã dpa que o AfD consta dos boletins reais de voto por correspondência.
Os responsáveis eleitorais dos outros círculos referidos nas publicações confirmaram também que o AfD está incluído nos respetivos boletins. De acordo com Boden, as falsificações seguiram de perto os modelos oficiais, limitando-se a apagar os campos onde aparecia o AfD.
Táticas russas de desinformação já conhecidas
As acusações de irregularidades e fraude eleitorais não são novas: também antes das legislativas federais alemãs de 2025 circularam vídeos falsos.
Um deles alegava, falsamente, que o AfD não constava dos boletins na cidade de Leipzig. Outro parecia mostrar boletins a serem destruídos.
As autoridades alemãs consideram que esses primeiros vídeos faziam parte de uma campanha de desinformação dirigida, pró-russa, associada à Storm-1516, que recorre a falsos testemunhos, vídeos fabricados e sites na internet concebidos para imitar órgãos de comunicação social legítimos e assim introduzir boatos no debate político.
Os vídeos mais recentes retomam narrativas semelhantes de fraude eleitoral e assemelham-se de perto aos anteriores, pelo que investigadores os ligam à mesma campanha Storm-1516.
Em dezembro de 2025, o Serviço Federal de Informações da Alemanha descreveu a Rússia como o “ator central” por detrás da Storm-1516.
No fim, o AfD acabou por ficar em primeiro lugar em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com 38,2% dos votos.
A narrativa falsa apresenta o AfD e os seus apoiantes como vítimas de manipulação.
O partido defende relações mais estreitas com Moscovo e o levantamento das sanções sobre a energia russa, ao mesmo tempo que se opõe à continuação do apoio militar alemão à Ucrânia. Não há indícios de que esteja por detrás desta campanha nas redes sociais.