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De bloqueios escolares à violência: o que está a impulsionar os protestos estudantis em França

Estudantes fogem ao gás lacrimogéneo durante um protesto contra a falta de recursos nas escolas, em Lyon, França, 2 de outubro de 2026
Estudantes fogem do gás lacrimogéneo durante um protesto contra a falta de recursos nas escolas em Lyon, França, 2 de outubro de 2026 -  Direitos de autor  AP Photo
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De Estelle Nilsson-Julien
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Protestos estudantis irromperam na região de Paris em meados de setembro e, desde então, espalharam-se pelo país, com algumas marchas a degenerar em confrontos violentos com a polícia.

Quando os alunos de uma escola em Créteil, na periferia sudeste de Paris, se juntaram aos professores em protesto para exigir mais recursos e pessoal, não podiam prever que a sua ação desencadearia um movimento à escala nacional.

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A campanha começou em 17 de setembro e ganhou rapidamente força depois de vídeos dos protestos se terem espalhado pelas redes sociais, levando estudantes em toda a França a aderir ao apelo por uma resposta do governo ao problema das turmas sobrelotadas, das faltas de professores, das instalações degradadas e de outras queixas.

Mais de duas semanas após o primeiro protesto, as associações de estudantes convocaram os alunos para uma jornada de mobilização nacional na terça-feira. Entretanto, centenas de escolas estiveram total ou parcialmente encerradas na segunda-feira, depois de as autoridades concluírem que não estavam reunidas as condições de segurança necessárias.

Confrontos e intervenção policial

Embora muitas manifestações tenham sido pacíficas, outras ficaram marcadas por motins e confrontos na periferia dos protestos com as forças de segurança. Segundo o ministro da Administração Interna francês, houve mais de 5.060 detenções, 87% envolvendo menores. Mais de 170 alunos, 78 funcionários escolares e mais de 600 agentes da polícia ficaram feridos ao longo dos protestos.

Um pouco por toda a França, várias escolas foram danificadas, incendiadas ou vandalizadas. Em alguns casos, elementos violentos infiltraram-se nas manifestações.

Na segunda-feira, um jovem de 15 anos terá ficado ferido por uma granada policial na cidade de Lens, no norte de França, acabando por perder uma mão. O procurador público Etienne Thieffry disse à imprensa que ainda não estava definitivamente estabelecido “se o adolescente pegou na granada” ou se esta lhe foi atirada.

Na cidade de Tours, no centro de França, a família de um aluno de 16 anos apresentou no domingo uma queixa por violência policial, depois de o jovem ter perdido a visão do olho direito nos dias anteriores. De acordo com o procurador da República, os ferimentos sugerem que poderá ter sido atingido por uma bala de borracha da polícia. Em ambos os casos, decorrem investigações.

A Liga Francesa dos Direitos Humanos (LDH) denunciou um “afastamento generalizado do Estado de direito e um desprezo pelos enquadramentos legais” durante intervenções policiais que envolveram alunos.

Numa conferência de imprensa na segunda-feira, Nathalie Tehio, presidente da organização, afirmou que o direito internacional não estava apenas a ser “ignorado”, mas sim “completamente espezinhado”.

Já Stanislas Gaudon, porta-voz do sindicato Alliance Police Nationale, um dos principais sindicatos de polícia em França, disse à Euronews que as forças de segurança se mantêm focadas em garantir a segurança nos perímetros das escolas.

“Perante atos de agressão e o recurso à força, é uma questão de determinar a proporcionalidade e a legitimidade da intervenção.”

“Se isto acontece contra indivíduos que dispararam contra agentes ou atiraram ácido, então o uso da força para dispersar é necessário. Não gosto de usar os termos ‘repressão’ ou ‘supressão’ dos protestos estudantis. Não é disso que se trata. Se não houver perturbação no espaço público, não há uso legítimo da força por parte das autoridades”, afirmou Gaudon.

Conflito envolve classe política

A contestação prolongada arrastou a classe política para o centro do conflito, aumentando a pressão sobre o governo para resolver a situação e responder às reivindicações dos estudantes.

Na sexta-feira, o ministro da Educação, Édouard Geffray, reuniu-se com sindicatos do setor e pessoal escolar, bem como com associações de pais. Nesse mesmo dia, o ministro da Justiça, Gérald Darmanin, afirmou que os protestos violentos tinham afetado 735 das 3.700 escolas francesas “de uma forma ou de outra”.

No domingo, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, apresentou o plano de ação do governo em cinco pontos. Disse que o executivo continua empenhado em evitar o cancelamento de aulas, melhorar as instalações em parceria com as autoridades regionais, organizar melhor os horários escolares, tornar mais transparente a Parcoursup, a plataforma francesa de candidaturas ao ensino superior, além de um compromisso geral de apoio aos estudantes.

A esquerda radical manifestou um apoio firme aos protestos. Jean-Luc Mélenchon, líder do partido França Insubmissa, declarou na quinta-feira: “O que queremos é que a juventude deste país saia deste episódio de cabeça erguida.”

Os críticos acusam o político, e o seu partido, de incitar e instrumentalizar os jovens para benefício político. Mélenchon, por seu lado, afirma que o partido apoia o movimento, mas não o está a organizar e defende que este permaneça não violento.

Sindicatos de professores: “O sistema de ensino está em crise”

Em declarações à Euronews, Jean-Rémi Girard, professor e presidente do Sindicato Nacional dos Colégios e do Ensino Superior (SNALC), alertou para os riscos de politizar os protestos.

“Temos mesmo de ter muito cuidado para não transformar o que está a acontecer – venha de que lado político vier – num instrumento político, porque é muito perigoso.”

“Estamos nós no terreno e precisamos de ser acompanhados e protegidos. Já hoje é difícil recrutar, dada a falta de atratividade da nossa profissão; se, além disso, não formos protegidos, será ainda mais complicado encontrar professores nos próximos anos.”

Na sexta-feira, um professor foi ainda regado com gasolina durante um protesto junto a uma escola no sul de França. Um aluno de 16 anos foi entretanto detido.

Segundo Girard, as reivindicações apresentadas pelos estudantes estão longe de ser novas.

“Temos cada vez mais dificuldade em substituir professores ausentes, as salas de aula francesas estão entre as mais cheias da Europa, as salas não estão devidamente equipadas para as ondas de calor. Tudo isto já é conhecido.”

“O ponto de partida é que o sistema de ensino está em crise, e há muito tempo”, afirmou, sublinhando que muitos dos episódios de maior violência foram causados por uma minoria.

“Vêm para criar distúrbios, e já o testemunhei.”

“Há um grupo de colegas que fica à porta da escola para falar com os alunos, numa tentativa de evitar que a situação escale. Tudo pode acontecer e, em cinco minutos, o ambiente muda por completo. Somos rostos conhecidos para os alunos, temos uma relação construída com eles e queremos manter um diálogo permanente.”

Muitos pais apoiam os protestos

Embora alguns pais tenham aconselhado os filhos a manterem-se afastados das manifestações, por vezes chegando mesmo a proibir a ida à escola, a Federação dos Conselhos de Pais de Alunos (FCPE), uma das maiores associações de pais de França, manifestou apoio aos alunos em greve.

“Apoiamos as exigências para que os nossos filhos estudem em melhores condições”, disse à Euronews Mustafa Ozcelik, vice-presidente da FCPE.

Ozcelik sublinhou que muitos pais partilham as preocupações dos filhos sobre turmas sobrelotadas, falta e ausência de professores, dificuldades em recrutar docentes para determinadas disciplinas, escassez de médicos escolares e salas que no verão ficam excessivamente quentes.

“Pessoal escolar, pais e, no fim de contas, os próprios alunos querem poder regressar à escola. Os alunos são suficientemente lúcidos para saber se devem continuar a protestar ou não; não somos nós que decidimos. Mas, a partir do momento em que obtenham as garantias que reivindicam, todos voltarão à escola.”

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