Apelidada de “Le Chonk”, a nova IA de fronteira da francesa Mistral afirma que será a mais poderosa de peso aberto fora da China, apostando que a “soberania” europeia conquistará clientes numa corrida cada vez mais definida como EUA contra China.
Referência francesa em inteligência artificial, a Mistral AI lançou, esta terça-feira, uma pré-visualização pública de um novo modelo de ponta, que afirma vir a ser o modelo de pesos abertos mais avançado desenvolvido fora da China, assim que os seus pesos forem disponibilizados.
Surge este lançamento numa altura em que a corrida em torno da IA de pesos abertos, em que os parâmetros dos modelos podem ser descarregados e executados por qualquer utilizador, ganha contornos geopolíticos.
Os desenvolvedores chineses têm marcado o ritmo, enquanto muitas empresas norte-americanas, como a OpenAI, mantêm fechados os seus sistemas mais avançados. Ao mesmo tempo, intensifica-se o debate sobre segurança, depois de se terem registado casos de agentes de IA a agirem de forma autónoma e a invadirem sites.
Mistral aposta que o novo modelo de pesos abertos, denominado ML4, com fortes capacidades de defesa, vai atrair clientes que procuram uma alternativa europeia construída em torno da “soberania”.
Eis o que se sabe sobre o modelo.
ML4, apelidado de “Le Chonk”, expressão que remete para algo grande e robusto, é “uma nova geração de modelos”, afirmou Guillaume Lample, cientista-chefe e cofundador da Mistral, numa conferência de imprensa acompanhada pela Euronews.
O modelo está orientado para capacidades de cibersegurança e defesa, que a empresa afirma serem superiores às dos concorrentes chineses.
“As capacidades de ciberdefesa vão permitir que empresas e governos se protejam contra atores maliciosos que estão a subverter modelos fechados para realizar ciberataques”, disse Lample.
O lançamento da Mistral acontece apenas um dia depois de a startup norte-americana Reflection ter apresentado o Beam como o seu primeiro modelo de pesos abertos e um contrapeso ocidental aos modelos abertos chineses. Os respetivos pesos devem ser divulgados ainda este mês e as alegações de desempenho não foram, para já, verificadas de forma independente.
Agentes de IA fora de controlo
Pierre Stock, primeiro empregado da Mistral e vice-presidente de ciência, afirmou que criar um novo modelo de IA “é como construir uma nave espacial”.
Segundo o responsável, todas as empresas de IA “estão a avançar à máxima velocidade”. Embora a Mistral tenha apenas três anos, “está claramente a reduzir a distância” face aos concorrentes e, em alguns aspetos, o novo modelo “é basicamente mais forte do que os modelos chineses lançados este verão”, acrescentou.
No mês passado, a empresa anunciou ter angariado 3 mil milhões de euros, numa avaliação superior a 21 mil milhões, operação que descreve como a maior ronda de capital próprio alguma vez concluída por uma tecnológica europeia.
O lançamento do modelo coincide ainda com relatos de empresas de IA sobre agentes que atuam de forma autónoma e invadem sites.
Stock defendeu que esta situação alimentou uma narrativa que permite às empresas norte-americanas “transformar incidentes fora de controlo em argumentos de venda”, sugerindo que “apenas alguns intervenientes de confiança podem gerir a tecnologia”.
Acrescentou que “o monopólio é controlado pelos americanos”, mas que os modelos de pesos abertos “permitem que mais pessoas tenham acesso aos modelos”.
A empresa afirmou ainda liderar entre os modelos de pesos abertos em tarefas de produção industrial e de finanças, bem como em utilização multimodal, e que, em programação, está a reduzir a distância em relação a outros modelos de ponta. A Mistral reivindicou também os melhores resultados entre todos os modelos, incluindo os fechados, em capacidades de fundamentação e desempenho de topo em testes de referência de semicondutores.
A empresa francesa indicou que o ML4 continuará a melhorar, uma vez que o treino ainda não está concluído e a fase de aprendizagem por reforço terminará nos próximos dias.
Produzido na Europa
Segundo a Mistral, o ML4 foi treinado de raiz durante dois meses em 4 000 GPUs NVIDIA Grace Blackwell, instaladas nos próprios centros de dados europeus da empresa.
O ML4 abrange mais de 160 línguas, incluindo todas as línguas oficiais da União Europeia, e funciona com alfabetos latinos e não latinos.
Quando fica disponível?
O modelo já está acessível através da API da Mistral, na plataforma Mistral Studio. A empresa prevê disponibilizar os pesos a 27 de outubro.
Até lá, programadores, responsáveis de cibersegurança e autoridades públicas poderão testar o modelo em contextos reais.