A UE entra no inverno em terreno frágil, sob dupla pressão geopolítica que pode revelar a vulnerabilidade da sua arquitetura energética pós-Rússia.
A Europa pode enfrentar uma escassez de gás entre 12% e 15% da procura se uma onda de frio intensa atingir o continente neste inverno, segundo um relatório divulgado na quinta-feira pelos operadores de transporte de gás da UE.
O alerta surge numa altura em que o bloco entra no inverno com as reservas de gás apenas 72% cheias a 1 de outubro, abaixo dos 83% registados na mesma altura do ano passado, após aquilo que o relatório descreve como uma “época de injeção desafiante”.
As perspetivas de abastecimento para o inverno, publicadas pela Rede Europeia de Operadores de Sistemas de Transporte de Gás (ENTSOG), analisam dois cenários que partem do pressuposto de ausência total de gás russo por gasoduto. A UE praticamente deixou de importar gás russo, embora subsistam exceções em países sem acesso ao mar, como a Hungria e a Eslováquia.
O relatório, publicado em 8 de outubro, alerta que uma perturbação na maior infraestrutura offshore de gás que abastece a Europa continental, combinada com a interrupção completa das importações de gasoduto da Argélia, representaria uma ameaça grave para a segurança energética do bloco.
Bruxelas pediu aos países da UE para maximizarem as injeções nas reservas no início do inverno e manterem uma cooperação rigorosa, de forma a garantir uma repartição equitativa de eventuais cortes na procura.
GNL ajuda a evitar falhas de abastecimento
O relatório sublinha a crescente dependência da Europa do volátil mercado mundial de gás natural liquefeito (GNL), à medida que se afasta dos fornecimentos russos por gasoduto.
Os Estados Unidos afirmaram-se como o principal fornecedor de GNL da UE, substituindo grande parte do gás anteriormente importado da Rússia.
Mesmo com condições de inverno normais, uma pressão sobre as disponibilidades de GNL poderia reduzir os níveis de armazenamento de gás na Europa para apenas 13% em março de 2027, obrigando potencialmente as indústrias intensivas em energia a reduzir a produção.
“Em condições de oferta limitada de GNL, preços elevados do gás podem também provocar uma reação da procura sensível ao preço, o que evidencia a importância de garantir importações suficientes de GNL e de maximizar os níveis de armazenamento antes e durante as primeiras fases da época de inverno”, lê-se no relatório.
As limitações ao transporte através do Estreito de Ormuz, um ponto crítico por onde passa 20% do comércio mundial de GNL, reduziram drasticamente as exportações do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos desde o início da guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irão, em 28 de fevereiro.
Embora a exposição direta da Europa ao gás do Qatar seja moderada, cerca de 8%, sendo a Itália o país mais afetado, a restrição da oferta mundial desencadeou uma intensa guerra de licitações entre a Europa e a Ásia, aumentando a volatilidade dos preços e deixando o continente europeu mais vulnerável.
Vulnerabilidades do gás na Europa
Os países da Europa Ocidental beneficiaram de novos terminais costeiros de GNL e de acesso a gasodutos provenientes de países como a Noruega. Já os Estados da Europa Central, Oriental e do Sudeste, sem saída para o mar, continuam mais expostos a perturbações no abastecimento.
Se grandes infraestruturas de gasodutos, como o Europipe 2 no Mar do Norte ou as linhas de importação argelinas, sofrerem uma perturbação num inverno rigoroso, estrangulamentos na infraestrutura irão limitar fisicamente o fluxo de gás de Oeste para Este.
O Sudeste da Europa poderá enfrentar de imediato falhas localizadas de abastecimento até 12% nos dias de pico de procura, pondo à prova os limites da solidariedade europeia.
À medida que as reservas diminuem, os governos poderão enfrentar uma pressão crescente para darem prioridade aos consumidores nacionais em detrimento dos países vizinhos.
Bruxelas concedeu aos Estados-Membros alguma flexibilidade temporária para manterem os níveis de armazenamento entre 75% e 80% até 1 de novembro, em vez da meta habitual de 90%, numa tentativa de evitar compras de pânico e uma nova escalada dos preços.
O contrato holandês TTF, referência europeia para a negociação de gás, situava-se na quinta-feira entre 79,80 e 80,22 euros por MWh, quase três vezes mais do que antes do início da guerra contra o Irão.