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Europa paga 209 mil milhões de dólares à Rússia em energia desde 2022, abaixo da alegação de Moscovo

Vice-primeiro-ministro russo Alexander Novak fala ao telefone durante as comemorações do 81.º aniversário da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazi, maio de 2026
Vice-primeiro-ministro russo Alexander Novak fala ao telefone durante as celebrações do 81.º aniversário da vitória da União Soviética sobre a Alemanha nazi, maio de 2026 -  Direitos de autor  AP Photo
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De Marta Pacheco
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Comissão Europeia contestou aquilo que considera reivindicações exageradas da Rússia e dos Estados Unidos sobre gastos da UE em energia russa desde 2022

A Comissão Europeia contestou esta terça-feira a alegação da Rússia de que a UE gastou 320,7 mil milhões de dólares (286 mil milhões de euros) em energia desde 2022, apontando um valor substancialmente mais baixo, segundo um porta-voz da Comissão.

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Contrariamente ao que afirma Moscovo, a Rússia forneceu à UE energia no valor de 197 mil milhões de euros (209 mil milhões de dólares) entre março de 2022 e julho de 2026, adiantou o porta-voz, citando dados do COMEXT, a base de referência oficial gerida pelo Eurostat.

O vice-primeiro-ministro russo, Alexander Novak, afirmou na noite de segunda-feira que a UE comprou desde 2022 recursos energéticos russos no valor de 302 mil milhões de euros (320,7 mil milhões de dólares), sublinhando a continuidade da dependência do bloco de Moscovo, apesar dos esforços de Bruxelas para cortar as ligações energéticas, numa altura em que a UE enfrenta escassez de gás neste inverno.

Bruxelas rejeita essas afirmações e insiste que os esforços do bloco para abandonar a energia russa já começam a dar resultados.

“A UE teria gasto 475 mil milhões de euros — mais 278 mil milhões de euros em combustíveis fósseis russos se o REPowerEU não tivesse sido lançado”, acrescentou o porta-voz da Comissão, defendendo a eficácia do plano do bloco para reduzir a dependência dos combustíveis russos.

O REPowerEU foi concebido para reduzir a dependência da energia russa através da diversificação, da diminuição do consumo e de uma transição mais rápida para fontes de energia alternativas, logo após a invasão da Ucrânia por Moscovo.

Em 2023, apenas 6% da despesa total da UE em combustíveis fósseis teve como destino a Rússia, segundo o porta-voz.

Os números da Comissão abrangem pagamentos por importações de energia até julho de 2026, enquanto Novak se refere a fornecimentos desde 2022 sem especificar os produtos incluídos, os métodos de avaliação utilizados ou o período exato considerado.

“Não estou em condições de confirmar os números de outras pessoas. O que posso confirmar é que temos uma tendência claramente decrescente da nossa dependência da Rússia, de 42%-45% em 2022 para 12% atualmente”, disse na terça‑feira aos jornalistas a porta‑voz da Comissão, Anna‑Kaisa Itkonen.

Rússia e EUA avançam números diferentes

Os dados também contrariam a afirmação do presidente dos EUA, Donald Trump, que a 12 de outubro alegou que a UE pagou 250 mil milhões de dólares (223 mil milhões de euros) à Rússia por energia, valor que tem usado para justificar a sua abordagem “America First”, escreveu Trump na plataforma Truth Social.

Presidente dos EUA, Donald Trump / Truth Social
Presidente dos EUA, Donald Trump / Truth Social US President Donald Trump / Truth Social

A estimativa de Moscovo é cerca de 112 mil milhões de dólares (100 mil milhões de euros) superior ao valor da Comissão, enquanto a alegação de Trump é aproximadamente 41 mil milhões de dólares (36 mil milhões de euros) mais elevada.

A discrepância reflete leituras concorrentes do comércio de energia da UE com a Rússia, numa altura em que Bruxelas procura mostrar que as sanções e a estratégia para abandonar as importações de combustíveis de Moscovo reduziram significativamente a exposição do bloco à Rússia.

Mensagem de Moscovo: Europa continua a precisar da energia russa

Em declarações ao canal estatal russo Vesti, Novak afirmou que a Rússia forneceu desde 2022 até hoje recursos energéticos no valor de 302 mil milhões de euros (320,7 mil milhões de dólares) aos países da UE.

“O montante para o período de 2022 até ao presente é de 320,7 mil milhões de dólares — esse é o volume total de fornecimentos de recursos energéticos aos países da União Europeia”, disse o ministro russo.

Acrescentou que, apesar das sanções, já chegaram à Europa fornecimentos no valor de 21,3 mil milhões de dólares nos primeiros nove meses de 2026.

As declarações apresentaram as sanções ocidentais como insuficientes para cortar a relação energética e mostraram a Rússia como um fornecedor que se mantém no mercado e é capaz de responder a perturbações globais.

Novak afirmou que a Rússia está a cumprir as suas obrigações contratuais e a fornecer energia através de rotas onde continuam em vigor derrogações — como a rota do Ártico, que rendeu a Moscovo 9,7 mil milhões de euros nos primeiros nove meses do ano pelo seu gás natural liquefeito (GNL).

Defendeu ainda que exportações adicionais de gasóleo russo, incluindo para os Estados Unidos, podem ajudar a aliviar as pressões no mercado causadas pelas perturbações no estreito de Ormuz e pela redução da capacidade mundial de refinação.

Trump transforma fatura energética europeia em argumento político

Entretanto, o valor de 250 mil milhões de dólares (223 mil milhões de euros) avançado por Trump está a ser usado para reforçar o argumento de que os países europeus continuam a financiar a Rússia enquanto dependem dos Estados Unidos para a sua segurança.

Na publicação nas redes sociais, apresentou esse número como prova de que a sua política “America First” foi a escolha certa para os interesses dos Estados Unidos.

No entanto, os dados da Comissão sugerem que a relação energética da UE com a Rússia é mais complexa do que deixam entender tanto a narrativa política de Washington como o número em destaque apresentado por Moscovo.

A UE continua a importar alguma energia russa apesar das sanções, sobretudo através das rotas de abastecimento que permanecem abertas e de derrogações específicas.

As derrogações em vigor foram uma concessão a países sem acesso ao mar, como a Hungria e a Eslováquia, bem como a titulares de contratos de longo prazo, para evitar penalizações legais.

“Para já, continua a ser permitido importar alguma energia da Rússia, dado que o último prazo para estas importações termina no próximo ano”, acrescentou Itkonen.

Ao abrigo do plano REpowerEU do bloco, Bruxelas planeia “eliminar completamente o gás e o GNL provenientes da Rússia” até 1 de janeiro de 2027.

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