Na Europa, preços de gás e eletricidade sobem menos do que gasolina e gasóleo; com o inverno à porta, Euronews Business compara valores nas capitais desde antes da guerra no Irão
Os preços do gás na Europa atingiram na terça-feira o nível mais elevado em quase quatro anos, aumentando as preocupações com os custos de energia no inverno, numa altura em que os níveis de armazenamento permanecem baixos.
Os futuros de referência do gás TTF holandês chegaram a 87,20 euros por megawatt-hora, face a cerca de 32 euros na véspera da guerra com o Irão.
O conflito no Médio Oriente perturbou o transporte marítimo através do Estreito de Ormuz, por onde passa habitualmente cerca de um quinto do gás natural liquefeito mundial.
Embora os preços da gasolina e do gasóleo já tenham atingido máximos em toda a UE, as tarifas de gás e eletricidade para as famílias têm subido de forma mais lenta. Na UE, o preço médio ao consumidor do gasóleo aumentou 35% entre 23 de fevereiro, antes de se agravarem as tensões no Médio Oriente, e 5 de outubro de 2026, enquanto a gasolina encareceu 23%, segundo o EU Weekly Oil Bulletin.
Entre 2 de fevereiro e 1 de setembro de 2026, os preços do gás para uso doméstico, incluindo impostos, subiram em média 12% nas capitais da UE, enquanto a eletricidade aumentou 4,2%. Os dados provêm do Household Energy Price Index (HEPI), elaborado pela Energie-Control Austria, pela MEKH e pela VaasaETT.
Contratos de preço fixo e apoios públicos podem atrasar ou atenuar o impacto das subidas do preço grossista nas faturas das famílias, como a Euronews Business já tinha noticiado. Preços mais elevados do gás tendem também a pressionar o custo da eletricidade, ao encarecer a produção em centrais a gás.
Quais são, então, as capitais europeias com eletricidade e gás mais caros? Tendo em conta o poder de compra, onde é a energia mais barata e mais cara? Que cidades registaram as maiores variações nos preços da eletricidade e do gás desde antes da guerra com o Irão?
A comparação incide sobre o preço por unidade de energia, e não sobre o montante total das faturas, que depende igualmente do consumo das famílias.
No início de setembro de 2026, os preços da eletricidade residencial, impostos incluídos, variavam entre 8,4 cêntimos de euro por quilowatt-hora (c€/kWh) em Kiev e 41,3 c€/kWh em Bruxelas, com uma média de 27,2 c€/kWh nas capitais da UE.
Berlim (39,6), Dublin (38,7), Berna (38,6) e Londres (38,3) completavam o grupo das cinco cidades com eletricidade mais cara. Seguiam-se Roma (36,6), Viena (34,4) e Praga (34,3).
No extremo oposto, depois de Kiev surgiam Budapeste (10,3), Podgorica (11,3), Belgrado (11,6) e Valeta (12,3).
Embora as capitais da Alemanha, do Reino Unido e de Itália figurem entre as mais caras, os preços em Madrid (28,3) e Paris (28,1) eram inferiores, ainda que se mantivessem acima da média da UE.
Fortes alterações nas classificações por poder de compra
Quando se ajustam os preços ao padrão de poder de compra (PPS), que corrige as diferenças no custo de vida entre países, a hierarquia das tarifas de eletricidade altera-se significativamente. Bucareste passa a ser a cidade mais cara, com 55,1, enquanto Oslo surge como a mais barata, com 11,5.
Entre as capitais das cinco maiores economias europeias, Roma (38,2) é a mais cara em termos de PPS, enquanto Paris (25,8) é a mais barata. Berlim (35,5), Madrid (31,6) e Londres (30,9) situam-se todas acima da média da UE, de 29,6.
Face à classificação em euros, Bucareste e Varsóvia registam as maiores subidas, avançando dez posições cada. Berna apresenta de longe a maior descida, ao cair vinte lugares, seguida de Copenhaga, que desce treze.
Gás mais caro em Estocolmo
Os preços do gás natural residencial impostos incluídos vão de 1,5 c€/kWh em Kiev a 34,8 c€/kWh em Estocolmo. A capital sueca destaca-se claramente no topo, com Amesterdão bem distante, em segundo lugar, com 21,2 c€/kWh.
A média da UE nas capitais é de 11,9 c€/kWh.
Entre as capitais das cinco maiores economias europeias, Paris é a mais cara no gás doméstico, com 15,7 cêntimos de euro por kWh, enquanto Madrid (10,1 cêntimos) e Londres (10,3 cêntimos) são as mais baratas. Roma (15,2 cêntimos) e Berlim (12,5 cêntimos) ficam acima da média da UE.
A classificação muda quando os preços são ajustados às diferenças de poder de compra.
Em termos de PPS, Estocolmo continua a ser a cidade com gás mais caro, com 28,5, enquanto Budapeste é a mais barata, com apenas 3,6.
Lisboa (18,6), Amesterdão (18,1), Roma (15,9) e Sófia (15,6) completam o grupo das cinco primeiras.
Entre as capitais das cinco maiores economias europeias, Londres (8,3) passa a ser a mais barata após este ajustamento, enquanto Roma (15,9) é a mais cara. Paris (14,4) fica igualmente acima da média da UE, ao passo que Madrid (11,3) e Berlim (11,2) se situam abaixo.
O ajustamento ao poder de compra também faz com que o gás pareça mais caro em algumas capitais relativamente a outras, sendo Sófia a cidade com maior alteração na tabela.
A capital búlgara ocupa a 18.ª posição em euros, mas sobe para quinto lugar em termos de PPS. Riga avança seis lugares.
Em sentido inverso, Dublin e Bruxelas registam as maiores quedas, descendo dez posições cada. Berna cai nove lugares e Londres sete. Estas cidades passam assim a ser classificadas como menos caras quando se têm em conta as diferenças de poder de compra.
Barato numa fatura, caro na outra?
Em algumas capitais europeias, as famílias pagam pouco pela eletricidade e muito pelo gás, ou o contrário. Estocolmo e Amesterdão, por exemplo, têm preços de eletricidade baixos ou médios, mas o gás mais caro entre as capitais analisadas. Bucareste, Bruxelas e Londres apresentam o padrão oposto, com tarifas de eletricidade elevadas mas gás relativamente barato.
Como os preços da energia mudaram desde antes da guerra com o Irão
Algumas cidades registaram alterações significativas nos preços da energia entre fevereiro e setembro de 2026. No caso da eletricidade, Lisboa anotou a maior subida, de 22%, seguida de Amesterdão (17,3%), Madrid (15,1%) e Roma (14,9%).
A Cidade do Luxemburgo registou a maior descida, de 15,3%, seguida de Talim (7,9%) e Helsínquia (7,1%).
No gás, Talim apresentou de longe a maior subida no período, com um aumento de 59,2%, de 7,8 c€/kWh para 12,4 c€/kWh.
Os preços aumentaram igualmente mais de 20% em Bruxelas (37,9%), Atenas (33,1%), Berna (30,2%), Londres (28,2%), Riga (23%), Viena (22,8%), Paris (22,5%) e Berlim (22%).
Que impacto poderá ter o inverno nas faturas de energia das famílias?
Estes valores de setembro podem ainda não traduzir totalmente o impacto da mais recente escalada dos preços grossistas do gás, já que contratos de preço fixo e apoios públicos podem atrasar ou atenuar as subidas nas faturas das famílias.
A Europa entra também no inverno com uma margem de segurança menor em gás. Os depósitos de armazenamento da UE estavam cheios a 72,4% em 3 de outubro, o nível mais baixo para essa época do ano desde o início dos registos, em 2011, segundo o Institute for Energy Economics and Financial Analysis (IEEFA).
Como noticiou a Euronews, o instituto alertou que reservas reduzidas podem deixar a Europa mais exposta a uma vaga de frio no final do inverno. Para as famílias, o valor final da fatura dependerá tanto da tarifa aplicada como da quantidade de energia de que necessitarem à medida que as temperaturas descem.