Preços da energia na Europa podem manter-se elevados durante algum tempo, apesar de a região não depender muito do Estreito de Ormuz. Eis o que justifica esta tendência.
Apesar da forte queda dos preços do petróleo após os Estados Unidos e o Irão terem confirmado um cessar-fogo de duas semanas, a Europa ainda não pode respirar de alívio devido ao impacto duradouro no fornecimento de energia de que o bloco depende em grande medida.
A guerra no Irão e o encerramento do Estreito de Ormuz desencadearam a maior perturbação de abastecimento na história do mercado petrolífero mundial, segundo a Agência Internacional de Energia (AIE). Os ataques contra instalações no Golfo deverão ter um impacto de vários anos no fornecimento de gás.
A Europa é significativamente afetada, embora apenas uma pequena parte do petróleo e do gás chegue diretamente através do estreito de Ormuz, que esteve na prática sob controlo e em grande medida bloqueado pelas forças iranianas até ao cessar-fogo.
A reabertura do estreito foi uma condição inegociável do cessar-fogo, já que este ponto de estrangulamento é essencial para o transporte mundial de petróleo e de GNL. Em 2025, quase 15 milhões de barris de petróleo bruto por dia passaram pelo estreito, segundo a AIE. Deste volume, cerca de 600 mil barris por dia, ou apenas 4%, tiveram como destino a Europa, face às necessidades diárias da UE de 13 milhões de barris.
Mesmo assim, uma queda rápida dos preços dos combustíveis na Europa é pouco provável, mesmo que, após o cessar-fogo, seja alcançado um acordo de paz.
"Mesmo que essa paz chegue amanhã, não vamos voltar ao normal num futuro previsível", afirmou na semana passada o comissário europeu da Energia, Dan Jørgensen.
Como os preços globais afetam as importações europeias
A UE importa entre 80% e 85% do petróleo que consome, segundo o Eurostat, a partir de uma vasta gama de fornecedores. Os Estados Unidos são o maior, com 15,1% em valor, seguidos da Noruega e do Cazaquistão.
A maior parte do comércio mundial de crude é indexada ao Brent, a principal referência internacional.
Os preços para entrega no mês seguinte subiram de 72–73 dólares por barril antes da guerra para quase 120 dólares no pico, antes de ser acordado o cessar-fogo. Mesmo após o cessar-fogo, o preço rondava os 93 dólares esta quarta-feira.
Os preços do gás na Europa também subiram desde 28 de fevereiro, quando começou a guerra. Os contratos de futuros aumentaram para 50 euros por MWh, face a cerca de 35,5 euros antes da guerra, atingindo um máximo de 61,93 euros/MWh em 19 de março. O preço estabilizou em cerca de 44 euros/MWh na quarta-feira, depois do cessar-fogo.
Como os preços globais chegam aos consumidores europeus
Em muitos países europeus, o preço da eletricidade é determinado pela fonte mais cara, muitas vezes o gás.
"A subida dos preços do gás afeta as faturas de energia britânicas e europeias tanto através do custo direto do gás como do aumento do custo de produção de eletricidade nas centrais a gás", explicou Ethan Tillcock, especialista em gás do Reino Unido e da Europa na ICIS, em declarações à Euronews Business antes do cessar-fogo.
Contratos fixos e apoios públicos podem atrasar ou atenuar o impacto. Na Alemanha, os preços grossistas do gás indexados ao TTF influenciam os preços da eletricidade em cerca de 40% e os preços do gás para as famílias em aproximadamente 50%–60%, sendo o restante composto por impostos, taxas de rede e custos de políticas públicas.
No caso dos combustíveis, o banco central francês estima que um aumento de 1% nos preços dos produtos refinados se traduz em cerca de mais 0,75% nos preços antes de impostos e em cerca de mais 0,3% ao nível do preço na bomba, dependendo da carga fiscal.
Um aumento de 10 dólares no preço do petróleo bruto acrescenta aproximadamente 3 a 6 cêntimos de euro por litro para os consumidores europeus, consoante os sistemas fiscais nacionais. As taxas de câmbio também contam: como o petróleo é cotado em dólares norte-americanos, um euro mais fraco encarece os custos mesmo que os preços de referência se mantenham inalterados.
Para limitar as subidas de preços, ministros de Itália, Alemanha, Espanha, Portugal e Áustria pediram à UE que considere um imposto sobre lucros extraordinários no setor da energia.
O que tem de acontecer para os preços baixarem
A Europa dispõe de alguns instrumentos para aliviar a pressão, incluindo reservas estratégicas — parte dos 400 milhões de barris da AIE — e medidas nacionais, como cortes de impostos, subsídios e racionamento.
No entanto, "estas medidas só podem atenuar temporariamente a situação", afirmou Andrei Covatariu, investigador sénior não residente no Global Energy Center do Atlantic Council, em declarações à Euronews Business antes do cessar-fogo.
A AIE estima que os países do Golfo reduziram a produção de petróleo em pelo menos 10 milhões de barris por dia, cerca de 10% da procura mundial.
Mas a oferta física é apenas parte da história. A incerteza também pesa.
"Existe um prémio de risco elevado, impulsionado pela incerteza, mas também estamos a assistir a uma forte perturbação real nos fluxos e na produção, pelo que não se trata de um mercado movido apenas por fatores psicológicos", acrescentou Covatariu.
O que está a impulsionar a subida dos preços do petróleo
Para além das preocupações com a oferta, os traders acompanham de perto os prémios de seguro de risco de guerra e as tarifas de frete dos petroleiros, ambos determinantes para o custo final do crude.
Os custos de transporte marítimo dispararam. O Baltic Dirty Tanker Index atingiu um recorde de 3 737 pontos em 27 de março, face a cerca de 1 000 durante a maior parte do ano passado. Após o cessar-fogo, estava ligeiramente acima dos 2 000 pontos na tarde de quarta-feira, na Europa.
Durante os ataques mais intensos, em março, os prémios de seguro de risco de guerra para navios com destino ao Golfo quadruplicaram para 1% do valor do navio por sete dias de cobertura, segundo a S&P Global.
O regresso aos níveis anteriores à guerra poderá levar semanas ou meses e exige uma paz duradoura e provas de que o trânsito é seguro.
Segundo Covatariu, mesmo com um acordo de paz, uma descida prolongada dos preços para os consumidores europeus demorará ainda meses, porque as reservas demoram muito tempo a ser reconstituídas. Ao mesmo tempo, a oferta continua limitada, depois de mais de 40 ativos energéticos em toda a região terem sido gravemente danificados.
Mesmo após um acordo de paz, as reparações podem demorar meses ou anos, mantendo a oferta escassa e os preços elevados.
Porque é que os preços do gás podem manter-se elevados
Nas últimas quase seis semanas, uma grande parte do fornecimento mundial de GNL proveniente do Golfo perdeu-se ou ficou bloqueada, devido a perturbações na produção e à quase paralisação dos carregamentos através do estreito, tudo isto ligado à guerra no Irão.
A unidade de Ras Laffan, no Qatar, a maior central de GNL do mundo, foi danificada. A QatarEnergy declarou força maior em alguns contratos, depois de retirar 17% da produção, prevendo uma recuperação que pode demorar até cinco anos.
Segundo Tillcock, mesmo depois de o estreito de Ormuz reabrir e o trânsito de navios poder ser totalmente retomado, os mercados de gás poderão continuar a "enfrentar uma oferta reduzida face aos níveis anteriores à guerra, devido à menor disponibilidade física proveniente do Qatar".
A Europa obtém cerca de 8% do seu GNL no Qatar e, por agora, dispõe de fornecimentos suficientes, mas a concorrência está a intensificar-se à medida que os países reconstituem as reservas.
Cerca de 40% do gás consumido na Europa provém de GNL, o que torna o continente vulnerável a perturbações globais.
"A Europa depende fortemente do GNL, que é um mercado global, o que significa que perturbações noutros locais podem reduzir o volume de GNL disponível para o continente", frisou Tillcock.
A concorrência com a Ásia pelo fornecimento restante pode empurrar os preços para cima.
O que acontece depois de um acordo de paz
Como era expectável, o cessar-fogo arrefeceu de imediato os índices de referência: os futuros de Brent e WTI para entrega no mês seguinte caíram mais de 14% e 16%, respetivamente, até à tarde de quarta-feira na Europa. Mas estes níveis continuam 20 dólares acima do custo de um barril antes da guerra.
No caso do gás, os preços recuaram face aos máximos da crise, mas deverão manter-se acima dos níveis anteriores ao conflito.
"O valor mínimo deverá ser superior ao do período pré-crise, porque a Europa tem de voltar a encher reservas baixas, pelo que preços acima dos 40 euros/MWh são um cenário plausível para o curto prazo após um acordo", acrescentou Covatariu.
Os mercados acompanham de perto a forma como o Irão e os Estados Unidos estão a resolver o conflito e a avançar para um acordo de paz.
"Se for assinado um acordo, o Irão poderá devolver volumes adicionais ao mercado de forma relativamente rápida, sobretudo se não se registarem novas perturbações na infraestrutura petrolífera de Teerão até o acordo ser alcançado", adiantou Covatariu.
Mas muito dependerá dos detalhes do acordo de paz.
Se um acordo de paz deixar muitas incertezas, os preços poderão manter-se elevados devido aos riscos persistentes, incluindo custos de transporte e de seguros, "razão pela qual a perceção da durabilidade do fim do conflito é tão importante quanto o próprio acordo", concluiu Covatariu.