Trata-se de um galardão que, segundo o Parlamento Europeu, “homenageia as realizações de pessoas que tenham contribuído significativamente para a integração europeia ou para a promoção e defesa dos valores consagrados nos Tratados” que regem o bloco europeu.
O antigo primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva foi condecorado, esta terça-feira, com a Ordem Europeia do Mérito, numa cerimónia que decorreu no hemiciclo do Parlamento Europeu, em Estrasburgo.
Aquele que foi também Presidente da República de Portugal entre 2006 e 2016 recebeu a distinção diretamente das mãos da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, numa iniciativa na qual também marcou presença a presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
Foi outro antigo primeiro-ministro português, José Manuel Durão Barroso, que ocupou igualmente o cargo de líder do executivo comunitário durante dois mandatos, entre 2004 e 2014, que enumerou no hemiciclo as razões que fizeram com que Cavaco Silva integrasse o leque de laureados.
“Pela sua liderança como primeiro-ministro e como Presidente, durante as primeiras décadas de Portugal como membro das Comunidades Europeias e da União Europeia”, elencou Durão Barroso. Mas também pelo “seu contributo para as negociações relativas ao Ato Único Europeu, ao Tratado de Maastricht e ao Tratado de Lisboa”, bem como pelo “reforço da legitimidade democrática no âmbito do projeto europeu e pelo seu contributo para uma Europa mais forte e mais unida”.
No momento da condecoração, Cavaco Silva referiu estar “particularmente honrado e sensibilizado por integrar o primeiro grupo de galardoados com a Ordem Europeia do Mérito”.
Trata-se de uma distinção que “homenageia as realizações de pessoas que tenham contribuído significativamente para a integração europeia ou para a promoção e defesa dos valores consagrados nos Tratados” que regem o bloco europeu, lê-se em informação partilhada no site do Parlamento Europeu. A distinção visa ainda “inspirar as gerações futuras, destacando a coragem cívica e o empenho em relação aos ideais europeus”.
Além disso, esta distinção divide-se “em três graus” — Membro da Ordem, Membro Honorário da Ordem e Membro Insigne da Ordem — “por ordem crescente” de importância. Tendo sido atribuída a Aníbal Cavaco Silva a segunda.
O galardão foi criado pelo Parlamento Europeu para assinalar o 75.º aniversário da Declaração Schuman, enquanto “momento fundador da unidade europeia”. A cerimónia desta terça-feira pretendia ser um ato de celebração da União Europeia, reunindo pesos pesados que ajudaram a construí-la e novos rostos capazes de moldar o seu futuro.
Ordem de Mérito celebra as mesmas velhas memórias e poucas caras novas
Foi possível, no entanto, sentir um clima palpável de constrangimento quando o Hino da Europa ressoou no Parlamento Europeu, em Estrasburgo, na terça-feira, com um grupo de cabeças grisalhas no centro do palco a simbolizar o envelhecimento do Velho Continente.
Dos 20 galardoados escolhidos este ano, quase todos os 13 que estiveram efetivamente presentes pertencem ao grupo dos veteranos, deixando o evento como uma fotografia de um mundo que já não existe.
Uma longa lista de antigos dirigentes, encabeçada pela ex-chanceler alemã Angela Merkel e pelo antigo presidente polaco Lech Wałęsa, foi distinguida com a medalha por Roberta Metsola, enquanto as figuras contemporâneas mal apareciam na fotografia.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, distinguido com a mais alta honra da Ordem, não compareceu, e figuras como a estrela de rock Bono, o chef José Andrés e o basquetebolista Giannis Antetokounmpo também declinaram o convite para serem homenageados no hemiciclo.
O resultado global foi uma celebração sóbria do passado europeu, com pouca perspetiva de futuro. Merkel, a convidada mais aguardada, lamentou abertamente o fosso entre as promessas de paz, prosperidade económica e democracia que acompanharam a fundação da UE e a situação atual.
"Para ser franca, estamos muito longe dessas promessas", afirmou, sob aplausos mornos de eurodeputados que contestam abertamente o seu legado político.
Mas alguns discursos foram mais otimistas, como a recordação de Javier Solana, antigo chefe da diplomacia da UE, sobre uma Europa mediadora dos conflitos mundiais, ou a descrição sorridente de Jerzy Buzek, antigo presidente do Parlamento Europeu: da UE como "um sonho" e "um jogo de imaginação". Mas quase todos evocaram uma grandeza passada difícil de imaginar no mundo de hoje.
Não será coincidência que, numa cerimónia de hora e meia, as intervenções mais emotivas tenham vindo dos galardoados mais ligados ao presente: a presidente moldava Maia Sandu, que lembrou como o seu povo tem votado pela Europa apesar das ameaças russas, e a advogada ucraniana de defesa dos direitos humanos Oleksandra Matviichuk, que, em lágrimas, declarou, em nome do seu país: "Europa, estamos de volta".
Quando a cerimónia terminou, num ambiente de reencontro de velhos amigos em que antigas figuras de destaque recordavam os tempos de outrora, um eurodeputado que se dirigia para a saída disse à Euronews: "Estes prémios parecem-me autocomplacentes e desligados dos sentimentos das pessoas comuns".
"Provavelmente, no próximo ano, deverá haver uma maior diversidade entre os laureados", afirmou um responsável do Parlamento à Euronews, explicando que os governos da UE têm escolhido muitas vezes cidadãos nacionais que foram determinantes para a adesão ou integração do seu país na União Europeia.