Segundo os serviços secretos russos, recolhia informações sobre a “capacidade de defesa da Rússia” e sobre o número de mobilizados e voluntários para a guerra na Ucrânia.
O jornalista japonês Imai Yuki, correspondente do jornal “Hokkaido Shimbun”, foi detido por alegada espionagem na ilha russa de Sacalina. A informação foi divulgada na terça-feira pelo Serviço Federal de Segurança da Rússia (FSB).
“Na sequência de operações de investigação, concluiu-se que recolhia e armazenava informações relacionadas com a capacidade de defesa do país, com o objetivo de as transmitir, por ordem dos serviços secretos nacionais, para utilização contra a segurança da Federação Russa”, lê-se no comunicado do organismo.
O Centro de Relações Públicas do FSB divulgou uma gravação vídeo da detenção do jornalista. Nas imagens, agentes mascarados irrompem por um quarto de hotel, colocam algemas num homem deitado de bruços no chão. Em seguida, enunciam os motivos da detenção, realizam uma busca e, depois, conduzem o suspeito para fora do edifício, escoltando-o até à escada de embarque de um avião.
No mesmo vídeo, um dos agentes afirma que o jornalista recolhia alegadamente dados sobre a incorporação de mobilizados e de militares contratados entre residentes das ilhas Curilas para a guerra na Ucrânia.
Sabe-se que Imai Yuki já foi levado para Moscovo. O Tribunal de Lefortovo autorizou a sua prisão preventiva, decisão que ficará em vigor “durante, pelo menos, dois meses”. Nesse período será colocado num centro de detenção.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia comunicou que foi instaurado um processo criminal contra o funcionário do “Hokkaido Shimbun” ao abrigo do artigo 276 do Código Penal russo, relativo a espionagem.
O julgamento deverá começar a 12 de dezembro. Ao abrigo deste artigo, o jornalista japonês arrisca entre 10 e 20 anos de prisão.
Quem é Imai Yuki
Segundo noticiam meios de comunicação russos, Imai Yuki tem 34 anos. Possui acreditação do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo e desloca-se ao país pelo menos desde 2014. No verão deste ano esteve na região de Primorie, onde participou numa expedição a locais de detenção de soldados japoneses prisioneiros durante a guerra soviético-japonesa de 1945. Em setembro preparava para o “Hokkaido Shimbun” uma reportagem sobre a inauguração em Khabarovsk de um monumento à “vitória na Grande Guerra Patriótica sobre o Japão militarista”. Em outubro foi publicada a sua última peça, dedicada à presença de norte-coreanos na região.
O “Hokkaido Shimbun” é considerado um dos principais jornais do Japão. O diário acompanha também acontecimentos em Sacalina, nas ilhas Curilas, bem como as relações da Rússia com o Japão e a Coreia do Norte.
Trata-se da primeira detenção de um funcionário de um meio de comunicação estrangeiro desde 2024, ano em que, no quadro de uma ampla troca de prisioneiros entre a Rússia e os Estados Unidos, foi libertado o jornalista norte-americano do The Wall Street Journal Evan Gershkovich, anteriormente condenado a 16 anos de prisão por uma acusação semelhante de espionagem.
Em 2019, os serviços de segurança russos detiveram em Vladivostoque um repórter japonês da agência Kyodo News, igualmente acusado de atividade de informação. Na altura, foi-lhe ordenado que abandonasse o país no prazo de 72 horas.
Tóquio exige explicações
O governo japonês pediu a Moscovo esclarecimentos sobre as circunstâncias e os motivos da detenção de Imai Yuki.
Minoru Kihara, secretário-geral do gabinete de ministros, afirmou que as autoridades japonesas não conseguiram contactá-lo e desconheciam a prisão até ao anúncio oficial.
“A embaixada do Japão em Moscovo e o consulado-geral em Iujno-Sakhalinsk dirigiram-se às autoridades russas com a exigência de que forneçam de imediato informação e garantam um tratamento humano, justo e imparcial”, declarou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Toshimitsu Motegi.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros japonês tenciona convocar o embaixador russo, Nikolai Nozdrev, para apresentar um protesto e exigir a libertação do jornalista, escrevem os meios de comunicação locais, citando fontes diplomáticas.
Detenção ocorre em clima de relações degradadas
Rússia e Japão disputam há décadas a soberania das ilhas Curilas, motivo pelo qual não assinaram um tratado de paz após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Condenando a invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, o Japão juntou-se em 2022 às sanções ocidentais contra Moscovo.
Em agosto deste ano, Vladimir Putin visitou pela primeira vez as Curilas, parte das quais o Japão considera território próprio. Tóquio reagiu, exprimindo um “protesto firme”.
Há uma semana, a Procuradoria-Geral da Federação Russa solicitou aos Países Baixos a extradição da presidente do Tribunal Penal Internacional (TPI), a cidadã japonesa Tomoko Akane, pedido que o governo japonês qualificou como “inaceitável” e “injusto”.