Olá, de Bruxelas. É segunda-feira e sou a Mared Gwyn. Na newsletter de hoje: a França enfrenta as consequências de um fim de semana marcado pela violência e pelo caos, e Trump volta a criticar Zelenskyy.
França em choque: França continua esta manhã a lidar com as consequências dos acontecimentos deste fim de semana, quando protestos contra a austeridade degeneraram em motins violentos em todo o país. Cerca de 2.000 pessoas foram detidas e mais de 500 agentes da polícia, gendarmes e bombeiros ficaram feridos, num contexto de cenas de caos, edifícios em chamas e confrontos violentos em cidades de Marselha a Paris e Lyon.
As manifestações de sábado começaram de forma pacífica, com os manifestantes a exigir mais investimento público para reparar escolas degradadas e melhorar a qualidade do ensino, bem como medidas para enfrentar o aumento do custo de vida. Mas os desfiles foram apropriados por grupos de manifestantes mascarados, que atearam fogos, destruíram montras e ergueram barricadas.
A correspondente da Euronews em França, Estelle Nilsson-Julien, esteve entre os jornalistas visados por saqueadores no sábado, no centro de Paris. “Os protestos mais calmos, no início do dia, descambaram numa anarquia total”, contou-me Estelle ontem à noite, descrevendo como indivíduos mascarados a cercaram e atacaram o operador de câmara.
“Honte et colère”: Numa mensagem ao país ontem à noite, o presidente francês Emmanuel Macron afirmou que o país sente vergonha e cólera e apelou à unidade.
A contar os estragos: Os estragos são, por um lado, materiais: as associações empresariais estimam danos na ordem das centenas de milhões de euros. Mas os acontecimentos deste fim de semana deverão também deixar uma marca profunda na sociedade e na política francesas, numa altura em que o país entra no que muitos consideram um dos períodos mais decisivos da sua história, antes das eleições presidenciais de abril.
Colocam-se agora questões sobre onde recai a responsabilidade política. O governo não fez concessões suficientes para responder às reivindicações dos estudantes, que organizam manifestações há semanas. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, apresentou a demissão esta manhã, mas o pedido foi recusado pelo presidente Macron.
No domingo, Marine Le Pen, do partido de extrema-direita Rassemblement National (RN), favorita a tornar-se a próxima presidente francesa, falou de uma “crise de confiança” e de uma “ameaça à democracia”.
Jean-Luc Mélenchon, líder da coligação de esquerda radical La France Insoumise (LFI), também foi alvo de críticas por parte de membros do governo e dirigentes de direita, com o candidato presidencial centrista Edouard Philippe a afirmar que o seu partido tem “uma responsabilidade considerável” pela violência dos últimos dias.
Efeito de contágio: As imagens parecem ter despertado um mal-estar latente noutras partes da Europa, com manifestações semelhantes ao longo do fim de semana a degenerarem em violência, incluindo na Bélgica, em Itália e em Portugal.
A leitura de Magyar: O primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, relacionou os motins com os níveis de imigração, afirmando que as “cenas chocantes” confirmam a justificação para as políticas rigorosas do seu governo em matéria de migração.
Trump critica Zelenskyy: Entretanto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, “não quer pôr fim a esta guerra, e provavelmente nunca quis”, depois de Kiev ter lançado, no fim de semana, um grande ataque de drones contra um terminal petrolífero em São Petersburgo.
“O país de Zelenskyy está em ruínas, uma grande parte do seu território está perdida, os seus oceanos e mares desapareceram e a população masculina é reduzida, ferida e/ou morta”, acrescentou Trump numa publicação contundente na rede Truth Social.
Conversações Ucrânia-Estados Unidos continuam: A escalada surgiu logo após um sinal de possível distensão. Zelenskyy disse no domingo que se reuniu com os negociadores norte-americanos Steve Witkoff e Jared Kushner para discutir os próximos passos dos esforços diplomáticos para pôr fim à guerra da Rússia.
Zelenskyy revelou também que Washington tinha retomado o intercâmbio de informações sobre mísseis balísticos russos em aproximação, após uma interrupção de três dias. “Estamos muito agradecidos por isso”, disse à NBC News. “Agora funciona.”
Mas o líder ucraniano traçou também um cenário sombrio da relação com os Estados Unidos, numa entrevista separada à Bloomberg, na qual disse acreditar que “foram dados passos para convencer a Ucrânia a capitular” perante a Rússia e sugeriu que Washington está a atrasar a entrega de mísseis Patriot através do esquema PURL da NATO.
Rússia continua a bombardear a Ucrânia: A Rússia, por seu lado, lançou sucessivos ataques com mísseis balísticos contra Kiev durante a noite, danificando uma estação de metro e infraestruturas ferroviárias próximas. Desta vez, ao contrário dos ataques da noite anterior, os residentes receberam avisos de ataque aéreo com antecedência.
Os ataques incessantes de Moscovo transformaram Kiev numa “verdadeira cidade de linha da frente”, disse em exclusivo à minha colega Sasha Vakulina a embaixadora da União Europeia na Ucrânia, Katarína Mathernová, ao descrever a crescente perturbação da vida quotidiana na capital. Veja.
Dia seguinte: Entretanto, Bruxelas começa hoje a lidar com o rescaldo da cimeira decisiva da semana passada, em que os líderes da UE se comprometeram a responder ao pedido da Ucrânia de mais 70 mil milhões de euros em apoio financeiro e militar para o próximo ano, escreve Jorge Liboreiro, que acompanhou a reunião de dois dias.
À Comissão Europeia foi pedido que apresente opções para financiar o défice de 70 mil milhões de euros, que se somará ao empréstimo de 90 mil milhões acordado pelos líderes há menos de um ano. É doloroso para os líderes reabrir o debate, mas a escalada total da Rússia, que visa colapsar a economia ucraniana, alterou radicalmente o quadro e fez disparar os custos de guerra.
“Na altura em que planeámos o empréstimo de 90 mil milhões, não podíamos prever como seria 2027, mas agora é claro que temos um défice de 70 mil milhões que tem de ser coberto”, afirmou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.
E agora? Para já, emitir uma nova ronda de dívida conjunta parece ser a opção mais simples e rápida, embora seja significativamente mais onerosa, financeira e politicamente. Alguns países, como a Alemanha, Espanha e Países Baixos, preferem recorrer aos 210 mil milhões de euros de ativos russos imobilizados. Mas o primeiro-ministro belga, Bart De Wever, deixou claro durante a cimeira que mantém as suas objeções.
Outras opções, como a reafetação de fundos da UE e a coordenação de contribuições bilaterais, são muito mais limitadas.
Bruxelas insiste que a UE não ficará sozinha a suportar os 70 mil milhões de euros. Mas os aliados ocidentais não aumentaram o seu contributo de forma suficiente, aprofundando o défice financeiro de Kiev. Tudo indica que, desta vez, o bloco terá de pegar na tocha. O presidente Zelenskyy disse-o claramente aos líderes: “Este é um montante realista. E peço-vos que encontrem este apoio.”
Mistura explosiva: O esforço para encontrar o dinheiro vai sobrepor-se às difíceis negociações sobre o próximo orçamento da UE. A cimeira evidenciou as enormes divergências que persistem entre capitais, que mantêm as suas linhas vermelhas. Os frugais insistem em que são necessários cortes maiores, mas os Amigos da Coesão opõem-se a novas reduções. António Costa, presidente do Conselho Europeu, assumiu a liderança do processo e apresentará um novo texto de compromisso nas próximas semanas. Será possível acordar o financiamento para a Ucrânia em paralelo com o orçamento? Alguns defendem que sim, outros dizem que não.
França: Magyar associa motins à migração e diz que "cenas chocantes" justificam linha dura
O primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, associou os motins do fim de semana em França aos níveis de imigração, afirmando que as “cenas chocantes” justificam as políticas de linha dura do seu governo em matéria de migração.
“Ao ver esta destruição sem sentido e esta violência injustificada, talvez agora fique claro para todos porque é que a Hungria adota a postura mais dura possível em relação à migração”, escreveu Magyar nas redes sociais no domingo, juntamente com um vídeo que mostra edifícios em chamas.
Disse também que a “grande maioria dos países europeus” quer uma abordagem mais rígida à migração e que “finalmente acordou”.
Numa cimeira europeia realizada na semana passada, um grupo de países, incluindo Dinamarca, Itália e Hungria, pressionou para que a migração fosse tratada com linguagem mais forte nas conclusões. O presidente francês Emmanuel Macron alertou contra “a estigmatização” dos imigrantes e o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez elogiou a sua contribuição positiva.
O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, transmitiu uma mensagem semelhante no domingo, afirmando que a Polónia “não irá repetir os erros de outros países europeus” em matéria de imigração.
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Salários vs preços: Pressões económicas por trás dos protestos na Europa. Desde o aumento dos preços dos alimentos e da habitação incomportável até à estagnação do poder de compra e à pressão sobre os serviços públicos, as manifestações em toda a Europa evidenciam uma frustração crescente com os níveis de vida. Angela Barnes tem os detalhes.
Pode Espanha suportar as suas pensões? O que saber sobre o debate de financiamento antes das eleições. Este ano, Espanha fixou um novo recorde na sua fatura mensal de pensões, quase 14,5 mil milhões de euros. O sistema de Segurança Social, que paga pensões e outras prestações, registou o menor défice desde 2011. Como poderá isto influenciar a campanha eleitoral antes da votação de 29 de novembro? Cristian Caraballo explica.
Trump apoia Netanyahu nove dias antes das eleições israelitas, quebrando meses de silêncio. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apoiou no domingo o fragilizado primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, na reta final da sua campanha de reeleição, depois de as estratégias de ambos para o Irão e Gaza se terem afastado. Jeremiah Fisayo-Bambi tem mais informação.
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- Ministros do Emprego e dos Assuntos Sociais da UE reúnem-se no Luxemburgo.
- A sessão plenária do Parlamento Europeu começa esta segunda-feira.
- O comissário europeu para a Migração, Magnus Brunner, está em Londres para reuniões com representantes do governo.
Por hoje é tudo. Jorge Liboreiro e Sasha Vakulina contribuíram para esta newsletter.