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Kiev tornou-se “verdadeira cidade na linha da frente”, diz embaixadora da UE

Katarína Mathernová, embaixadora da UE na Ucrânia
Katarína Mathernová, embaixadora da União Europeia na Ucrânia -  Direitos de autor  Euronews
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De Sasha Vakulina
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Numa entrevista exclusiva à Euronews, Katarína Mathernová defendeu o apoio europeu à Ucrânia e afirmou que Kiev poderá concluir até 2030 os preparativos técnicos para a adesão à UE.

Kiev tornou-se uma “verdadeira cidade na linha da frente” à medida que a Rússia intensifica a campanha aérea contra a Ucrânia, disse à Euronews a embaixadora da União Europeia no país, Katarína Mathernová, que alertou que os ataques incessantes estão a perturbar cada vez mais o quotidiano na capital com a aproximação do inverno.

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Em entrevista exclusiva ao programa “Europe Today” da Euronews, Mathernová, que vive na Ucrânia desde setembro de 2023, afirmou que a situação se agravou de forma acentuada desde o fim de agosto, quando a Rússia começou a lançar ataques frequentes durante o dia, além dos bombardeamentos noturnos.

“O que aconteceu desde o fim de agosto deste ano foi que Kiev se tornou uma verdadeira cidade na linha da frente”, disse.

Os alertas de ataque aéreo obrigam crianças a interromper aulas e a procurar abrigo, levam médicos a suspender procedimentos médicos e paralisam o metro. Os ataques contra pontes complicam ainda mais a circulação na capital, acrescentou.

“A situação é muito, muito, muito difícil e o inverno ainda não chegou”, advertiu Mathernová.

Ao recordar os ataques, em setembro, contra a Academia Nacional de Ciências, um hospital perto da delegação da UE e um jardim-de-infância no centro de Kiev, Mathernová acusou a Rússia de violar de forma sistemática as leis da guerra.

Uma jovem reage ao ver a sua casa danificada após um ataque de mísseis russo durante a noite em Kiev, 14 de outubro de 2026
Uma jovem reage ao ver a sua casa danificada após um ataque de mísseis russo durante a noite em Kiev, 14 de outubro de 2026 AP Photo

“Não nos podemos esquecer de que atacar alvos civis é um crime de guerra. Vai contra as leis da guerra”, afirmou.

“Os crimes de guerra estão a acontecer diariamente.”

As declarações surgem numa altura em que a Rússia recorre cada vez mais a drones com propulsão a jato, mais rápidos, o que coloca desafios adicionais às defesas aéreas da Ucrânia.

Europa continua a ser o apoio mais fiável da Ucrânia

Numa altura de crescentes tensões entre Kiev e Washington, Mathernová afirmou que a Europa se tornou a fonte mais fiável de apoio militar e financeiro à Ucrânia.

Depois de participar em reuniões entre Zelenskyy, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente do Conselho Europeu, António Costa, disse ter procurado transmitir a urgência da situação que os ucranianos enfrentam perante a intensificação dos ataques russos.

Segundo Mathernová, a UE fornece atualmente cerca de três quartos do apoio financeiro à Ucrânia. Acrescentou que os líderes europeus permanecem determinados em manter essa ajuda, ao mesmo tempo que incentivam outros parceiros a contribuírem mais.

Sublinhou também que o bloco não tem intenção de aliviar as sanções contra Moscovo enquanto a guerra continuar.

António Costa, Volodymyr Zelenskyy e Ursula von der Leyen chegam à cimeira da UE no edifício do Conselho Europeu, em Bruxelas, 16 de outubro de 2026
António Costa, Volodymyr Zelenskyy e Ursula von der Leyen chegam à cimeira da UE no edifício do Conselho Europeu, em Bruxelas, 16 de outubro de 2026 AP Photo

Questionada sobre o apoio europeu a ataques ucranianos contra refinarias de petróleo russas, Mathernová recusou comentar as possíveis consequências diplomáticas para as relações com Washington.

Ainda assim, apoiou a posição da chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, que descreveu esses ataques como legítima defesa.

“É a indústria de combustíveis fósseis que alimenta a guerra do lado russo”, afirmou Mathernová.

Hungria aproxima-se da Ucrânia e alimenta esperanças de adesão à UE

Para além do apoio militar e financeiro, um dos aspetos mais decisivos do apoio europeu à Ucrânia é a perspetiva de adesão à UE.

Uma reunião recente entre Zelenskyy e o primeiro-ministro húngaro, Péter Magyar, em Bruxelas, veio reforçar a esperança de novos avanços nas negociações de adesão da Ucrânia.

Mathernová, que não participou no encontro, afirmou que os relatos públicos sugerem que as conversações correram bem, dando razões para algum otimismo após anos de disputas entre Kiev e Budapeste.

No início da semana, a UE abriu mais dois grupos de negociação, relativos ao mercado interno e competitividade e ao crescimento inclusivo, elevando para quatro o total de seis.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, aperta a mão ao primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, em Bruxelas, 16 de outubro de 2026
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, aperta a mão ao primeiro-ministro da Hungria, Péter Magyar, em Bruxelas, 16 de outubro de 2026 AP Photo

“Faltam abrir apenas dois grupos e espera-se que isso aconteça antes do fim do ano”, disse.

Um novo grupo de trabalho conjunto, lançado pela comissária para o Alargamento, Marta Kos, e pelo primeiro-ministro ucraniano, Serhii Koretskyi, vai reunir-se duas vezes por semana nos próximos meses para ajudar Kiev a acelerar reformas, sobretudo no Estado de direito e no combate à corrupção.

Para Mathernová, a vontade política de aderir à UE já existe. O desafio agora é transformar essa ambição em reformas concretas.

“Continuo a acreditar que todo o trabalho técnico e toda a preparação podem ficar concluídos até ao fim da década”, afirmou.

Isso, no entanto, não significa necessariamente adesão em 2030. A eventual entrada da Ucrânia na UE continuará a depender do acordo dos Estados-membros.

Ucrânia vai tornar a União Europeia mais forte

Mathernová procurou também aliviar as preocupações quanto às implicações económicas da adesão da Ucrânia, lembrando que temores semelhantes acompanharam anteriores alargamentos da UE.

Recordou como a entrada de Espanha e Portugal deixou inquietos os produtores de vinho europeus e como o alargamento a Leste, em 2004, gerou receios em relação à concorrência dos agricultores e dos trabalhadores dos novos Estados-membros.

Reconheceu que o vasto setor agrícola e o potencial económico da Ucrânia irão inevitavelmente suscitar questões semelhantes, mas sublinhou que podem ser geridas através de negociações, regimes transitórios e compromissos.

Um homem pendura a bandeira nacional na varanda do seu apartamento danificado após um ataque com mísseis durante um ataque aéreo noturno russo em Kiev, 14 de outubro de 2026
Um homem pendura a bandeira nacional na varanda do seu apartamento danificado após um ataque com mísseis durante um ataque aéreo noturno russo em Kiev, 14 de outubro de 2026 AP Photo

Os obstáculos políticos podem revelar-se mais difíceis de ultrapassar. Mathernová apontou as prolongadas dificuldades de adesão da Macedónia do Norte como exemplo de como disputas bilaterais podem travar o alargamento, embora se mantenha confiante de que uma diplomacia persistente poderá ajudar a resolver essas divergências.

Apesar desses desafios, insistiu que a eventual adesão da Ucrânia beneficiará o bloco no seu conjunto.

“Estou profundamente, profundamente, profundamente convencida de que a União Europeia será mais forte, mais relevante no mundo e mais competitiva com a Ucrânia no seu seio”, declarou.

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